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Cloro e outros poemas

Poemas de Ana Maria Vasconcelos

Silêncio


eis que viro uma dobra de mundo por dentro: brochura abraçada, cai-me uma praia sob: pura contemplação (horror incluso); não há portas: chegar é há muito, mas pisar
.
areia revela (revés-estopim): é milagre; choque de ossos-colibris, leque fatal onde um surto fenece brandura invisível – da sua mole indiscernibilidade a congênita dor aborta pólen de papel picado; o vapor de uivos anuncia – é o começo
.
dos destroços; prossegue o pequeno espetáculo: chove raio de sol na minha cara, queima, eu bebo, convulsões gargarejam inconclusas, ondulam palavras de luz sem sintaxe, são insetos de asa frágil; engolir é o primeiro erro (escalada para o nada,
.
quem quereria?): um horror me trafega, me crava bálsamos, me mutila pensar,
(sucumbo n
o vir-à-tona de um afogado!)
deve ser
.
a memória morrendo, sepulto junto todos os gritos; na claridade de calar, ouço fúria, enterneço: o mar convida e expulsa; implica doloroso enfrentamento ir até um coração; tiro as
.
chinelas, a planta dos pés afunda um pouco no vício tátil dos grãos, cai do galho, despertence, visto caixão para todas as guerras: desenformo de dentro pra fora, devenho paisagem, ruo espaços na antessala porosa do mar:
.
estampo vento, morro (enfim) pó colhida pela mão que me chama de volta com suas unhas brancas de espuma que enterram
.
futuros: des
.
apareço

* * *

Cloro

Vence sempre o gosto que se tem (chamam "sensação" aí onde você mora) no início da garganta. Chorar a nossa saudade (agora, de novo) é desde esse farelo seco pesando por dentro, sujeira em estrelado (as pontas; pueril) desencanto. Me abraça, que eu não sou solar, e agora era a hora em que se dizia: adeus (que barragens?, o peito). E a minha boca não aguenta. O colo morno de onde eu nasço não aguenta.

Vem em estouros; tribunal; alianças.

(É insuportável andar: não há braços)

[– Eu te amo.

Era uma lista inteira para debates e só conseguíamos "eu te amo" – que restos? (Cortam, sim, vêm pela fumaça negra entre o queixo e o precipício, vêm queimando sangue desde a primeira abertura, entre os dentes – mas caem). Assim: "é, é isso tudo, e mais aquilo também, mas eu te amo".] E nenhuma luz, nenhuma respiração.

Enguiçado vale para galopes – e nem se queria!

(parede; parede; parede)

– As chaves.

infernal o barulho sem voz tiritam caindo para sempre sem pausa as mãos não são amparo as coxas não não amparo os joelhos em carne viva e a boca a boca a boca cinzeiro de páginas em desabrigo chuvas em reverso caótico para dentro o seu hálito para dentro a sua unha o seu vilíssimo gozo de desprezo para dentro tudo para dentro enquanto a porta e o corredor e todas as roupas de ontem arfam arfam e irracionalizam o doce protótipo sem olhos você se lembra em ruínas a cara volta volta volta volta volta volta volta

 , a me dizer

* * *

Insolação

as suturas frouxas, o lodo, a cara crisada: o desespero avisa em sol. abafam no canteiro das obviedades roídas uma elegia-para-quem-fui, mas mal se ouve quando uma fruta apodrece, também. "grandes desimportâncias", acusa a parede com sua brancura escamoteada pelos retratos. resta a casa, resta o peso da casa, aquela terra na varanda e aqui, nestes cabelos. insolação; breve explosão de paralisias; desemparelham-se febris os peixes nas fotografias das bocas – no labirinto da náusea a claridade moída cai suas rendas sobre os olhos fixos, inférteis. há a sensação de ter duas mãos e isto não ser natural, há esta falta de guelras e o vício de continuar vivo enquanto o corpo prostra no incômodo de agachar com ossos demais. tudo demais, e então – vísceras escorrendo, como rabiscos, saltando de uma última gravidez. (pronto, está soletrado.)

* * *

Pensar, esta chaga

esculpir calores no muro atrás do qual uma fonte, remédio para todo senão; varar pegadas para lamber a terra sob (palpar o suor entre os pés e a velocidade); gostar, calar; pesar cristais de porra sobre cada formiga fabulada (eis o roer: dançar doenças); morrer para que uma morte seja absoluta, pois; colorir, enfim, as cursivas muitíssimo bem desenhadas apontando para febres cada vez mais íngremes.

apodrece-se. inexiste-se.

e o animal responde, estoico na sua condição de fogo:

* * *

É já apodrecer quando se conta em tempo

Frágil como o colo trêmulo de quem conferiu a própria expectativa pela terceira vez (querer estar acuado na fantasia dos côncavos é isso) dentro do hábito de revolver a fervura (arrastadas as bolhas, tolo tapete de água dócil) na saudável burrice de se comemorar a volúpia de um clímax concedido: o vapor!, o vapor! (– morte, como tudo); frágil como o ombro pulverizado no fim de tarde pela unha passarinha (quis dizer: afetos – por isso em bicho); frágil como o avesso de quem disse "tudo bem" (aí sabemos todos, e nesse caso...):

o instante,

que, enquanto róseo (agora-agora), – impertinências! – polui o corpo com seu império de acontecer.

* * *

Acreditar (queremos; e)

Nas escaras ardidas do que o instante é sobra: o infame gesto de ofertar carinho (risadas aqui) faz curva – é falácia, como tudo; e ficamos. Devíamos saber: as cores explodem em revoada, e ficamos.

(Nenhuma risada, ou: Por que a alegria não vem).

 

 

 

Verão 2015 / Edição amarrada em um poste

Ana Maria Vasconcelos

Ana Maria Vasconcelos é Mestre em Literatura Portuguesa (UFRJ) e escreve.

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