Início          Edição atual          Edições anteriores          Blog          Corpo editorial          Normas para publicação          Quem somos?          Contato         

 

Marina Skylab

Conto de Davi Boaventura

Minha irmã e eu no apartamento, a mesma cena de sempre.

Por que demorou?

O trânsito.

De verdade?

Lógico que não, ele demorou de novo para me pegar.

As duas deitadas no chão da sala e duas latinhas de cerveja, as pernas na parede. Maconha, incenso, um resto de pipoca amanteigada. Falamos sobre o Collor, a inflação, sobre o idiota do Davi, que é o marido de minha irmã, sobre o calor do meu novo apartamento minúsculo alugado, minha primeira vez morando sozinha. Falamos sobre nossa santíssima mãe e sua insistência em nos pedir, mesmo adultas, que rezássemos o santo anjo do senhor que a ti me confiou a piedade divina. E eu tentei falar sobre esse assunto que me incomodou na aula da semana, o nada, o conceito de nada, que é um paradoxo, um paradoxo óbvio, e desde pequena me incomoda – no discurso maluco do professor me incomodou ainda mais, me sufocou –, mas eu não sabia me explicar, e minha irmã tampouco sabia me entender, então me permanecia essa ânsia inútil em definir o nada, se é plausível ou não um vazio existir.

Eu alegava: não é.

E minha irmã respondia: claro que é, Marina.

Mas por que é?

Minha irmã cochilava, a cabeça em minhas pernas, encolhidinha, me disse esquece, Marina, esquece, me dá um copo d’água, por favor, e eu lhe trouxe um copo d’água, mas eu não esqueci, não se esquece, pensei no assunto, cada vez mais, por uma semana inteira. Eis minha conclusão: por ser jovem, me faltava uma noção palpável do nada. E, portanto, quando matei aquele primeiro pássaro, mesmo inconsciente, era essa a noção que eu procurava.

            Enfim.

Arranjei um trabalho, temporário como todos os outros, em uma biblioteca pequena de bairro: limpava a poeira dos livros e das estantes e recolhia os exemplares de consulta esquecidos nas mesas. Às vezes fingia organizar o catálogo enquanto lia orelhas e sinopses de contracapas. Nunca olhei as fotos dos autores, não gosto de autores. Com o dinheiro do primeiro salário, comprei o pássaro mais barato que achei e o levei para casa em uma caixa de sapatos rosa salpicada de furos, a caixa de sapato lhe serviu de gaiola pelos seis dias seguintes. No domingo, quando ele já estava bem fraquinho e mal piava e nem acreditava mais em receber alpiste, estirei o pássaro na tábua de carne.

Fotografei a cabeça dos onze pássaros que degolei no primeiro mês e dos seis do mês seguinte para que eu pudesse observar outra vez um pouco antes de dormir e procurei catalogar cada um de acordo com a cor, penugem, bico, formato dos olhos, onde comprei e horário da morte. Em um verso de caderno, eu listei sete pardais, cinco canários, um sabiá e quatro cotovias. Mas depois, no terceiro mês, de repente os pássaros não me interessavam mais e experimentei um hamster e me repeti na semana seguinte e novamente quatro dias mais tarde, matando quatro no total já que no último dia matei dois. Quando eu já planejava matar um cachorro, ou um coelho, desisti dos animais porque, apesar de estar cada vez mais perto do instante onde eu simplesmente iria olhar e iria entender e iria respirar aliviada, percebi não ser possível descobrir o que eu pretendia descobrir com pássaros nem com coelhos ou cachorros e nem com animal nenhum.

            A única dificuldade, nesse período, foi secar minhas mãos. Elas permaneciam úmidas e escorregadias, formigavam, coçavam, ainda que eu as esfregasse constantemente em qualquer superfície áspera, em minhas calças, mesas, cortinas, nas estantes de ferro, nos livros de capas grossas, a maioria do setor onde eu trabalhava, além dos guardanapos e toalhas de papel. Os exemplares organizados por mim, e não pela bibliotecária, podiam ser identificados com facilidade, mas ninguém notou, ou ninguém se importava em notar porque a biblioteca de repente havia virado um caos, de tarde os estudantes se reuniam para discutir política e terminavam em uma gritaria sobre futebol, mesmo eles sendo todos flamenguistas, caras-pintadas de vermelho e preto. Comemorei o impeachment com um deles, que nunca mais apareceu por lá.

Minha irmã veio uma terça-feira à noite, a mesma cena.

Tomamos sorvete de flocos e licor, eu precisava falar sobre os pássaros e os hamsters e sobre a maneira engenhosa que arrumei para discretamente jogá-los fora – em pedaços, queimados, embolados com o material velho da faculdade –, mas o receio, a vergonha, minha irmã não entenderia. Ela, desta vez, também parecia querer falar alguma coisa e não encontrava como. Ela se esquivou comentando sobre o helicóptero do coitado do Ulysses caindo no mar oceano e bebericava um novo gole, em silêncio, por um período sonolento, até se decidir e, soluçando, no meu colo, contar que o Davi, seu marido, lhe traía há meses, talvez anos, o filhodaputa, vai saber.

O que é que você vai fazer a respeito?

E ela sugeriu o que eu mesma pensava em sugerir.

Pensamos em tiro, estricnina, arsênico, overdose de clonazepan, acqua tofana, asfixia no sono, macumba, facada, matador de aluguel, arremessar o Davi na frente de um caminhão em alta velocidade, fingir um acidente qualquer com uma caminhonete, poderíamos empurrar pela janela, ou enterrar vivo, e desistíamos. Minha irmã se assustava, chorava, chorava sempre, chorava muito. Quem é que mata o marido ainda, peloamordedeus, Marina? Seríamos presas. Não sabíamos como nos livrarmos do corpo. Não sabíamos como cortar um corpo. Não teríamos força, o sangue se espalharia, grudaria. O sangue escorreria pela porta. Iria até descer as escadas do edifício, Marina, ele é gordo, deve ter muito sangue.

Minhas respostas beiravam o monossilábico.

Outra vez, Marina, o que é que a gente faz com o corpo?, minha irmã começava a suar, no rosto, e eu nas mãos.

Não sei, não faço a menor ideia.

Eu me imaginava uma criminosa muito mais talentosa.

Eu também.

Me imaginava uma criminosa mais talentosa?

Acho que é melhor a gente esquecer essa merda.

E a conversa se repetia – dois, três dias depois –, minha irmã chorava, desistia, se decidia. O que é que a gente faz com o corpo? Não sei, Marina, não sei, não sei, não sei, brigamos, duas loucas. Mas, enfim. Vamos fingir assalto? Quebra a maçaneta, uma facada no peito, nos cortamos também, algumas porcelanas desaparecem, etc. Como no cinema, segundo minha irmã. Ela sempre sonhou em ser atriz.

Portanto: de máscaras, vestidas de calça de lã crua e casacão preto, com coturnos e luvas grossas, preparadas para quebrar as cadeiras e as estantes da sala, roubar os porta-retratos, as porcelanas e os quadros, transformar a cozinha em uma poça incontornável de ketchup, água, óleo, sabão e comida, entramos quietas pela sala, o corredor, escada, o quarto, barulho de água corrente no banheiro. E encontramos o Davi caído no chuveiro, o corpo dobrado, a cabeça com uma mistura entre espuma de xampu e sangue – a autopsia concluiria ter sido um infarto fulminante, ele enfartou, caiu, amassou a cabeça no registro do chuveiro.

Minha irmã se sentou no vaso sanitário e, com uma faca de churrasco pendente na mão, chorou a ponto de passar mal. Eu, frustrada como nunca, me esforcei em nos consolar. Mas desisti, não havia consolo. Tirei as luvas e lavei as mãos suadas na pia, eu não queria parar de me lavar as mãos.

 

 

 

Verão 2015 / Edição amarrada em um poste

Davi Boaventura

Davi Boaventura era escritor e jornalista. Nasceu em 1986, em Salvador, formou-se pela Universidade Federal da Bahia e cursava, antes de ser encontrado no chuveiro, um mestrado em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Lançou, em 2012, a novela Talvez Não Tenha Criança no Céu.

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

A revista

Edições anteriores

Blog

Corpo editorial

Nossos artistas

Autores (breve)

Colabore com a Raimundo

Normas para publicação

Contato