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Editorial: Verão 2015

de Raquel Parrine, com colaboração de Rafael Lasevitz

Katsushika Hokusai / Viajantes surpreendidos por um vento súbito (1832)

Era uma vez um dia em que a palavra escrita existia para imortalizar as coisas e buscar as grandes verdades da vida. Textos eram escritos em monolitos, elegias eram recitadas para os mortos, óperas esmiuçavam a condição humana, romances eram criados para discutir os certames éticos da sociedade. Era assim a literatura e ela vendia mais do que pasta de dente.

No século XIX, Tolstói, o escritor mais pop da Rússia do seu tempo, peitou o tzar e militou ativamente para a abolição da servidão, depois criou um precursor do sistema Paulo Freire, educou essa galera toda e ainda disse que as crianças camponesas escreviam melhor que ele. De quebra, porque tinha um tempo sobrando, fundou a própria religião, virou vegetariano pacifista e agitou as massas num movimento que deu origem TANTO à revolução russa QUANTO à independência da Índia. Seus escritos, de tão subversivos e francos, foram censurados TANTO pelo governo tzarista QUANTO pelos expurgos comunistas.

E você? O que você fez hoje? (Eu levei o carro na oficina e dei o dia por encerrado. E escrevi isso.)

É óbvio ululante que a palavra escrita, hoje, não tem nem perto da sua função política e social de outrora. Os escritores nossos contemporâneos, em vez de fugirem na neve e despojarem-se dos seus bens materiais (#TolstóiForever), tomam toddynho de manhã e passam a tarde assistindo netflix, esperando a hora de dar aula de inglês no cursinho à noite. As elegias, os grandes romances, os sonetos, foram gradualmente cedendo lugar ao hashtag, aos emojis e aos tweets. OK, não estou falando nada de novo, todo mundo sabe disso. Olivero Girondo, um poeta argentino, escreveu em 1922 um livro de versos chamado “20 poemas para serem lidos no bonde”, porque aquele era um mundo da velocidade, das propagandas, da frivolidade das relações, da perda da aura (@WalterBenjamin), em suma, do futuro distópico em que a palavra agoniza em seus últimos minutos de vida. Então quer dizer que a gente vem de um processo longo que já anuncia o reinado absoluto do tétrico. Na verdade, ao dizer tudo isso, estou afirmando que vivemos num estado de futuro do pretérito, ainda tentando dar conta de uma situação que é realidade – ou nos parece realidade, o que é a mesma coisa – há uns 100 anos.

Ao mesmíssimo tempo, essa frivolidade do escrito é muito massa, é resultado direto de um processo inconstestavelmente necessário de massificação da educação e dos bens de consumo. Quer dizer que hoje (quase) todo mundo é alfabetizado e tem acesso à tecnologia. Quer dizer também que parte da elitização do literário – fato que, aliás, incomodava bastante o Tolstói e que o levava a optar, sempre, pela linguagem mais chã possível – essa elitização está perdendo seu privilégio. Em outras palavras, ler está deixando de ser um privilégio das classes abastadas, mas um direito de todos. Além disso tudo, que existe algo ainda mais interessante aí. Essa trivialização da linguagem é também uma busca de essência. Mas não uma busca de essência do homem complexo cosmopolita branco de classe alta default, que era o que estava por trás de generalizações como o humanismo do século XVIII, mas a busca da essência no que temos, como humanos, de mais basicamente em comum. Sim, é a experiência das redes sociais, são as gírias que a gente usa na rua, é a conversa sobre o tempo no elevador, os momentos em que estamos pensando como trocar a geladeira, como tirar aquele documento, quais são os efeitos colaterais desse remédio, que horas que essa meleca de ônibus sai. Como aquele filme argentino, Relatos Selvagens, você viu? Todas aquelas situações, as brigas no trânsito, o casamento com música da Rihanna, a burocracia acéfala a que foi reduzida a nossa experiência como seres humanos. Isso é o que nós temos de mais essencialmente em comum: Rihanna e a vontade de explodir um órgão público.

Gostaríamos de convidá-los a ler a nossa humilde revista como um conjunto de textos que está buscando uma voz. Um grupo de pessoas de todos os lugares do Brasil, com referências literárias absolutamente diferentes (A-B-S-O-L-U-T-A-M-E-N-T-E), que não estão escrevendo para se tornar o próximo Olavo Bilac, mas para investigar, na experiência da escrita, nas condições próprias do nosso tempo e das nossas próprias habilidades, um sentido da experiência humana como nós, singularmente, na nossa pequenez irredutível, a vemos.

A gente montou essa revista no desejo de se escutar, de se unir – ainda que por meio de rejeições e seleções, que ainda fazem parte de uma experiência muito… ar… chata, desculpem – e tentar ouvir a voz das pessoas um pouco mais alto do que a da friboi, da ricardo eletro e da tim, viver sem fronteiras.

Por isso obrigada a todos que nos escreveram e nos enviaram seus filhotinhos, porque, como diria Bolaño, a escrita é um ofício perigoso. E tem que ter muita coragem pra tentar gritar mais alto do que o cara das casas bahia.

O nome desta edição faz referência ao poeta Manoel de Barros que, entre tantas coisas, disse também que “pra não morrer, é só amarrar o tempo num poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste”. Achamos que valia a pena tentar.

A gente espera que vocês gostem. Boa leitura!

 

 

 

Verão 2015

Edição amarrada em um poste

Ana Maria Vasconcelos

Davi Boaventura

Gabriel Ataíde

Gabriela Hollanda

Geruza Zelnys de Almeida

Gilberto Chaves

Iago Passos

Jeanne Callegari

Leandro Rafael Perez

Maíra Ferreira

Maíra Mendes Galvão

ManSHA

Marcelo Pierotti

Marina Cristaldo

Matheus Arcaro

Mestre Américo

Moema Vilela

Patrick Holloway

Rafael Lasevitz

Raquel Parrine

Thais Lancman

Victor Prado

Viktor Nascimento Schuldtt

Wanderson Mendes Machado

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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