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A caixa mágica

Conto de Gilberto Chaves

“Os pais temem que o amor natural dos filhos se apague. Que natureza é essa então, sujeita a ser apagada?” Pascal – Pensamentos

O entardecer coloria, aos poucos, lugares estratégicos naquele canto da cidade, pintava de rosa apenas alguns espaços dispersos. O restante passava de uma claridade ardente a uma penumbra cinzenta. Entre as duas grandes avenidas que demarcavam seu território, seu refúgio, havia um rio imundo e, por sobre ele, uma ponte. Nela o sol escancarava sua imensidão de possibilidades: o dourado ia corroendo as coisas até que, por alguns instantes, despejava uma luminosidade fugaz em seu mundo subterrâneo.

Já estava com a caixa mágica em mãos. O impossível sorria para ele e a realidade de seu dia tornava-se, agora, ao contrário, um pesadelo de força insignificante. Poucas quadras desertas cheias de pensões e prédios envelhecidos distorciam sua rotina nas horas de sol a pino.

Ah, mas agora, neste resto de dia, com a caixa mágica em mãos, aquilo tudo parecia um alívio, pois não mais era, ou começava a deixar de ser. Findava mais um dia de esmolas, de sono e dor, de fome e sede. Mas nada como ser decidido e ter essa força interna, esse dom de sonhar. Árvores retorcidas, raízes gigantescas abençoavam o desprovido de casa em um território exposto, anunciado e público, porém misterioso e confortante.

O som da água a rolar, o cheiro do cimento resfriando. Buzinas soavam aqui e acolá. Esse entardecer era especial. Não era mais um dia quente, muito menos mais um dia frio. Era o primeiro sopro da primavera amenizando de leve a temperatura, acelerando o bater de todos os corações, ainda mais de seres jogados na dependência do dia, das estações, do aberto: um anoitecer quase morno.

Desenrolou a caixa mágica de um emaranhado de papel-jornal como quem desfaz um embrulho de presente. Dourada, exalava um cheiro forte. Algumas lembranças recorrentes: o rio falaria, as árvores concordariam; nada mais seria tão revelado nem tão manifesto. Tinha de aproveitar aqueles últimos instantes da tarde. Sabia os medos que viriam quando tudo fosse escuridão. Sabia dos olhos repressores dos salgueiros, sabia do silêncio murmurante e reprovador do rio.

Um vento estranho. Primeiro sinal, e lá longe podia tocar o resto da cor de um sol enfraquecido. Podia senti-la com seus dedos que, mesmo parados, se moviam com a brisa. Seu corpo magro, desmilinguido, cansado e sujo, logo que aberta a caixa, se libertava. Ah, esses sons irritantes que brotam do nada, neste instante, quando o dia se esvai, eram um festival de autoria anônima. Brincava em decifrar o que diziam, em códigos, aquelas buzinas. Às vezes, esperava que hoje também, pois aprendera a abrir o coração junto com a caixa mágica, ouvia o rio responder com um ritmo quase monótono, criando uma sinfonia: a constante fria da água roçando os muros, as pequenas quedas dos diques entupidos. Permitiria seu corpo sumir até não se lembrar mais de nenhuma ferida. Os calos, o encardido, os cortes, toda falha seria... Seria... Já não mais era. Este intervalo entre sua memória física e sua nova experiência demarcava uma distância que podia descrever como sua única certeza. Cada passo dessa dádiva químico-física lhe trazia um carinho especial de paz e de consolo.

Um silêncio feito de raízes, um silêncio feito de casca de árvore. Era o segundo sinal. Nesta hora, a ponte parecia feita de luz. Branca como a lua, congelada sobre ele, desprendendo-se, ameaçava fugir. Enfrentava a gravidade, subia desfazendo-se em nada. Ela não podia, não podia abandoná-lo. O que seria, então, de seus outros dias sem aquele resguardo. Desesperado, sem conseguir mover-se, respirou fundo, e até mesmo a ferida de seu peito corroído era uma sensação alumínica apitando com o vento. Assim conseguiu, aos poucos, tocar a ponte e tatear, já com saudade, o áspero do cimento. Aliviado, deitou-se novamente, enterrado ali na penumbra do arroio.

Longe flanavam três bandeiras no alto de um prédio. Eram as poucas provas de um mundo reconhecível, de um passado real. Podia se lembrar de duas, símbolos repetidos: uma era a bandeira de seu país, a outra a de seu estado. Contudo, havia uma terceira. Eterna dúvida que lhe ocorria sempre naquela hora, quando seus olhos fundos e arregalados brilhavam de puro êxtase: de quem era a que alto se retorcia? Não sabia por que, mas essa terceira que tremia ao vento lhe trazia uma desilusão profunda. Era a bandeira inimiga, sem nome. Era a bandeira dos outros, a bandeira que não queria saber dele. Ela dançava superior sobre todas. Então, lembrava que era ele quem podia falar com árvores gigantes, escutar a sinfonia das águas. Estava dando a mínima para aquela bandeira branca azulada e anônima.

Nada que pudesse lembrar poderia contar seus dias como um amadurecer. Abandonado no mundo como bicho, estranhava a si próprio nos outros cheios de idades e de deveres. Mundo cheio de bandeiras. Tinha, agora, a idade do rio, das árvores, do vento.

Só quem possui a caixa de cheiro forte poderia perceber uma luz estranha que começava a fazer do esgoto um rio de leite. Era dia de lua cheia. Sua atenção era para os detalhes que iam desvendando os limites escurecidos de seu retiro. Primeiro, foi o carvalho morto que surgiu. Estendia um braço retorcido, quase querendo tocar a espuma tóxica da água suja. Torcia para que ele conseguisse como prêmio de tanta perseverança essa proeza milenar, uma tentativa vã e fútil, mas cheia de esperança. Remexia-se no cimento, passava de leve os braços na grama rala, rastejava acompanhando os milímetros de expansão da árvore no tempo. Aliviado, acreditava, às vezes, ter quase conseguido. Podia sentir a umidade fétida da correnteza a molhar o galho seco de seu mais antigo companheiro. Sufocado com um pensamento leviano, sentiu-se fraco. Deparou-se com um carvalho oco. Desviou logo o olhar para o salgueiro.

Ao contrário, este se enroscava destruindo os muros, levantando o asfalto, como um ninho de cobra, como uma vizinha antiga, cheia de tranças e de um corpo descomunal. Novas lembranças. Grudou-se na caixa mágica como querendo entrar em um mundo químico, revelador. Foi abraçado, como num supetão, pela árvore negra cheia de folhas grossas. Entregou-se num pranto miúdo em seus braços, em um emaranhado barulhento. Era o mais longo dos sinais, desdobrava-se junto com todas aquelas bifurcações de raízes sem-fim descendo o barranco.

Estava, agora, longe dali. Tudo se limitava a dois sons. Era o terceiro sinal. Um pouco mais curto, sem tantas imagens, quando alcançado para além dos nomes. Eram apenas notas a se degladiar. Mesmo perdido, uma alegria surgia no fundo de seu corpo escasso. Felicidade de ter ainda aquela rotina e a certeza de seus sonhos, rotina de seu vício. Esse dois sonidos eram como um diálogo, a mais abstrata de todas as conversas: pergunta e resposta. O esboço de um diálogo ritmado e simples era suficiente para acalmar suas angústias. Nunca conseguiu decifrar qual seria a tal pergunta; muito menos, qual seria a resposta. Entretanto, enquanto o barulho se prolongava, tudo ia acalmando: as árvores majestosas, o rio silencioso, os ruídos voadores, a ponte secreta, o ninho de cobras, a noite maléfica, o carvalho oco, as possibilidades de uma aurora gélida. Seu corpo, então, perdia-se num etéreo indescritível, tão real que o fazia querer entrar na caixa e sumir para sempre. Embalado pela simplicidade da repetição, esquecia a noite escura estendendo-se.

O que nunca acontecera até então foi isto que identificou, em meio aos sons, como quarto sinal. Eram tríplices todas as suas noites, seu vício. O quarto sinal, como um intruso, fez da leveza um peso. Os barulhos parecendo teclados de um piano distante vieram como nomes em uma balada. Ah, terríveis nomes!

E, depois disso, lá do fundo do que restava de si, com forças que não mais tinha, deslizava em pesadelos, afundava mais e mais. Na sua cabeça escutava duas palavras boas e límpidas, mas severas, pois duras. De início achou que podia ser o rio que brincava com ele. Até pensou no carvalho, no salgueiro. Descobriu que o quarto sinal era apenas um mal-entendido. Pausadamente, as palavras pai e mãe duelavam entre si num infinito de ecos tomando conta de seu esconderijo.

Nem mais a caixa mágica poderia afastá-lo de seu destino. Retorcia o corpo querendo voltar para o odioso som da noite humana. Ao contrário, cada vez mais relaxava com a música que repetia pai-mãe, pai-mãe, pai-mãe, pai-mãe levando-o cada vez mais fundo para um desassossego de uma força castradora. Como um vírus, o dia invadia a noite com suas histórias indeleáveis.

De leve, foi mexendo-se no chão, enquanto dentro de si explodia um desconforto horroroso: tudo, menos aquilo! Apoiando-se na pedra gasta pelo esgoto, com suas mãos trêmulas, jogou-se na correnteza suave em uma fuga impulsiva e medrosa.

O esgoto ainda morno levou seu corpo com vontade em um redemoinho. Parecia que a natureza esperava por ele, tão frágil, tão pouco. O rugir da água parecia milagroso, afastando os fantasmas que a vida trazia. Naquela noite, a lua foi dessas que ficam gigantes. Nada se escutava em volta da ponte. Foi uma dessas madrugadas esfomeadas por desgraça.

De manhã bem cedo, despertava, junto com a aurora, uma gritaria infernal, som de ambulância, transeuntes curiosos. E de nada adiantava: trancado no dique, em meio a pedaços de cadeiras, latas e garrafas boiava seu corpo. Já a caixa mágica, avançava atravessando o lixo, em direção ao rio.

 

 

 

 

Verão 2015 / Edição amarrada em um poste

Gilberto Chaves

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