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De distúrbios e desejos

Poemas de Gabriela Hollanda

A carne

Cru: na boca, a carne rompe-se entre os dentes, rompe-se em sangue, rompe-se com o sabor amargo de tão adocicado. Desce quente e se aloja com um frio no fundo do peito; faz desvio; não desce, sobe; volta a boca, amarga, volta fria, pegajosa, viscosa, enjoativa; volta num bolo. Mais uma vez força-se a descida, e desce levando metade da garganta, desce arrancando, ferindo as beiradas. Uma vez dentro é tormento, é caos, é confusão que se espalha deixando todo o corpo gelado: cadáver. Quase digesto o caos; mornas, as mãos; a boca vazia acha-se sozinha e faz voltar o bolo. Volta ainda sanguinolento, volta e se aloja na passagem e obstrui a respiração. Ar. Impalpável, intragável, impossível. É a carne lânguida em meio à garganta. A saliva grossa, os olhos transbordantes, as mãos geladas. O gelo volta a descer pela espinha, volta a preencher os poros. Mais uma dentada. E o bolo se faz maior. Desce. Sobe. Amarga. Enjoa. Transborda.
Transbordo-me. Sou líquido. Sou sem forma. Sou sem ser.

Nua: vomito o que resta da carne em meus pés.
Arranco a língua para não lamber o chão.

* * *

Desejar

Eu o quero para aplacar minhas ardências.
O desejo para sanar o talho das outras feridas.
O consumo em minhas carências.
Carência de me sentir preenchida. Carência de mim mesma.
Nasci Carente.
E passa o tempo apenas para agigantar esse sentimento, levemente humilhante.
Consumo a todos, degluto-os.
E o quero apenas para molhá-lo em meu sangue quente.
O quero como quero o esquecimento.
Desejo intenso. Desejo pulsante. Desejo.
Arreganho os dentes e vou mordiscando o que não me pertence.
Nem busco pertencimento.
Busco não sei o que.
Mas arde. E esfrego contra meu peito o seu ser.
Meu peito aberto, pulsátil, vermelho,
Vou lambuzando minha presa.
Vou desmaiando em mim mesma.
Vou-me.
Inquietude dos dias que passam.
Desses dias que nem são dias.
Que fiz hoje? nem sofri.
Hoje foi o vão de um abraço oco.
Foi a espera. Sempre a espera.
A espera.
Sempre.

* * *

A consumação

O amor que havia sido:
- O tempo inteiro eu temi esse momento. O momento em que eu seguiria em frente. Temi sua reação. Temi os vincos de dor em seu rosto. Temi a ti.
O amor, ainda sendo:
- O tempo inteiro eu temi o que nem pode ser considerado um momento. Eu temi a ausência do momento. Temi não ter mais a oportunidade de olhar em seus olhos e enxergar no fundo deles o menino por quem eu me apaixonei. Eu sabia que assim que o visse, fazendo morada ali, tudo ficaria bem. Eu temi não ter esse momento. Temi ouvir pela última vez sua voz numa ligação picotada. Temi não ter a oportunidade de ouvi-la uma outra última vez, de abraçá-lo uma outra última vez, de olhá-lo uma outra última vez. Sempre uma última vez. Toda vez como a última, revelando-se enfim a penúltima. Acontece que eu não percebi: esse menino não existe mais. Nem ele, nem a menina que por ele se apaixonou. Estão mortos e somos ambos culpados, em concurso de pessoas.
Ele, com uma faca firme nas mãos:
- Eu não quero concorrer a esse crime.
Ela, manchada de vermelho claro:
- Tarde demais. É consumado. Ambos culpados.

* * *

Correnteza

A música enchia o banheiro, ecoando nas paredes de azulejos. A água corria por seu corpo nu, que se contorcia lentamente no mesmo ritmo do som, ecoando a melodia. Seus cabelos molhados estavam em toda parte. Suas mãos, inquietas, tentavam alcançar aquilo que faltava, aquela parte inexistente, aquele âmago inabitante. Percebera, tarde demais, a água que caía em seus pés era vermelha, nascente de si mesma, do talho que a atravessava do pescoço ao umbigo. Sangrava, como em todo bom drama, e sorria. Aproveitava esse banho quente, dançando, sentindo. Que era o que sabia fazer: sentir.

Repetidamente.

E mais uma vez, tarde demais, percebeu os olhos dele em si, em seu corpo revolto. Àqueles olhos não era o corpo nu de uma mulher; era a alma nua de criança, de uma criança que acabara de descobrir a si mesma. E os olhos, um pouco insanos, um pouco suaves, analisavam a cena com a paixão terna de quem ama, com o medo no fundo, de quem sofre. Sofria o sofrimento da outra. Sofria com um leve sorriso nos lábios, trêmulos de nervoso e esperança.

- Quem te machucou?

Ela, acordando de seu sonho alegre, pôs as mãos entre os seios e confessou num sussurro:

- Eu me machuquei.

Ele, cético e suplicante, pondo as mãos sobre as suas, forçou por seus lábios umas palavras vazias:

- Que se lave essa cor de teu corpo, minha pequena. Que se concentre apenas em sua boca, o vermelho que por ti corre.

Sem aviso, fez-se silêncio, e seguido dele uma outra música deu vida ao ambiente congelado. Lentamente, as mãos foram-se cruzando umas nas outras e os pés tomavam direções semelhantes, cada vez mais próximos. Os corpos de ambos se aproximavam enquanto a música se intensificava, até estarem sufocando em um abraço. A água que caía sobre eles fazia do corpo correnteza e os olhos fechados não mais ardiam. Sentindo os lábios dele em seu pescoço machucado, ela apressou-se em alertar:
-Eu não sei amar.

Ele riu suavemente em seus ouvidos:

-Você é amor.

* * *

O são e a louca

O são não abria a boca sem que pensasse e repensasse e repensasse mais um pouco o que iria dizer. A louca atropelava-se nas palavras, tão rápida era a profusão de seus pensamentos. O são guardava as palavras ofensivas no bolso interno do paletó e apresentava apenas as mentiras bonitas, ou apenas um silêncio insosso que nada quer dizer. A louca gritava o incômodo e mandava à puta que pariu os problemas insolúveis; ela ofendia, algumas vezes omitia, mas nunca mentia. O são usava uma gravata, uma camisa social e meias de seda dentro de sapatos lustrados. A louca despia-se em seu caminhar, arrancava também os cabelos com as mãos e a pele com as unhas. O são saía de casa de banho tomado e se possível tomava ainda mais dois, só pra garantir. A louca via seu pé enegrecer-se no asfalto e o suor tomar conta de seu rosto vincado. O são trabalhava o dia inteiro, não tinha tempo para sentimentos. A louca vivia em ardor, sentia um sentimento maior que si mesma, maior que qualquer ocupação e qualquer hora de qualquer dia. O são aceitou suas perdas silenciosamente. A louca estava rouca não só pelas palavras ditas, mas pelas palavras não ditas - a perda era de si mesma. O são nunca se perdeu - mas nunca se encontrou. A louca se encontra no breu de todas as noites. Quando chove, o são abre o guarda-chuva; a louca abre os braços, abre a boca, os olhos, a porta, a casa, a vida. O são é comedido. A louca é exagero. O são é prático, pragmático. A louca é uma romântica. O são via os tijolos da construção dos moinhos de vento. A louca via o que jurava serem dragões cuspindo fogo. O são enxergava nitidez; a louca perdera seus óculos de graus e se divertia com sua miopia, formando imagens em seus borrões. O são viu na louca sanidade e apaixonou-se por ela, até percebê-la louca, até cuspir na sua cara a loucura que possuía. A louca fez-se maré, perdida no choro da consciência. Era louca e sabia. Enxugou com as costas das mãos o rosto inchado e repetiu com um pigarro: era louca. Não doeu tanto. Fechou os olhos. Era louca. Era louca porque permitiu-se ser. Era louca, e sabendo, se aceitou. Aceitou sua loucura, sua imperfeição, e fez de sua fragilidade sua própria força. Era louca, o sorriso surgindo nos lábios.

O são nunca morreu de amor. A louca renasce todos os dias.

 

 

 

 

Verão 2015 / Edição amarrada em um poste

Gabriela Hollanda

Gabriela Hollanda nasceu em 1994. Morreu pelo menos cinco vezes nesses vinte anos: se suicidou duas, foi assassinada três. Atualmente sobrevive. É alagoana, radicada em Maceió; estudante de Direito da Universidade Federal de Alagoas. Participa de projetos que envolvem a educação de jovens e adultos egressos do sistema prisional. Só atravessa ruas na faixa; canta no chuveiro; odeia falar sobre si mesma na terceira pessoa do singular - mas abre exceções; dança sozinha; tem os pensamentos tão claros que até se confunde com a possibilidade de entendimento; deseja o que não quer e; escreve o blog Isocromático. Tem textos publicados em revistas literárias eletrônicas como Mallarmargens. Está lançando seu livro de estreia, Monocromático, através da Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

Blog da autora

www.isocromatico.blogspot.com.br

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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