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o poço de baixo. ou a mulher dourado.

Conto de Geruza Zelnys de Almeida

 

sem sombras e dúvidas eles eram um casal feliz. ele mais do que ela porque sempre sorrindo e o pão quentinho na hora do café. dentes brancos que todos viam. ela sorria, mas um rumoroso abafado que não se sabe de que paragens soprava seco no hálito de um bom dia, boa tarde ou noite. pouco falava mas era educada. diziam os da rua que ouvia vozes. mas eu mesma nunca conversei com ela. de tudo que sabia o mais é que era linda e tinha os cabelos negros como riscos de carvão sobre a pele clarinha de quase pó de arroz. não era oriental, mas as mãos e os passos e o ritmo da respiração deviam de ter nascido por lás e acho hoje mesmo que sentiam saudades de casa.

eu a via infinitas vezes à janela, em foto de lado, nunca oportunando conversa, sempre olhando o que ninguém. às vezes, empurrando carrinhos vazios no supermercado, com sorvete pingando na saia do parque, com um livro que não era outro aberto no colo fechado. e tinha os dias de eles dois nas sacolas de compras, no sorvete acabado e nas palavras-cruzadas. o bem certo é que ele a amava. ela também mas estava dividida entre o amor e a doença. diziam tanto e até que chegou fugida na paixão desabitada dos pais e montada na aliança. mas depois aos poucos outonal e já quase invernosa. enfim...

acontece que esses eram os vizinhos do poço de cima. e isso não disse antes porque me desimportou, mas agora que estamos no ponto em que. digo: havia o poço e o poço era conhecido pelo portão sempre fechado e aberto nos dias da necessidade. esticávamos todos os olhos para o de-dentro da casa toda arrumadinha na vida de dois e com os baldes cheios d'água aceitávamos ainda um copo para pisar o azulejo limpinho da cozinha. sussurrávamos depois se não eram os pais dela na moldura em preto-e-branco. seriam índios? tailandeses? quase igual.

aí o dia que ela calçou os chinelinhos. delicadas miçangas pés de menina. e caminhou não se sabe se como e se porque. dizem que cantando. um passo e outro até o poço. então descalçou por certos os chinelos que ali ao lado ficaram e subiu à beira que também ali investigaram o pedaço de tijolo caído recente. e tomara mesmo que tenha cantado porque nunca mais.

foram tristes aqueles dias de comoção. eu mesma chorei e até então nunca que, apesar de depois deixar de ser raro. mas voltamos ao dia-a-dia. apenas ele que não porque seus dias tinham todos a cara da noite. ele sofria largado. e todos os largaram porque nada havia para ser feito a não ser virar as páginas do calendário até que.

só que essa história que se disfarça no palavroso para manter a atenção na forma distrai do conteúdo que em si mesmo desse mundo não é. e eu poderia dizer mais fácil desde aqui em diante para iludir ou disfarçar a verdade porque a literatura é sempre uma ilusão ao avesso: quando simples esconde sua complexidade, quando complexa ilude da simplicidade que carrega.

o corpo de alessandra nunca mais foi encontrado. mas isso eu não posso garantir e nem provar porque era ainda muito criança. e a verdade é que, hoje, mesmo eu não acredito. porém, todos acreditavam até eu naquele tempo. e como não podia deixar de ser literatura um fato assim tão lindamente decorado na polifonia de vozes e crenças, alessandra de protagonista virou personagem auxiliar de outras histórias. histórias de amor, claro.

acontece que alguém disse um vulto depois um canto depois o vulto e o canto no poço. o casal, que pulou as grades e içou a água e bebeu do fundo, venceu inimizade entre famílias, o outro engravidou, a outra arrancou o amado da amante. e junto as histórias cresciam largas rendadas até ao ponto do peixe dourado que emergia das profundezas, nadava em círculos e submergia de novo. claro que se questionou o porque de um dourado já que a mulher nem tinha loiros seus cabelos que eram noturnos. e então a imagem complementar da aliança símbolo da união e dos finais felizes pondo fim às pequenas inverossimilhanças. aí que alessandra, a mulher dourado. entidade amiga do amor.

chegou o depois que portões depostos e o entra e sai feliz de sorrisos tantos e colar de pérolas. e no entanto ele, o marido, até aqui no esquecido. retorcido na dor infinita e ruminoso de unhas agora garras ao revés furando ponta dos dedos. arcado ele, o pescador sem pesca. sombra ele, o marido suicidado pela esposa. personagem principal sem nome, à margem da própria história.

não me lembro se joão ou josé, sei que nome de pouca história porque nada dele se dizia. até parece que nem. mas eu o via na janela os olhos vermelhos sempre e já tão magro. nada fraco, apenas faltava-lhe o viço porque de resto curado no ódio. ereto firme. só aquele poço puxando-o para baixo como se o engolindo pelos pés.

foi num dia normal que até já se perdeu no tempo, mas encalhado aqui na minha língua. devia de ter havido neblina porque essas histórias se fazem melhor no cinza. um caminhão chegou antes do outro que deixou o lugar para o terceiro. todos os três levavam terra para soterrar enfim aquele poço.

não houve menção ao peixe. menos ainda ao corpo da mulher. nunca mais se ouviu dizer sobre a mulher dourado. todos eles enterrados agora para sempre no ponto final desta história.

desde então, todos passaram a viver enfim suas histórias particulares. e todos os casais voltaram a ser infelizes novamente.

 

 

 

 

 

 

Verão 2015 / Edição amarrada em um poste

Geruza Zelnys de Almeida

Eu sou a Geruza, moro em São Paulo e vivo no interior. O que ela mais gosta de fazer é escrever versinhos no Facebook porque lá todo mundo curte (mas quando vira poema com mais de 5 linhas ela posta no meu blog: geruzazelnys.blogspot.com.br). Já tenho muitos livros escritos e nenhum publicado (4 deles estão no prelo – e parece que vão ficar lá pra sempre -, são 2 de literatura infantil, 1 de poesia e 1 de conto). Ela é doutora em Literatura pela USP e dou aula na PUC-SP. Também trabalho com formação de escritor na Casa das Rosas e faz mediação em Clubes de Leitura pelo Grupo Movimenta. Criou o curso de Escrita Curativa realizado em ambiente terapêutico (Instituto Naturare). Recebi alguns prêmios literários (Mapa Cultural Paulista) e tem participado como jurada em vários concursos no estado de São Paulo. Está mais madura, mais feliz e menos bipolar, ultimamente. Não gosto de letras maiúsculas, mas elas gostam de mim e, às vezes, não consigo evitar.

 

Outras publicações de Geruza Zelnys de Almeida na Raimundo:

sexshop (Verão, 2015 / Edição amarrada em um poste)

Blog da autora

http://geruzazelnys.blogspot.com

   

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Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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