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Se a cada comentário de blog eu ganhasse dez centavos e outros poemas

Poemas de Jeanne Callegari

cervelles fraîches

miolos
comam miolos
fazem bem para a pele
fortalecem os ossos

refrescam as ideias
atiçam os anticorpos
ajudam o mirrado artista
a melhorar seus esboços

brioches são para os fracos
pão para os ociosos
bananas para os macacos
chocolate para os dengosos

miolos: comam miolos

apreciados a colheradas
da cabeça dos mortos
são mais frescos
e saborosos

* * *

silêncio

o momento
em que a água
se prepara para a gota

* * *

nostalgia

de repente uma saudade
de pegar a moto, o filho
cruzar o país de costa a costa
sentir cheiro de mar
e pisar nas folhas secas
na floresta

que até o momento
eu não tenha filho
ou moto não vem ao caso
do sentimento

* * *

se a cada comentário de blog eu ganhasse 10 centavos

como as águas de Netuno
ou os lúmens de Hemera, abundantes,
certamente nunca mais verei as palavras
aqui por mim proferidas

spike lee é um has been
do the right thing é coisa velha
você está ficando velha
e escreve MUITO

um velho e sebento REALEJO
um RETÁBULO pré-medieval

assustar um notário com um lírio
matar uma freira com um soco no ouvido
portar um corpo feminino de top model nu em pelo,
e transitar toda a 5ª Avenida sobre um cavalo branco,
numa madrugada de inverno, deixando escorrer a menstruação pelo flancos,
sem dar nenhuma entrevista

* * *

aos trinta

aos vinte e poucos alguém me disse
: você só deveria publicar depois dos 30

fiz quase tudo certo,
com uma pequena
exceção

aos 30, como profecia,
comecei a amontoar
linhas

trinta e seis anos atrás
bernadette mayers
escreveu invasion of the body
snatchers
– o filme no brasil se chama
vampiros de almas

tenho quase 31 anos
e nenhum filho
quem sabe
aos 33

* * *

28 de outubro, 2012

dia de eleição em são paulo. assisto
à apuração no apartamento da mãe
da minha amiga. a amiga está lá, sua mãe,
o irmão, o marido. comemos bolo
de mandioca e tomamos vinho em taças
pequenas, bonitas. vanessa e phillip
se juntam a nós. a sala está abafada
e vamos para a varanda, de onde dá pra ouvir
a gritaria das crianças nos prédios ao redor. eu me sinto
muito produtiva: acordei cedo,
lavei a louça com meu ritual específico,
depilei as pernas, ouvi cocteau twins e escrevi um poema
sobre uma amizade perdida.
phillip lavou roupa, arrumou o quarto, limpou as mesas,
levou o lixo para fora e saiu para ver o samba. escrevi um ensaio
de 585 palavras
sobre "por que não sou um pintor", de frank o´hara.
de repente a chuva, granizo no vidro. quando ela pára,
saio. o apartamento da mãe de minha amiga
é na rua de baixo. o ar está fresco, agradável,
eu gostaria de fazer um caminho um pouco mais longo,
andar um pouco mais. chego
ao apartamento depois de errar
de elevador e abraço minha amiga. finalmente
o candidato, de camisa vermelha, aparece
para o discurso da vitória. noto, pela primeira vez,
que tem covinhas. na semana anterior, vi dez mil pessoas
numa praça afirmando que havia amor em sp. o ar está abafado
e leve. minha amiga comenta
como é bom ter um prefeito que não menciona deus
uma única vez em seu discurso.
a guerra civil segue em sp; ele diz paz,
e uma boa noite
a todos.

* * *

ars poetica

caça caranguejos na lama
caça caranguejos
por fim ferve
e come

* * *

s. crane

sentir na garganta o gosto metálico
do corte ensanguentado

aplacar a fome com o sal e o suor
da pele cansada

sorver em grandes goles a saliva
da boca sedenta

provar um pedaço do próprio coração
e perceber o quanto
ele é amargo

* * *

corpo pretérito (memento mori)

no século 16, a capela dos ossos foi construída por um franciscano
com os crânios de cinco mil monges, em évora, portugal

ali perto, em faros, outra pequena capela feita de ossos foi erguida em 1719
entre seus adornos, está um esqueleto revestido de ouro

a capela mortuária de eggenburg, na áustria, foi inaugurada no início do século 14
com os restos mortais de 5.800 pessoas

na república tcheca, em brno, o ossuário subterrâneo da igreja de são tiago
guarda 50 mil esqueletos e está aberto ao público desde 2012

os restos mortais de milhares de frades ficaram enterrados por trinta anos
antes de serem usados nas paredes da cripta dos capuchinhos, na itália

erguido com ossos dos mortos pela peste no século 14, o ossuário de sedlec
foi tema de um curta-metragem de jan svankmajer, em 1970

“nós ossos, que aqui estamos, pelos vossos esperamos”, diz a inscrição
na entrada da capela de évora

: tempus fugit

um relógio em augsburg, na alemanha,
em que a Morte
marca a hora

 

 

 

Verão 2015 / Edição amarrada em um poste

Jeanne Callegari

Jeanne Callegari nasceu em Uberaba, MG, em 1981. Formou-se em Jornalismo pela UFSC, em Florianópolis, e desde 2006 mora e trabalha na capital paulista. Escreveu Caio Fernando Abreu: Inventário de um Escritor Irremediável (Seoman, 2008), biografia do autor gaúcho. Seu primeiro livro de poemas, Miolos Frescos, está em vias de finalização.

Sites da autora

jeannecallegari.com.br

cancaodemim.org

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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