Início          Edição atual          Edições anteriores          Blog          Corpo editorial          Normas para publicação          Quem somos?          Contato         

 

Comprovante e outros poemas

Poemas de Maíra Ferreira

comprovante

lembrar de você já é lembrar de
alguma coisa
se tudo me escapa
e continuamente esqueço o que
pensava saber
como pensei saber teus dedos sobre
a minha coxa
ou pensei saber as tuas coxas
abocanhando meus dedos
nem todas as encruzilhadas do mundo
revertem a simulação
que eu mesma habito
com a convicção de um cego recente
a insistir com os outros
o local exato de uma rua;
era melhor que nem saíssemos
das cavernas ou que você não
tivesse deixado de lado essa
mania de falar francês
enquanto eu olho no espelho
sem entender palavra
você debruça a respiração
sobre a minha nuca
e me dobra em duas
como o comprovante
de um depósito bancário

* * *

bem a tempo

num túnel mais estreito que os carros
quase não enxergo as luzes com foco certo
talvez haja uma ponte talvez
uma imensa ladeira sobre um lago
entre um espaço e outro
ainda espero
escapo
ainda me desloco do meu próprio
deslocamento bem a tempo
de ouvir os rugidos
que agora cruzando meus próprios
passos já não ouço mais
se era o silêncio que rugia
se era o oco entre as nossas costas na cama
ou um entendimento que deixei cair
não
sei
mas atravesso arrancando a pele
dos lábios desejando
ainda ser devolvida
ao que já passou

* * *

maio a galope

são dias frios josefina
dias de pés em brasa
se aventurando pelos chãos
da casa enquanto
o escuro não vem
dias de campainha
muda e espelhos
ao longo das águas
muitas águas
que nos caem sem
remorso pelos ombros
tiro fotos josefina
e preparo pães de queijo
um filme francês deve
solucionar essa morte
de agora ou talvez
tenhamos que vestir
amarelo após o banho mas
em todo caso tudo vai
bem
são dias de meninos e
meninas trocando lugares
nas gangorras experimentando
vestidos e amassando
borras de cigarro com a
força de um trator
nas mãos recentes
essa violência dizem
às vezes passa logo
às vezes não passa
nunca
nem com pães de queijo
nem com filmes franceses
ou roupas amarelas
com cheiro morno de
sabão em pó
os dias são frios
como se não
terminassem e eu josefina
durmo pensando em
cavalos galopando
por onde não
conheço nem vou
conhecer

* * *

âncoras

cenograficamente esfolada
um batom cor de boca
meio bomba atômica
madalena contaminando
os sete mares
eu e essa mania de lançar
âncoras a aquários
de beber oceanos
com lambidinhas de poodle
debruçado sobre a poça
- esqueço -
meu ovário esbarra
no seu
(focinho contra focinho)
vazio como
uma caverna submarina
onde espécies ainda
não descobertas dançam
ao som de
som nenhum

* * *

sílaba tônica

a unha verde piscina acesa mergulho
entre o espaço onde os mergulhos ainda
eram possíveis e o agora aqui eu aqui
sentada sobre o chão gelado de metais
e mármores se eu te escrever vou esquecer
uma palavra eu sei vou errar uma crase
não vou saber em que sílaba colocar o acento
qual afinal a fatídica sílaba tônica
qual afinal a direção do acento sobre o a
parado em aguardo como eu sim
como eu as palavras não se mexem são apenas
colocadas onde ficam e ali ficam até serem
de alguma forma deslocadas por qualquer
via externa acima de seu controle
a unha verde piscina e as digitais tão
delineadas eu criança muito impressionada
com a ideia de uma singularidade tão visível
tão impressa desmoronada sobre as nossas
costas um fardo também um fardo
fique aqui com estes dedos que são teus e só
teus sem que nunca possa disfarçá-los
ou trocá-los ou extingui-los
entre o metal gelado da cadeira de espera
e o chão eu de novo onde sempre estive
quando me recusava a obedecer e os dedos
me mantinham acordada para não perder o tempo
dos sofrimentos

 

 

 

Verão 2015 / Edição amarrada em um poste

Maíra Ferreira

Maíra Ferreira nasceu em 1990, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. Estuda Letras na UFRJ e seu primeiro livro, A primeira morte, foi lançado esse ano pela editora Oficina Raquel. Vem colaborando com diversas revistas literárias – como Mallarmagens, Parênteses, Portal Cronópios, Jornal Plástico Bolha e Polichinello – e, nas horas vagas, posta em seu blog.

Blog da autora

mairanaomoramaisaqui.blogspot.com

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

A revista

Edições anteriores

Blog

Corpo editorial

Nossos artistas

Autores (breve)

Colabore com a Raimundo

Normas para publicação

Contato