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A um cão sem cabeça e outros poemas

Poemas de Marcelo Pierotti

A UM CÃO SEM CABEÇA

Tornei-me íntimo do cão decapitado
depois de três ou quatro
dias mal-cheirosos
na mesma esquina ressequida
de onde despontam suas patinhas.

Não tem nome,
assim como cabeça,
meu novo amigo
e com ele me preocupo.

Em sua calma de defunto
espero não ter sofrido muito
quando acabou degolado.

* * *

COM CARINHO, SORTE NAS FUTURAS EMPREITADAS

Se é que hamster sonha
quando passa horas rodando
a rodinha da gaiola.

Se é que hamster sonha
e traciona aquela coisa
com liberdade
casa própria e
bom emprego
dentre outros disparates.

Se é que hamster sonha,
porque com um cérebro daqueles
parece mais provável que não.

* * *

O QUE VOCÊ NÃO SABE

O que você não sabe
antes ou depois de nascer
é que isso não foi feito para durar

e só por agora é vida
que se dói ou coça
no corpo ou na alma
é coisa passageira –

as tantas migalhas do eu
coladas com fita isolante
cuspe deus e um pouco de fome.

* * *

FORTUNA ou 2014

Então me atropelaram –
sem dano significativo
afora o incorpóreo –
numa noite molhada
de sábado triste.

Domingo me senti mal,
desconfortável sob roupas e
pele e com ecos
de saudade futura
vibrando entre os olhos.

Hoje, segunda-feira,
fizeram cara de nojo
para meu cigarro aceso
no espaço aberto e descoberto,

lamentável minha alma
ter notado.

E agora,
meu amigo,
te pergunto:
quando é que isso vai acabar?

* * *

POEMA CÍNICO (ELA TRATOU SEU CU)

Ela tratou seu cu
por presente e prova
de amor verdadeiro
porque coração é o primeiro
a se gastar com a vida –

tudo o que me resta,
disse,
nunca antes entregue
a ninguém.

Podia ser mentira mas,
sei lá,
nessas coisas
o que vale é a intenção.

* * *

POEMA CÍNICO (fragmento)

Perdi as contas de quantas vezes
ficou sozinha em seu quarto
sem saber que sou todos
os quartos do mundo
para tratar de qualquer
detalhe prático de toalete
ouvindo uma música que detesto
plena de utensílios pessoais
sabendo-se pilar de tudo
que eu como universo
prefiro ver flutuante
no vácuo de minhas obras completas.

* * *

POEMA CÍNICO (FINAL DEFINITIVO)

Numa flor de O’Keefe
me lembrei de ti.

Boceta
se nos falhou a memória
ou não captamos
a associação:

sua boceta

que é a flor e
seu núcleo e
algo que te guardo
em mim
nem sempre nesta imagem
tão melhor sobre a tela
tão menor quando minha

posso até dizer
que meio babaca
depois que botei no papel

(este mesmo papel
mais apaixonado
honesto e puro
se te fosse esfregado
entre as pernas
depois remetido de volta
por sedex,
para você,
para sentir a si própria
vinda de meus sonhos)

Minha mulher meu amor
que roda cega no centro
de todo o universo
e sua boceta.

* * *

TINHA UM GAVIÃO NA ANTENA

Nada é nome secreto
destes momentos quando
ser não é questão
que se meta na cabeça,

quando está claro
para todo o qual sabido
nisso de se calar
um instante sequer:

o calor só vem
do sol e você
por dentro
é todo vazio.

* * *

TODA MANHÃ CLARA E CALMA

Toda manhã clara e calma
é um pouco mendiga
sem cara e pobre
perdida numa semana
com mais o que fazer.

É grande a força do nada
quando empurra a manhã
clara e calma de um dia
digamos que qualquer,
quiçá até com nome,
arrastada perdida
rumo a uma coisa alguma
bem depois do meio-dia,
então mais desperta:

cidadão de bem dado a incômodos
que não vale merda nenhuma.

 

 

 

Verão 2015 / Edição amarrada em um poste

Marcelo Pierotti

Marcelo Pierotti nasceu em Tatuí, no ano de 1984, de onde saiu cedo para viver em uma sucessão de cidades do interior de São Paulo até, na capital, se estabelecer (ou quase). É lá que vive até hoje. Escreveu em blogs e pequenos fanzines durante a adolescência. Não acredita muito em autoconhecimento ou mesmo em autobiografias. Pensa que poderia dizer o bastante sobre si com apenas uma frase: Marcelo escreve poemas e tem um filho, todo o resto pode ou não ser mentira.

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Raimundo • Nova literatura brasileira

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