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Esta não é longa o suficiente para ser uma história de amor

Conto de Patrick Holloway

Seu cabelo era grosso e comprido e cobria o comprimento de suas costas. Suas covinhas eram profundas nas suas bochechas e quando ela sorria, elas sorriam também, como faziam seus olhos. Verdes e marrons como bolinhas de gude, como tinta misturada, ainda molhada. Ela nunca usou aparelho, mas seus dentes eram tão retos e nítidos quanto um céu aberto. Ela tinha o hábito de tocar a ponta do seu nariz antes de rir. Essa foi a primeira coisa que ele percebeu do outro lado do bar. Lembrou ele do momento antes de o sol surgir por de trás de uma nuvem. Ela estava com amigas, todas bonitas, mas ela se destacava para todos os homens no bar porque ela não sabia que ela se destacava para todos os homens no bar.

Ela bebia gim e tônica. Ela não gostava de gim e tônica, mas gostava do jeito que soava quando ela pedia por uma. Uma gim e tônica, por favor. Como se não fosse possível pedir por um gim sem tônica, ou por uma tônica sem um gim. Assim como não é possível rezar com apenas uma mão. Eu deveria cortar minhas unhas, ela pensou.

A parte inferior dos dedos dele inchou para fora das suas unhas; elas estavam mordidas pelo hábito. Ele ficou de pé no final do bar, seus dentes roendo na pele aberta. Ele pediu mais uma tequila porque ele gostava do gosto; gostava do chute que dava na sua garganta, no seu coração.

Ela levantou a cabeça e sorriu para o fim do bar; ele sorriu de volta. Ele não sabia se ela estava sorrindo para ele ou se apenas sorria por sorrir. Ela não sabia por que ela estava sorrindo para ele e olhou para baixo e mexeu sua bebida com seu canudo, querendo olhar para ele, mas ficando com medo. Ele ficou olhando. Sua amiga falou alguma coisa e ela tocou no seu nariz e riu. Parecia o sol surgindo por de trás de uma nuvem, ele pensou, sua risada.

Mais tarde ele a viu no bar, sozinha. Calças apertadas nas botas, uma camisa branca e simples.

‘Posso te comprar uma bebida?’

‘Pode,’ ela respondeu e esperou.

Houve um momento de embaraço que pendurou entre eles, balançando dentro e fora como se estivesse pendurado em uma corda.

‘O que você gostaria?’

‘Uma gim e tônica, por favor.’ Ela gostou do jeito que soou.

‘Mesmo?’

‘Sim, mesmo!’

‘Desculpe, eu não conheço muitas pessoas que realmente gostam de gim e tônica, só isso.’

‘Bem, acontece que eu realmente gosto de gim e tônica.’ Queria dizer, o jeito que soou.

Eles sentaram no bar, falando, rindo com o dedo dela no seu nariz. Um casal já casado sentado perto olhava para eles, a mulher pensava como eles a lembravam de si mesmo naquela idade: tão apaixonados. E talvez a paixão também se pendurava entre eles, balançando através do embaraço como sinos celestiais. Eles ficaram falando, rindo; eles se beijaram também. Beijos amenos, como uma brisa no sol. Ela falou para ele que era aluna de filosofia, ele falou para ela que trabalhava para uma revista; ela tinha um irmão- mais velho; ele tinha um irmão- mais jovem. Os pais dela eram casados por vinte e cinco anos; seus pais eram divorciados e ele não via seu pai há anos.

‘Isso é terrível,’ ela falou.

‘Não é tão ruim,’ ele falou.

Ela sorriu e suas covinhas sorriram e seus olhos sorriram e ela mexeu sua gim e tônica e se preocupava se parecia bêbada. Ela já tinha decidido que ele era a pessoa mais charmosa que ela já tinha conhecido, com seu sotaque estrangeiro e o jeito que seus dois dentes da frente se viravam para conhecer uns aos outros. Seu sorriso de lado e olhos apenas azuis.

Ele já tinha tido várias mini-ereções, aproximando-se do bar para esconder a protuberância. Ele já tinha fodido ela em posições diferentes em sua mente.
‘Eu gosto de você’ ele falou.

Ela sorriu e colocou seu cabelo atrás de sua orelha. Ele beijou seu lábio inferior. Ela sorriu no beijo. Ela queria perguntá-lo por que ele tinha se mudado para cá e quando, mas ela apenas sentava no banquinho beijando um estranho.

‘Vou embora amanhã,’ ele falou, ‘vou voltar para casa por um tempo, essa é minha última noite aqui.’

Ela odiou ele naquele momento; odiou sua franqueza, odiou o jeito que a frase estava tão carregada, como dependia tanto da resposta dela, ao invés ela falou:

‘Quero mais uma gim e tônica, por favor.’ Últimos pedidos.

O bar estava fechando. O casal que já era casado já tinha ido embora, assim como suas amigas que sorriram para ela e piscaram quando estavam saindo. Eles se levantaram. Ele olhou para o garçom e o garçom deu uma olhada para ele para ir embora. O rosto do garçom estava sufocado na gordura. Ele olhou para ela com o embaraço inchando como um sol.

‘Gostaria de te convidar para meu apê, mas está bagunçado demais, com roupas em todos os lugares e as malas aber….’

‘Podemos ir pra meu apê,’ ela deixou escapar, sua garganta grossa com o que poderia acontecer.

Eles caminharam na noite. Ele segurou a mão dela e ela segurou a mão dele como se ela já tivesse segurado mil vezes antes. A lua estava larga no céu e ela olhou para cima e sorriu para a lua.

‘É uma lua cheia.’ Ela falou.

‘Não é sempre?’

Ela se apoiou nele, sentindo-se mais confortável do que nunca. O sentimento a lembrou de quando era uma criança, assistindo a televisão nos sábados de manhã. Enrolada num cobertor, cabeça nas mãos, olhos mal piscando por medo de perder alguma coisa.

‘Vamos pegar um táxi ou quer caminhar?’

‘Vamos caminhar.’

Então eles caminharam, ou perambularam na rua, que estava vazia de vozes, vazia de tudo menos eles com suas respirações pesados e batidas de coração corridas. Ela pensou em seu quarto, quarto de estudante, e se preocupava que ele o acharia tolo. Cartazes e fotos. Lençóis rosas e uma estante de DVD vazia. Ele pensou nele fodendo ela por trás e pensou na camisinha na sua carteira que tinha vivido lá por apenas um dia.

‘Você trabalha para qual revista?’

‘Trabalhava. Agora estou desempregado. Eu larguei na semana passada e é por isso que eu vou voltar para casa por um tempo.’

‘Por que tu largou?’

‘Fui demitido, na verdade, bem, eu era muito ruim.’

Ela tocou no seu nariz.

‘Por que filosofia?’

‘Não sei, queria estudar medicina, alguma coisa sólida, mas em vez disso, escolhi a filosofia, não sei porquê.’

‘Normalmente é o contrario; as pessoas escolhem a opção mais estável.’

‘Eu suponho que eu queria uma mudança.’

Ela se lembrou da resposta de seus país quando ela falou para eles que queria estudar filosofia. Seu pai apenas saiu do quarto e ela ouviu ele depois brigando com sua mãe.

Eu sabia que ela faria alguma coisa assim, tu deveria ter tirado essa ideia antes que fugisse do controle, e agora, o que ela vai fazer, trabalhar num café para o resto da vida dela?

‘O que teus pais pensaram sobre sua decisão?’

‘Eles não se importaram.’

Ele não sabia que ela estava mentindo, mas alguém que conhecesse ela bem teria enxergado como ela desviou o olhar enquanto falava, e saberia na hora que ela estava mentindo.

Quando eles alcançaram seu apartamento, ela se atrapalhou com a chave e virou para sorrir para ele. O estômago dela estava pesado com os pensamentos do sexo. Eles subiram a escada, ela na frente, com ele olhando o jeito com que sua bunda balançava, como ela provocava ele um passo de cada vez.

‘Que apartamento legal.’

‘Obrigada. Você quer uma bebida ou algo?’

‘Uma gim e tônica seria bom.’ Ele falou enquanto agarrava ela pela cintura e virava ela para se enfrentarem. ‘Tu é a pessoa mais bonita que eu já conheci.’

‘Até parece!’ ela sorriu e seus olhos sorriram e suas covinhas formaram sorrisos nas suas bochechas.

Eles foram para o quarto com a estante vazia e os lençóis rosas. Ela hesitou e deu um passo para trás com sua mente em chamas, seu corpo suando.

‘Tudo bem?’

‘Sim, é só, é, é nada, é nada.’

‘Você é virgem?’

Ela não conseguia acreditar na sua franqueza de novo e se sentiu insegura, mas olhou para ele e os lábios dele e seu sorriso de lado.

’Não!’ ela falou, desviando o olhar.

Ela acordou com o barulho da porta fechando. Ela se levantou e olhou ao redor do quarto; a escrivaninha estava vazia, não havia uma nota. Talvez ele saiu para pegar comida para nós, ela pensou, e deitou de volta na sua cama esperando seu retorno.

Ele chegou no seu apartamento. Ele tirou sua touca para tomar um banho, pendurando suas roupas no armário e pegando uma toalha da gaveta.

 

 

 

Verão 2015 / Edição amarrada em um poste

Patrick Holloway

Nasceu em Cork (Irlanda), em 1988. Vive em Porto Alegre (RS), onde é doutorando em Escrita Criativa pela PUC-RS. Seus contos e poemas já foram publicados por várias revistas e jornais literários de língua inglesa como Overland Literary Journal, Poetry Ireland Review, New Voices Press, New Writing Scotland. Seu conto Ma’s big day recebeu o segundo lugar no concurso do RTÉ/Penguin Books, e seu conto Counting stairs foi finalista no Manchester Fiction Prize. Seus poemas em português foram publicados pela Rascunho. No próximo mês, seus poemas serão publicados na antologia We will be shelter, pela editora Write Bloody Publishing.

Outras publicações de Patrick Holloway na Raimundo:

poemas que não tentam ser poemas (Verão 2015 / Edição amarrada em um poste)

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

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