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poemas que não tentam ser poemas

Poemas de Patrick Holloway

Língua Desconhecida

A vida, em alguns dias, é
um livro encontrado
numa outra língua. Letras e
símbolos que você não entende,
mas continua lendo de
qualquer maneira.

Tem alguma coisa nos
espaços que intriga
você, como as formas
desconhecidas escorrem
pela página.

E você vira a
página
e o sol
vira no céu
e aquela insignificância
pesada vira no
seu estômago.

* * *

Que Esquisita

É esquisita, essa mesa.
essa caneta, essa vida,
que coisa esquisita: eu nunca
conseguir segurar a chuva
nas minhas mãos; ou te
falar em vinte e seis línguas o quanto
eu te amo, nunca vou
conseguir sentir aquela segurança de infância:
deitado no sofá com um cobertor e
a lareira e os dias esperando lá fora:
tempo imóvel e cego. E tua voz, doce mas
triste; as teclas pretas no piano, onde foi
essa voz? no vento? na terra? na
lua silenciosa? não vou achar, não
vou ouvir. Que coisa esquisita essa mesa,
essa caneta, essa vida.

* * *

Uma Tentativa

Eu te amo (como a lua desaparece na luz)
Te amo (como o vento fora da janela: assobiando)
E quando você está presa
num pesadelo, eu estou
te amando, com teus
espasmos e olhos
piscando.
Eu te amo (como sol, não sempre visível)
Te amo (como água: intocável)
(como agora)
(como sempre)

* * *

Vozinha

Deveria existir um poema para minha vó
que não é minha vó,

Mas é a vó que eu herdei, deveria existir
um poema com ritmo e rima que

Reflete a musicalidade das
suas panelas, os batimentos

Das suas baterias. Deveria existir um poema
sobre uma guriazinha sem pais, com dias

Como páginas brancas; um poema sobre luto,
o desafio de perder tudo,

Duas vezes, casas caídas, dinheiro desfrutado
e três filhos para criar. Deveria existir

Um poema curto e divertido que fosse mostrado
antes do filme no cinema, então ela

Poderia o ler antes de dormir. Deveria existir
um poema sobre sua risada com olhos

Fechados até quando o assunto é morte. Deveria
existir um poema que mostrasse os pacotes

De felicidade que ela deixa embalados todos
os dias para nós. Deveria existir um poema

Para minha vovó.



 

 

 

 

Verão 2015 / Edição amarrada em um poste

Patrick Holloway

Nasceu em Cork (Irlanda), em 1988. Vive em Porto Alegre (RS), onde é doutorando em Escrita Criativa pela PUC-RS. Seus contos e poemas já foram publicados por várias revistas e jornais literários de língua inglesa como Overland Literary Journal, Poetry Ireland Review, New Voices Press, New Writing Scotland. Seu conto Ma’s big day recebeu o segundo lugar no concurso do RTÉ/Penguin Books, e seu conto Counting stairs foi finalista no Manchester Fiction Prize. Seus poemas em português foram publicados pela Rascunho. No próximo mês, seus poemas serão publicados na antologia We will be shelter, pela editora Write Bloody Publishing.

Outras publicações de Patrick Holloway na Raimundo:

Esta não é longa o suficiente para ser uma história de amor (Verão 2015 / Edição amarrada em um poste)

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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