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Aventuras na vida de Berubim

Conto de Rafael Lasevitz

Berubim dormia e tentava apanhar seus sonhos no teto quando foi acordado por um senhor. O senhor, que vestia uma camisa xadrez com gola xadrez, disse a Berubim que não deveria dormir desta maneira quando havia tantas coisas a serem feitas no mundo e fora dele, e disse ainda que tinha visto seus sonhos e que eram um desperdício.

Antes que Berubim pudesse responder com algum argumento convincente, o senhor já entregava nas mãos de Berubim uma pá que tinha cinco vezes o seu tamanho e que também era xadrez, além de uma pequena bacia cheia de terra, que de fato não era uma bacia, mas talvez um copo um pouco grande.

Como Berubim não conseguia escavar aquele copo com sua pá xadrez, pensou que talvez tivesse algo errado, e foi quando teve a ideia de escovar os dentes, pois que jamais se sentia capaz de qualquer coisa sem antes escovar os dentes, e assim se dirigiu ao banheiro e foi no banheiro que encontrou o segundo senhor.

 O segundo senhor tinha roupas muitos curtas e todas elas eram verdes e quase rasgavam, e por isso ele parecia uma pequena árvore. Este senhor disse então a Berubim que perdia seu tempo com aquelas escavações, e que o melhor que Berubim tinha a fazer era voltar para sua cama e apanhar todos aqueles sonhos que estavam voando e guardá-los em arquivos organizados de A a Zê com pequenas etiquetas rotuladas com caneta esferográfica de cor vermelha.

Berubim de todo modo não podia concordar pois não tinha canetas em casa, muito menos as de cor vermelha que eram as mais violentas e porque piscavam durante toda a noite, e por isso quis escovar os dentes ainda assim, pois estava convencido de que esse era o primeiro passo antes de todos os outros. Sua escova, porém, havia encolhido ao longo do dia e era suficiente apenas para escovar um de suas dezenas de dentes.

Assim, Berubim escovou um terço de cada um dos três dentes mais visíveis e então pensou em voltar para sua cama como lhe havia sugerido o senhor verde. Foi então que se lembrou que havia perdido sua cama no sonho e que agora restava apenas um pouco de chão quadriculado. E então Berubim voltou a cavar, e enquanto cava, tenta sempre sonhar com uma cama, e nunca consegue.

 

 

 

Verão 2015 / Edição amarrada em um poste

Rafael Lasevitz

Doutorando em antropologia e escritor nas horas que sobram, ainda que às vezes pense que seja o contrário. Publicou artigos sobre tradições orais andinas e sobre a comunidade de imigrantes bolivianos em São Paulo, e atualmente pesquisa cidades industriais no Québec. Além de ser um dos fundadores, faz parte do comitê editorial da revista Raimundo.

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Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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