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Carta ao pai redux

Ensaio de Raquel Parrine

Sinceramente, queria muito detestar este livro, mas aqui volto a ele, tentando encontrar uma compreensão, ou o motivo, left and right, por que esta pequena obra é uma das mais emocionantes, grandiosas e plurissignificativas da literatura.

"Querido Pai:
Você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. Como de costume, não soube responder, em parte justamente por causa do medo que tenho de você, em parte porque na motivação desse medo intervêm tantos pormenores, que mal poderia reuni-los numa fala. E se aqui tento responder por escrito, será sem dúvida de um modo muito incompleto, porque, também ao escrever, o medo e suas conseqüências me inibem diante de você e porque a magnitude do assunto ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento."

Acho que Kafka, ao fim e ao cabo, também não entendeu direito os motivos por que escrevia essa carta. E é tão forte o fato de que o primeiro sentimento que ele exprime é "medo", medo ao pai. Eu realmente não quero escrever o que eu acho disso. Vamos ficar com grandes pistolões que podem ter tido um vislumbre melhor do que o meu.

Movimento 1: Derrida

O filósofo pensa nos momentos finais de "Carta ao Pai", no seu ensaio "Literatura em Segredo". O que ele vê é a forma com que Kafka ficcionaliza o discurso do próprio pai no fim da obra:

“Nas últimas páginas desta carta, Kafka se dirige a si mesmo, ficticiamente, mais ficticiamente do que nunca, a carta que ele pensa que seu pai teria querido, teria devido, em todo caso, teria podido lhe remeter como resposta. “Poderia responder”, “Teria podido responder” (Du könntest… antworten), diz o filho, o que soa também como uma queixa ou um descontentamento que responde a outro: não fala comigo, de fato nunca me respondeu e não o fará nunca, poderia responder, teria podido responder. Você permaneceu segredo, um segredo para mim.”

Esse jogo entre os tempos verbais – o indicativo maleável, maltratável por um subjuntivo que vai a cada momento adicionando mais verbos nas suas locuções verbais (poderia responder, teria podido responder) – parece ser, para Derrida, a chave do velamento do eu-Kafka, que vai se escondendo, se acuando, frente a possibilidade de estar diante desse pai. Daí também a beleza do Kafka lido pelos olhos de Derrida: nunca o autor parece mais sutil, mais sensível ao minimalismo semântico, mais próximo à concisão multisignificativa da poesia.

O que fica claro da visão de Derrida é que Kafka aceita a impossibilidade da sua própria carta. A intransigência na relação entre pai e filho não pode ser superada, portanto essa carta será sempre uma carta sem resposta, uma carta impotente, ao léu, lida por gerações, mas nunca compreendida por aquele a que foi endereçada.

Movimento 2: Bolaño

Em "Literatura + Enfermedad = Enfermedad", Bolaño não fala sobre "Carta ao Pai". (De fato, a relação paterna não parece ser um tema importante da sua obra), mas nesta palestra em que ele fala da própria doença, faz uma leitura literal (que lindo) da famosa frase (de novo!) de Mallarmé: um lance de dados nunca abolirá o acaso. Porque, justamente, a médica indica que, nos estágios finais da sua doença, não poderia mais movimentar os dedos. O final da palestra também é Kafka:

“Cuenta Canetti en su libro sobre Kafka que el más grande escritor del siglo XX comprendió que los dados estaban tirados y que ya nada le separaba de la escritura el día en que por primera vez escupió sangre. ¿Qué quiero decir cuando digo que ya nada le separaba de su escritura? Sinceramente, no lo sé muy bien. Supongo que quiero decir que Kafka comprendía que los viajes, el sexo y los libros son caminos que no llevan a ninguna parte, y que sin embargo son caminos por los que hay que internarse y perderse para volverse a encontrar o para encontrar algo, lo que sea, un libro, un gesto, un objeto perdido, para encontrar cualquier cosa, tal vez un método, con suerte: lo nuevo, lo que siempre ha estado allí.”

Bom, se a literatura é uma busca de algo que está sempre dado, se todos os dados estão jogados, ela é uma atividade que revela, em última instância, a impossibilidade de se comunicar. É a sentença final. Uma elaboração estética de uma vida inevitável, de uma morte inevitável, e da falência da empatia.

 

 

 

Verão 2015 / Edição amarrada em um poste

Raquel Parrine

Raquel Parrine é uma leitora assídua de Liev Tolstói, Roberto Bolaño, Ursula le Guin e, mais recentemente, Federico García Lorca. Às vezes escreve no seu blog.

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