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Sobre cães e olhos

Conto de Thais Lancman


Um chiuahua sem um olho de uma cidadezinha em Louisiana é o mais próximo que eu tenho de um amigo. Vejo diariamente as as fotos que seu dono publica na Internet, e por meio delas sei como ele se sente. O olhar pela metade do cachorro diz mais que as roupinhas e o cenário que o seu dono prepara para cada imagem. Eu sei o que ele sente, nós sabemos.

Nas últimas semanas, ele tem se mostrado aborrecido. Porém, tudo o que eu posso fazer é sinalizar que gostei daquela fotografia e de outras, eu e mais dez mil pessoas, sem gradação, como se todos gostassem com a mesma intensidade. Eu sei que não.

Ele é branco e pequeno, mas nunca me pareceu frágil. Tem uma língua comprida que parece poder dar a volta em sua cabeça. Onde deveria estar um olho, há pele e pelos como no resto do rosto do animal, formando um vale sutil como se fosse areia cobrindo aos poucos uma lembrança dolorosa.

Eu vejo o chiuahua, suas orelhas espetadas e espertas, suas patas tão ordinárias que não denunciam o bicho caolho. Um colar de pérolas enfeita-o, lembro que é fêmea. Não me importo, é o chiuahua, assim no masculino, parecendo sorrir e oferecer-se a mim. E vejo em volta minha casa mal iluminada, meu pijama sujo de uma tentativa de fazer um curry dois dias atrás (não sei se deu certo, nunca fui a um restaurante indiano), a horta de temperos abandonada ao inverno e ao descaso.

Jamais saberia descrever onde esse cachorro e seu dono vivem, poderia ser em um lugar parecidíssimo com o meu, a Louisiana pode ser um espelho da minha realidade em outra dimensão e eu nunca irei até lá verificar. Nunca saí do Estado. Me contento com o que pode ser, a possibilidade infinita de ângulos fechados, ponto de vista do qual analiso a minha realidade inclusive, concluo que preciso de um cachorro. Preciso de um chiuahua sem olho.

No petshop da minha rua esburacada eles vendem cachorros de um canil de uma cidade vizinha. Pergunto as raças dos animais, se já venderam algum chiuahua e ouço uma resposta desanimadora: como chihuahuas não são os mais procurados pelas dondocas do bairro, eu deveria procurar criadores especializados, então pego dois cartões de visita da mão da atendente e vou embora, não sem antes observar um cão preto e peludo com um potente secador apontado para ele. Os pelos esticados pelo vento morno, a cara do cachorro querendo se retorcer. Pele sobrando para os lados. Ele pede socorro, mas consigo ignora-lo e sair do petshop.

Dias se passaram até que eu ligasse para um dos criadores de cães. Perguntei por chiuahuas, mas a voz que atendeu o telefone falava enrolado. Repetiu muitas vezes que eles ficavam abertos todos os dias e que eu podia ir visitar. Na última tentativa de obter informações mais específicas, já sem paciência, me vi como que na obrigação de ir até lá. Com um carro alugado, peguei a estrada em uma quinta-feira ensolarada.

Não sabia o que esperar do local. Ficava em uma estrada paralela à principal, de lá devia pegar um caminho de terra batida, seguir placas. Havia muitas placas de madeira carcomida, muitas delas ilegíveis por estarem cobertas de barro. Provavelmente, dei mais voltas do que o necessário até chegar ao sítio certo, que não parecia muito diferente das chácaras que visitei na infância, exceto pelo aviso: temos cães.

Quem me recebeu foi uma mulher: gorda, despenteada, a camiseta com o logo de uma marca de óleo de soja e gola esgarçada, me levou sem responder meu Bom Dia até o canil, não que fosse necessário: bastaria seguir o cheiro. Longe, duas crianças brincando com pedaços de pau, numa esgrima tão espontânea quanto inevitável.

Dentro de um cercado, ração espalhada em um canto, tigelas de água com folhas e algo que parecia serragem, um monte de indefinidos que só serviam para dar um aspecto mais sujo ainda ao local, para me deixar mais com a sensação de estar lá por engano. Em meio ao odor, dois cachorros vagueavam pelo espaço limitado.

Eu nunca tive cachorro nem gostei muito de bicho até o chiuahua sem olho, mas sabia que aqueles eram pitbulls. Perguntei para a mulher se só trabalhavam com essa raça mas ela já tinha ido brigar com as crianças, ameaçava dar uma surra nelas caso se machucassem. Decidi ir embora, o que passaria despercebido se os cachorros não começassem a latir. Continuei andando, uma outra mulher mais idosa veio até mim, surgida do nada, perguntando se os cachorros não tinham me agradado.

Ela foi me pegando pelo braço e ofereceu um café. Me convenceu mais com o olhar de catarata do que com o gesto de toque tão fraco. Fomos para a casa dos fundos, não muito grande, porém com um avarandado espaçoso, principalmente porque tudo o que havia nele era uma mesa dobrável de metal e duas cadeiras.

Ofereci ajuda para pegar o café mas a senhora me disse que não era necessário. Trouxe a garrafa térmica com dificuldade, precisando de duas mãos para carregá-la. Parecia que tinha envelhecido vinte anos no trajeto, ou era o efeito da sombra. Não tive paciência para esperar mais a viagem para ela buscar os copos e busquei dois na cozinha. Um de requeijão, outro americano. Não me importei com o açúcar pois tomo café amargo.

Contei-lhe que queria um chiuahua, ao que ela fez cara de espanto. Expliquei que tipo de cachorro era. A mulher disse que sempre teve cachorros grandes, mais que companheiros, eram a sua segurança. Aqui está muito perigoso, fiação já roubaram mais de três vezes, ela lamentou.

Argumentei que vivia em um apartamento pequeno (e entulhado de papeis e tralhas encontradas na rua, completei mentalmente). A velha insistia que os animais se acostumam, se educasse direitinho não ia ter trabalho nenhum. A gorda vinha com um dos pitbulls, e o trouxe até mim, mansinho. Brinquei com ele como pude, no máximo que sabia interagir com cachorros para além do mundo virtual. Instantaneamente, pensei no meu caolho, fantasiando como ele enfiaria a cabeça entre as minhas pernas, qual deveria ser sua altura e seu peso.

Como por instinto, coloquei os dedões perto dos olhos do cachorro, para sentir a ossatura e a cavidade que se formavam. Ele se afastou e latiu, tive medo, me encolhi e a mulher mais jovem tirou-o de perto de mim. A frágil mesa chachoalhou e o café espirrou do copo. Pedi desculpas pela minha falta de prática com animais, confessei a minha curiosidade pelos olhos dos cachorros e voltei para o café.

A senhora quis saber mais, pediu para eu contar como tinha chegado até ela. Quando dei por mim, mostrava-lhe o chiuahua sem olho na tela do meu celular. Ela não gostou, e perguntou o que me agradava naquele bicho esquisito. Acho que é sua fragilidade, ele parece tão agradecido em ser amado à parte da sua visão parcial. Talvez ele nem se dê conta da deficiência, e assim como a pele cobre, também nós podemos gostar dele sem pensar na falta de olho.

Mas você quer um cachorro pequeno ou um cachorro sem olho? Ela me interrogou com uma risada nervosa. E eu confessei nunca ter cogitado um cão grande, era questão do lugar onde vivia, e a falta de olho era o principal daquele exercício de afeto. Minha referência era o chiuahua da internet, e assim foi. Vi o pitbull sendo arrastado de volta para o canil, no final ele deu um pique fazendo a mulher ser levada por ele, uma escrava acorrentada.

A velha pediu a minha ajuda para levar a garrafa e os copos de volta à pia, ao que atendi. Decidi lavar a louça também quando a ouvi tossir. Anunciei a minha partida e ela veio se despedir com um saco de mexericas, nascidas ali mesmo. Era época e não tinham o que fazer com tanta fruta. Agradeci, e na saída fui abordada pela outra mulher, a gorda, que me entregava um cachorro que tinha acabado de perder um olho, com sangue fresco entre a costura dos pontos.

 

 

 

Verão 2015 / Edição amarrada em um poste

Thais Lancman

Thais Lancman nasceu em 1987, em São Paulo. Jornalista de formação, já ensaiava desde o início da faculdade a partida rumo à ficção, embora tenha concluído o curso e trabalhado durante três anos como repórter. Hoje, além de escritora, estuda o autor americano Saul Bellow. Em 2014, Thais publicou a novela Palito de Fosfeno, seu primeiro livro. Thais ainda ocupa o seu tempo como bailarina de dança contemporânea e fazendo pão, com amor e dedicação inversamente proporcionais ao talento.

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