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Operários à beira e outros poemas

Poemas de Viktor Schuldtt


Acordado...

Acordado ainda
(calado, desde Abissínia)
é terrível o sonho que soldados invadem luminescentes, sabido agora meu peito coalha,
se molha da tua saliva velha, vida, enquanto tomado de assalto o parapeito fabrica – os
passaportes, rusgas do passado
engolidas, gavetas a dentro, imobilizam a visão, corroem chuvosas a identidade: aportar
aqui.
Distante, caixeiro sóbrio (é demais): quitar dados, anoitecer em anestésico para cavalos
as órbitas. É um o teu destino,
a ele ribomba a impotência de parir na fechada concha um feto que se assemelhe à
segurança da estalagem, cafés quentes e uma palmeira a destilar calores; ri dentes,
em verdade, como concedesse ao inimigo uma dádiva para, depois, matar um corpo
gordo: obedece a crença no simples subterfúgio, ao falar, mastigar mamas, tecer
espantalhos como a mãe que insana sustenta santos no altar para o natimorto, para o
inferno de matagais dos dias: cutículas ru
indo – é milagre sumir; e de pouco, migalhas, abastecemos mais o galpão onde as luzes
se conectam em fúria e surdez, desenhos cartomantes que (neste exato que raia o sol
sua membrana de meias-noites) intuímos enquanto
inteiros, crianças sobre o portão enxergam atrás das lanças, enxertados à vácuo em
prisão,
pulsam, tiritam, afinam os grãos da cara –
trabalhar no carvão da fé, destituí-lo amiúde de seu objeto, elevar o mundo com moradias
mas não morar (gozar ao transcender pela porta) um todo de negatividade riscou à giz
(infância) esta ausência elétrica, a fogueira, em plenas achas de realidade –
Falamos de destino? arranca um suspiro,
os joelhos inchados, desta experiência de
(silêncio)

* * *

Operários à beira...

Operários à beira, força e cansaço, marginam do próprio arroio dolorido as abelhas,
escavam da terra a fatia com margarina, lama embranquece cada membro de suor e
canteiro, e sem que o saibam deixam ao átimo de eclodir uma calçada
quando
um dizer ardente (água ou cachaça) passa, e lhes comunica e toca somente a calda de
cometa, somente um gueto de penumbra sacudindo os guizos, as cabeças numa
campina pendem
como o ansiado descanso,
como fráguas incessantes na usina da mulher.
Às pressas, sua linguagem tirada, corações de fumaça vazados do forno, arroto de pão
ázimo na bacia da bovina sangria:
um busto helênico tisnado pela saliva,
um arrombar de portas duplas turvado pela forte gripe.
Dizem não as palavras, não dizem, espelham identicamente o espojar como quem vira o
prato de comida sobre a mesa, sujar a toalha surda, comer revoltas para dentro,
cravam no ror de nadas uma imagem de touros com as patas
quebradas.

* * *

Um dia em que...

Um dia em que
não era de fato insuportável morrer: a manhã esgarçada, degraus para a tarde como
entrar na água, as serralherias ligadas às finas cicatrizes – fatiar a demanda desde um
ponto irreconciliável: querer é
ato de chuva, e quando porém a recebem as vidraças (puídas de pedras e o chocar de
pombas) nasce terrível o milagre: de pé, rosa da página, uma menina:
olhar a rua, ela (pupila) se injeta no jato verde de folhas e musgo que se aquece de
esquecimento como um violino que vai (imóvel) perdido debaixo de resíduos, notas,
nódulos de vinho e movimento, e vai, infância de pássaro, flor pré-menstrual e materno
sepulcro, de beleza dessangrada à metralha, olhos fixos, ao bueiro.
Quis –
um corpo todo (pro)fundo
cavado num mais branco arquipélago,
não era morrer de fato ou criar
a menina, à espera,
era.
E só,
gota a gota.
O Autor
[Dá-se no corpo...]
para Ana Maria Vasconcelos
Dá-se no corpo à maneira de pássaros
vivos,
o amor,
porém incorpóreos, timbres extensos como o ar já longe das muralhas em formol, contra
as quais a cidade musical, lábios impúberes de palavras neste instante, com reflexos
livres evade em larvas o povo reunido na praça que, vendo juntarem-se borboletas
tantas como a aurora sobre o ventre novo das crianças, gargalha – e existir o clitóris,
apesar do chumbo maltado sangue, é uma sacra celebração de terra, de trigo que
eclode e, desde o excídio, de livros rasgados com saliva que fissuram belezas surdas
entre a força possante do voo – e
l a v a.

* * *

… eu te amo...

“o eu não se basta; o tu não completa”
Roberto Corrêa dos Santos
... eu te amo – a vida toda
tensão soterrada em punho.
Atirar: que mesmo à pedra
o fundo, o respirar baixo sob a grama,
cresce e abisma.
Um passo a frente, dentro da mecânica age pletórico o medo. Torcida de sonhos, de foras
duros, a força que pretende a vidraça e até a morte de um beija-flor quando este pousa
pequeno em busca de água. Um passo –
descubro a natureza da clivagem a convulsão da ótica a cada novo passo: seria
pouco dizer
que és meu apetite de perplexos.
Medo de quê, uma vez perguntaste.
E outra sobre a cor da escova de dentes quando imediatamente, com lábio infantil
empanturrado de leite, pensei: vermelha. Na madrugada a fala brotava ingênua da tua
saliva: pode ser verde – como a minha?
A peste ausente das coisas que migravam e retornavam mudadas.
Me esfreguei naquele teu nome nu com o cio rangente na boca, pois é larga em mim a
sabedoria constituída nas tuas entranhas cheias de formas. Hoje, neste dia de pujança
e ponteiros a flagelar, sabemos que só aqui somos, a seiva correndo feito vinho por
nossos avessos, buscando a clareira dos olhos pra precipitar, livre, como lágrima ou
asa mergulhada em sangue.
Depois os degraus se apresentaram em demasia verticais, dedilho daí esbaforido o risco
áspero das pedras imaginando que o topo invisível seja composto duma ramagem
aparentada com a solidão de formigueiros envenenados. A história também é do tempo
em que sepultamos o hábito de assistir pela janela a vida desmanchar compassada,
úmida da chuva que nos batizara na língua do silêncio único.
Os pronomes não apodrecessem,
não ficassem como copo
e remédios sobre o mogno velho da cabeceira,
inutilizados pra sempre como as bagas de uva que cuspimos
na areia da praia,
seríamos meninos na candidez da fúria jovem,
ignoraríamos o ranho nos brônquios
prontos pra alvejar
construções inacabadas,
então um encontrão nos salvaria.
(Em uma das telas de Vincent há feno e camponeses que repousam – penso na palha
mais dourada onde ficam as gotículas de suor e o que advém de onírico.)
E, porém, o verbo como um milagre, rugindo na sentença, como a música sobretudo,
plana, não é mesmo? Ratos debulham as tábuas do convés desde que este navio
feérico içou em direção à cidade arruinada sua ponte magra como lábio entristecendo.
Queria te dizer que meu fígado amanheceu um pouco ruim, decidi permanecer descalço,
programei as canções daquele dia e enxerguei, quando embaçado, no lugar da minha
a tua face no espelho do banheiro. Quis todo, mesmo que tórrida a tarde dissolvendo,
dançar o ritmo
desse rosto.

* * *

Tenta, tenta...

Tenta, tenta, tenta arrancar ao linchamento uma letra que seja de oficiante, o batimento,
ainda, como isca do estelar. Ah, poeta, seja menos estúpido que a dor que sente o
(in)justiçado. É sangue real, sem fissura, inconsútil, caldo completo e quente. Imagem
patológica. Quantas figuras, o leitmotiv resistente de bastão na mão, na tabula rasa
estraçalha, verga um olhar dentro do coração. Isto, um corpo poético adentrando as
cabeças até além, falaremos a linguagem da vela que preteja a carne em função de
tortura, um mito sequiosamente sádico que banhe, deslizante como a viatura,
deslizante em rubros, órgãos como amoras pisadas, como a mulher, os trapos de quem
adentra a luxuosa extinção. Só dizer cantar escrever pichar na planície onde lúpus e
ratos matam segundo o adestramento, ingurgitando o mesmo veneno, ferindo todas as
camadas de todas as faces do silêncio que já nada pode segredar.
Picadas as espáduas deste que olha, gotas de heroína que tatuam símbolos involuntários,
assim troca as pernas encharcadas de suor e alcoolismo, assim que vai no jorro do
tempo como o reboco que o vento retira às paredes da cidadela imunda (muitos
morreram aqui), sem opôr resistências ao calor simultâneo dos fogos-fátuos
inquebrantáveis em tropa. Estão as feridas no ombro, são afinal já que atributo em
constância larval de eclodir e ficar, frutos suculentos da necessidade de vagar com a
mochila às costas, feridas nos ombros, o peso de livros que, à semelhança de seu
proprietário, entrarão brevemente em combustão, mal cuidados e misturados aos
mantimentos frios e aos emplastros de ceifar sono e produzir sonhos diretamente no
laboratório da pele. As anotações salobres caem seu infindável outono, estão caindo
agora emaranhadas nos cabelos, se rasgando sumindo molhando, fantasmas
empareados à risca de cem hemorragias internas. As heranças se confundem tanto
quando a espinha à deriva se camufla no mar naif de som cantando a borrasca. A trova
de suor levita e as horas aqui dentro (faltam 9). Minha amada veste sua máscara de
gás e juntos produzimos uma filha. Não repare, querida, digo enquanto a beijo, o
sangue no macacão verteu uma foca que os homens e eu esculpíamos a machadadas.
Pele sobre pele morta, camadas e camadas despidas; nada impede, ninfa, a nudez de
fugir, intocável esplendor, eis um caso onde o falo não se verifica realizado na carne de
estupro e sátiros guincham sob a neblina sua péssima jornada de escritório: o instante
de teu toque, um outrora que condensa, refulge voraz, grito de cicatriz tirante a sal,
folha em verdes sempre rasurada, gazes azinhavradas pelo granizo que golpeou.
Golpeando; vai a memória, em pé, uma criança entre árvores, entre limo e seixos, entre
prédios e becos, entre a favela e o paraíso, dentro do bolso a mão fratura figuras
dobráveis. Um poema é um poema é uma engrenagem da máquina.

* * *

Estão úmidas...

Estão úmidas, inchadas de infiltração as paredes, escuras, doentes, sufocam, e caso se
assuma o risco de percebê-las diretamente, é possível extrair sua casca com leve
toque — o espumar das coisas. Um cineasta russo afeito às memórias desbrava com
lúcida comoção este local, está como entre estruturas sólidas, sabe-as, mas busca
apreender a base onde as coisas podem, como dentes-de-leão, ao menor acidente
irromper suavemente no vazio, decorando com véus rasgados a descoberta de inéditas
secreções. Nas artérias do concreto, no entrelaçar quântico das imagens se constitui
uma metáfora ruidosa advinda dos aparelhos que lhe empresta o escritor, um colapso
curto onde os fios são rompidos antes de se reerguer em tendões de cálcio a história. À
acuidade de ver, ao tato amplificado, grudam-se hologramas, cartazes nas paredes
(ópticas), de menstruação sendo parto, amadurecimento e hemorragia. Nas lentes,
seus instrumentos amados, um belo segredo se revela, o do tempo tão cicatrizado
quanto um pé que por anos sentiu a lavoura pacientemente plantar bolhas, sulcos que
dão em calos e afinal potencializam sua nudez.
Toda infância é trabalho, forja. De fugacidades acontece uma terra sempre fértil: a massa
se desloca dando sentido político ao lirismo.

 

 

 

Verão 2015 / Edição amarrada em um poste

Viktor Schuldtt

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