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Imagem: Andrew Stevovich / Bus stop (Parada de ônibus) (2001)

Editorial Meu co-editor e amigo (ou amigo e co-editor) Rafael Lasevitz me apontou esses dias que tem muito mais gente querendo publicar na Raimundo do que efetivamente lendo a revista.

Além do paradoxo evidente de que quem está produzindo literatura hoje não está interessado na literatura de hoje, fico pensando que os melhores escritores que conheço eram e são excelentes leitores. Tolstói era um péssimo aluno, mas ficava fissurado num tema e rapidamente esgotava todos os livros sobre o assunto (pouca gente sabe, mas ele era vegetarianista e um dos primeiros velocistas da História). Bolaño era um mendigo leitor, por isso tem várias histórias sobre como roubava os livros que queria ler e como livro roubado era livro inesquecível. A Clarice teve queimaduras de segundo grau, porque dormiu lendo com um cigarro na mão. O Ricardo Piglia é tão bom leitor que os livros de ficção dele, apesar de ótimos, ficam intimidados na frente dos seus ensaios. Borges teve que contratar alguém pra ler pra ele quando ficou cego, e mesmo assim aprendeu a falar dinamarquês. O Derrida conseguiu fazer uma articulação difícil entre o desconstrucionismo e o marxismo usando a viseira do fantasma que visita Hamlet – só pra citar alguns.

Mas não, os nossos autores não querem ler, querem ser lidos.

(clique aqui e leia a íntegra do editorial)

 

Outono 2015

26 textos para

serem lidos no

transporte público

 

Contos

Formigas

de Ellen Maria

Ela ia embora na sexta-feira. Antes de escurecer. E o perfume. Voltava na segunda oitinho da manhã. Fim de semana é por sua conta, viu. Eu vou pro meu pagode. Juízo. A tal mocinha do pagode. Melhor faxineira da cidade. Deixa que segunda eu limpo tudo, viu. Flor. Sempre o mesmo bilhete na porta da geladeira. Também sou filha de Deus.

Processo seletivo

de Lyn Calgal

Não lembro exatamente quando começou, foi em algum momento durante a faculdade. Deve ter sido menos um momento específico que um processo. Talvez as aulas práticas me afetassem de forma diferente do usual - embora as teóricas também possuíssem seu brilho. Literalmente.

Soluços ou Pensei em chamar de girassóis

de Marcus Groza

Há quem escreva para os inteligentes. Eu não escrevo. Dito tudo pro gravador. Já disse. E mesmo ao gravador, não faço ditado aos inteligentes. Os inteligentes não leem o que está escrito, usam os livros abertos a pretexto de exercitarem o que aprenderam nas aulas de ser inteligente.

Creme verde

de Tainá Pires

Sinto frio na barriga, vontade de fazer xixi nas calças, rir, de me esconder em baixo das cobertas. Às vezes, tudo junto. É que tem histórias arrepiantes. Pirralho, eu ouvia a vó Nena contando o dia em que “ele veio roubar o vestido vermelho da vizinha que estava pendurado no varal”, “comeu gabiroba e cresceu três metros”.

18 mil contos

de Flávio VM Costa

Tintia organizava sorrindo o dinheiro que vegetava desde a noite anterior sobre a mesa da cozinha. Nota de cem com nota de cem, oncinha sobre oncinha. Revelava os dentes tortos, mas bonitos quando se observa em conjunto. Sem muita conversa, seja rápido, não apressado, diz para Fernando Caxímeres.

Espelho

de Viviane de Freitas

Estava segurando a mão do meu pai. Ele fraco, trêmulo, frágil como nunca. Eu apreensiva. A roupa do hospital parecia um papel de seda sobre aquele corpo esguio, leve como uma criança. Os ossos dos seus dedos estavam sobressalentes. A pele fina. Fiquei olhando um tempão para as unhas dele.

Banho quente

de Marcos Vinícius de Almeida

Eu não aguentava ficar longe da Luana. Essa que é a verdade. Mas a Luana morou com um cara, dois anos antes, e as coisas não saíram muito bem. Ela odiava rotina. Disse que não queria pular etapas. Essas coisas. Essas coisas que todo mundo diz.

Ensaios

Meus segredos com Bolaño

de Maria Carolina Rosa

Eu me lembro da primeira vez que Bolaño me aconteceu: estava na livraria quando dei de cara com o monumental 2666. Creio que as mais de mil páginas compiladas são o que saltam aos olhos em um primeiro contato. Mas, depois de ler o livro e principalmente a seção que se destina a listar as quase infinitas mulheres que são assassinadas no deserto mexicano, foi a capa que me perturbou.

Cleber Ribeiro e a geografia do desejo

de Edson Amaro

Se você é fã de teatro, já deve ter ouvido falar de Cleber Ribeiro Fernandes (1933 – 1991), autor de textos consagrados do gênero infantil, como “A Onça e o Bode” – mas dificilmente terá ouvido falar das peças que ele escreveu para os adultos.

 

Poemas avulsos

Quatro

de Viviane de Freitas

Sherazade MMXV em o engano geográfico

de Vanessa Caspon

Eu, luto

de Barbara Monfrinato

Poema sem título

de Juliana Meira

Carpintaria

de Nathan Sousa

Contradança

de Marcos Groza

Coletâneas de poemas

Furto e outros poemas

de Lubi Prates

sobre você impressiona-me esse viver em looping. voltas e voltas e voltas e fazer refazer um circuito
de fórmula 1 ao redor do próprio umbigo.

Miudezas

de João Pedro Liossi

do olho de vidro, cacos caem em cascatas, afiadas lágrimas

Ou tonais (ou melancólicos equinócios austrais)

de Davi Araújo

Cuidado para não pisar sobre a grama sintética. Cuidado para não pisar em cada ver que vires. Cuidado para não pisar nas flores, flores, flores. Cuidado para não pisar pois o cimento é fresco.

3 poemas médicos

de Ellen Maria

Sempre com vontade de ficarmos você encharcando lençóis eu mordendo almofadas. Depois discutimos por um xampu. Ou era condicionador?

Como construir uma ruína para o abandono ou como escoar poeticamente sobre o fio rendado de seus cotovelos ou como minha cintura tem engordado tanto

de Raquel Gaio

fotografei tua partida e pendurei no basculante da cozinha. não roo mais unhas não tenho mais nervos você levou um bateau mouche preso aos seus dedos nada me deixou.

Ampulheta e outros poemas

de Joana Alencastro

No silêncio escuro do mundo Soa uma nota afinada de luz Emitida de maneira insensata e verdadeira Por uns lábios estrangeiros E pacíficos.

Cartas de suicídio

de Diego Callazans

pudesse eu, ó mãe, voltar uns trinta anos... me enforcaria em tua gaveta ensanguentada. por que morrer agora, gasto, acontecido? melhor usar borracha antes de ter nanquim.

Anatomia do vento

de Ni Brisant

mais vale alguém perdido e em busca de si do que uma multidão que se acha. artistas de plástico constroem consolos sob encomenda para carrapatos crocodilos cavalos do cão vírus que rimam
mas não vivem a estética da miséria.

Dos campos áridos e seus poemas

de Carina Carvalho

muitas fraquezas não fazem sentido quanto mais nelas se pensa. e fica tarde na cozinha de paredes quentes para pedir a ideias de tantos vãos que uma voz firme se crie e que a noite cresça.

Balança mas não cry e outros poemas

de Raiça Bonfim

A saliva do dia escorre descouraçando a bruma. Mostra os dentes e a língua, lambe a carne do sonho, mata a noite dentro da noite. O cão dentro do cão dentro do cão.

3 poemas de arrastar um landau debaixo d'água

de Ney Ferraz Paiva

quando meu pai morreu emprestei a ele minha melhor camisa abrimos a casa deixamos entrar o ar depois lançamos suas cinzas no Danúbio toda ocasião gostava de lugares fechados até sua morte nunca o contrariamos.

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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