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Dos campos áridos e seus poemas

Poemas de Carina Carvalho

 

verão, dificuldade primeira

I

no calor o caule das plantas se curva tanto.

 

há que se considerar o cansaço dos ramos nessa rotina

sem ritos.

vontade de algo que cheirasse como hortelã, você sabe?

verde-vivo.

 

II

: a gata tem olhos verdes imensos e olha um espaço vazio em que eu estava.

: a gata de olhos verdes imensos pensa um espaço vazio que eu sou.

 

III

muitas fraquezas não fazem sentido quanto mais nelas se pensa.

e fica tarde na cozinha de paredes quentes para pedir a ideias de tantos vãos

que uma voz firme se crie

e que a noite cresça.

* * *
 

objetivo específico

tirar da calma o peso,

tirá-lo dos nervos.

não é que tudo venha em rio manso, no morno das estações:

venha ainda sem aviso, tromba d'água.

 

falar das pedras,

ser a voz da pedra.

fazer-se:

depois fazer um silêncio impossível.

 

atentar a coisas sem verbo, que façam perder a hora:

o movimento das folhas de carambola, 

o ritmo das suas mãos na massa (sentido anti-horário).

* * *

 

ando traindo sagitário 

muitas coisas querem dizer os astros,
mas ouço pouco, pouco faço.
e olhando as outras vejo uma força
que não me vem. são essas mulheres.
seus grandes planos dependendo 
de somente este algo: de si.
sigo nas águas mantendo foco em
pérolas que, dizem, as ostras guardam
(tenho agonia de ostra).
eu guardo vontades, coragens pela metade
e certos arroubos que correm quase soltos.
precisava um que corresse 
disparado na areia, inteiro cavalo,
galope desvairado, cavalo que é bravo.
de se desconfiar quem mexa na tua crina
com toque pesado. tem ocorrido.
a aventura, ao menos, reside ainda
no desrespeito aos horários.
é só na brecha deles que penso,
levemente: ando traindo. traindo sagitário.

* * *
 

quintal

no quintal dos olhos há

folhas verdes suficientes

para que se diga

– acho que consigo fazer isso

 

a vontade, no entanto,

dura o exato tempo

de uma margarida em copo de vidro

 

branca. pétala olhando para baixo

a pétala dela olhando para baixo

 

e o abatimento traz motivos bastantes

para adoecer

ou amolecer no esquecimento

de algumas coisas pequenas

 

[em um cômodo espaçoso, cadeiras vazias

                          todos os meus convites

e ainda essa distância que tua mão cria]

* * *
 

poema geladeira 

se desenhasse faria uma personagem toda dona

da vida dela, do nariz, das partes baixas e todas as outras

 

bem dona. para dizer livremente afetando qualquer orgulho

(e não com vergonha porque isso não é matéria de poeta que se respeite)

várias coisas estúpidas como

— jantei um pêssego e três danoninhos ontem

 

então penso como minha barriga tem feito barulhos horríveis

quando estou deitada com a barriga para cima

 

como se eu guardasse um bicho inconformado.

 

como se eu não guardasse um bicho inconformado,

reviro ainda os outros espaços frios à procura

de um alimento fresco, fácil, embora bastante dentro dos conformes

 

e, por fim, como não desenho naquele nem nos dias que seguem

escrevo sobre entranhas e espaços frios ao lado de plantas sem dono

 

a pleno sol

* * *

 

autoestranha

sempre isso de falar baixinho

do tom forte das inseguranças

e do quanto alucina

 

[também porque a dor contrai:

vai do umbigo à primeira gotinha vermelha

no algodão branco da calcinha]

 

se o que perturba a cabeça não reverbera no tal e qual,

é preciso usar agudos de assombro, soluço, saco cheio

ou coisa que o valha. em uma boca que não cala, 

tagarela

 .

 no outro dia chora-se com os ombros balançando,

cara vermelha, o peito que infla de apelos

nem nisso há beleza, pois, nessa fraqueza

 

[também não pensava destaque de imagem por qualquer coisa;

meus seios são pequenos]

* * *

 

não saberia nome para o movimento que realizo em torno de mim mesma.

 

uma cena no banho pensava em baleias. se eu visse uma ficaria transformada; 

se eu visse uma ficaria transtornada, mas isso eu já sou e já bastam as mesmas

perguntas. – como está? – triste, mas tudo bem. – e a sua família, essa força,

como tá? não tem força, tem uma insistência em continuar acordando e assim 

vai-se, mas bem que preferia a cama. no banho também tomei um choque, 

quando em contato com a ~ qual é o nome do objeto? girei aquilo e o choque 

veio porque como a carne ao redor dos dedos quando estou ansiosa e esfolo 

as cutículas, tudo carne viva. em alguns dias penso que algo em mim, mesmo 

que diminuto, precisa estar muito vivo.

seja, esfolada, a carne.

 

outra cena eu teria nascido inteligentíssima, muito bela, como quem vive apenas 

reagindo a um dom concedido. e por ter nascido inteligentíssima, muito bela, 

estudaria teorias de um corpo presente (com todos os órgãos), de existência 

tão notável que lhe chegaria menos o externo e as escápulas enrijeceriam 

corajosas a todo vento. não seria afeita às pequenas crueldades do trato, 

daninhas que habitam minha garganta e queimam. por alguns momentos sinto 

que algo em mim precisa atacar os afetos como um bicho solto.

seja, desnudado, o verbo.

 

alguém diria daqui a muitíssimos anos, "as pessoas antigamente realizavam 

movimentos em torno de si mesmas, embora não soubessem que podiam se dar 

ao luxo desse egocentrismo, a propósito vocês sabem o que é isso?" numa

terceira cena, ainda, entenderia que para iniciar meu movimento quero um eixo

bem delineado. 

e que por hora se chame transtornação.

 

 

 

 

 

 

Outono 2015 / 26 textos para serem lidos no transporte público

Carina Carvalho

Carina Carvalho nasceu em 1989, em São Paulo. É formada em Letras e com elas trabalha. Em 2013 lançou seu primeiro livro de poemas, Marambaia (Editora Patuá). Participa da antologia poética É que os hussardos chegam hoje (Editora Patuá, 2014), da Revista DiVersos (editada e publicada em Portugal, 2014) e foi uma das selecionadas na categoria de poesia do II Prêmio Ufes de Literatura (Edufes, 2014). Há textos seus também em algumas revistas online. Nos últimos tempos tem brigado com a poesia, mas, quando fazem as pazes, quase sempre acontece em desastresliricos.blogspot.com.

 

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