Início          Edição atual          Edições anteriores          Blog          Corpo editorial          Normas para publicação          Quem somos?          Contato         

 

Imagem: Andrew Stevovich / Couple with a drawing of a skull (Casal com desenho de crânio) (2011)

Editorial Tenho uma cena mais ou menos guardada na minha cabeça de quando tinha provavelmente seis ou sete anos de idade, morava com meus pais e tinha uma televisão na sala e outra no quarto. Por algum motivo naquele dia, em um surto de independência que se tornaria mais ou menos comum ao longo dos anos seguintes, resolvi que não queria seguir assistindo sabe-se lá que novela ou jornal com que notícias que se ouviam nos anos noventa e, me atirando na cama, girei o seletor da televisão sem controle remoto freneticamente pelas cinco ou seis opções disponíveis até trombar com um filme do Schwarzenegger chamado o Último grande herói. Foi o primeiro filme que eu decidi assistir na minha vida sem influência externa, meu primeiro filme favorito, e pelo menos por um dia Schwarzenegger para mim foi como uma escolha cult, ou indy, dentro do que você pode ser indy com seis anos de idade. Aquele filme do Schwarzenegger seria fundamental para entender diversas coisas sobre o mundo literário no qual vivemos.

Muitos anos depois eu já escrevia meus próprios contos e trombava com frases de Clarice Lispector, inclusive com uma em que ela diz em algum lugar que escrevia apenas para si mesma, e acho que já li outros escritores dizendo o mesmo. Me lembro de entender perfeitamente por um lado, de pensar no transe em que me sentia entrando enquanto escrevia, do prazer de me sentir encarnando fantasmas alheios mesmo sem acreditar neles, de lutar para segurá-los comigo o máximo de tempo possível como uma espécie de ghostbuster carente que apenas não quer que suas assombrações vão embora.

(clique aqui e leia a íntegra do editorial)

 

Inverno 2015

Não sobre o amor

 

Contos

O aquário vazio

de Marcella Mattar

- Morreu de novo – disse o homem servindo-se de uma grande xícara de café, só então notando que os pingos que escorriam da cafeteira mancharam a toalha xadrez – Droga – ele largou a cafeteira bruscamente sobre a mesa e foi buscar um pano.

A cadela devia ficar, porque ela é como uma égua que passeia brilhante pelo green do campo de golfe

de Ricardo Koch Kroeff & Mandela

Meu cachorro morreu ontem no Country Club de Golfe. Segurança armado do clube de golfe: – Não pode cachorro aqui. – É cadela. – Também não. – Mas eu liguei antes, disseram que podia. – O diretor Nora disse que não.

La Ruta 14

de Vilto Reis

“Fosse mijar?”, o estranho me perguntou ao voltar para o carro. “O cara te multou?”, eu quis saber. “Tens dez segundos, ali atrás mesmo.” Saí do veículo na mesma hora. Conhecia meu irmão, se dependesse dele, depois do que aconteceu, me abandonava em outro país.

Medo

de Renata Cordeiro

Nasci com problemas respiratórios sérios e o médico disse aos meus pais que natação ajudava. Aprendi a nadar antes de aprender a falar. Não me lembro do rosto da professora de natação do América, nem do nome, só dos pés.

Animal doméstico

de Adriana Calabró

O barulho dos filhotes parece engulho de garganta inflamada. Eram seis. Coisa mais bonitinha, os cachorrinhos. Os olhos ainda fechados, as orelhas coladas na cabeça. O pelo com cheiro de leite.

Oi, mãe, sorrindo

de João Melhado

Eu não. Eu busco minha mãe no hospital: câncer. Mama. Estágio avançado, descobriu tarde, era pra ter morrido na quinta passada se o médico fosse bom de matemática. O novo chute são outras duas semanas.

Meu nome é Valentina

de Lucas Barros

Tiro a identidade do bolso. Mostro para o suposto homem-câmera que confere a identidade de todos que a partir dos sessenta entram pela traseira do ônibus. Eu duvido que elas funcionem.

Iniciação

de Léo Tavares

A gente gostava de passar as tardes na casa do meu avô. Quando era inverno eu ia para o quintal ficar procurando os espaços no chão onde o sol batia mais largo, peneirado pelas folhas da parreira. Achava bonito ficar olhando aqueles recortes de sombra.

Pequena história da leitura

de Marcella Lopes Guimarães

Eu nunca arrumo meus livros. Eu ajudo o seu deslocamento, dando apoio braçal ao desejo de novos ares: – Você quer morar um tempo com as irmãs Brontë? – Prefere a companhia de Dostoievski?

O lago da morte

de Rodrigo Pereira dos Santos

Somos eu e um tapete, sofás, quadros, aparelhos, abajur, flores, paredes, porta e janela. Eu esperando que a janela ou a porta se abram e me convidem a se retirar, a tomar um ar lá fora. Ou que a mulher do quadro parasse de ficar tão calada e conversasse comigo.

Por metade de uma vida dar-me-ia ao precipício no Alandroal

de Sara Timóteo

Há muitos anos que procuro fugir do meu daimon, esse traço de genialidade que Harold Bloom considera trazer ao que fazemos um certo travo de posteridade. Na verdade, nunca pensei muito na posteridade.

Mister King

de Paulliny Gualberto Tort

Quando Mister King lutava, ficava cego. Não via o sangue. Sabia apenas que tinha de continuar, feito um trator, e partia para cima do adversário com uma gana de morte. Calçar as luvas de boxe sempre foi um ritual; ele crescia por dentro.

Daniel, espelho, mundo

de Thais Lancman

A porta de correr fez o barulho de sempre, inaudível em dias normais. Talvez fosse intencional, piração do artista sozinho em seu ateliê, a diferenciação da instalação em um espaço vazio e no caos sutil dos museus, pensou Daniel.

Poemas avulsos

Um poema em detalhes

de Mariana Basílio

Da felicidade que não se anuncia. O estranho caso dos comerciais de margarina.

de Marchiori Quevedo

Sem título

de Bianca Gonçalves

Sem título

de Júlia de Carvalho Hansen

Domingo

de João Pedro de Souza Liossi

A pele que habito

de Marina Cristaldo

Sem título

de Letícia Tandeta

Espaços em branco

de Beatriz Ferraz

Coletâneas de poemas

Dorme poema & Solidão

de Carolina Meyer Silvestre

De amor nenhum

de Líria Porto

Vamos todos fazer silêncio?

de Geruza Zelnys da Costa

Sem amor

de Junior Bellé

Res cerratensis e outros poemas

de José Leme Galvão Jr.

Compulsório e outros poemas

de Léo Tavares

Cruzes vazias e outros poemas

de Ni Brisant

Mínimas

de Marina Mattar

Descasa-te

de Rita Brás

Regardless e outros poemas

de Wanderson Mendes Machado

Lírica impura II

de Edson Duarte da Costa

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

A revista

Edições anteriores

Blog

Corpo editorial

Nossos artistas

Autores (breve)

Colabore com a Raimundo

Normas para publicação

Contato