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Réquiem para Hilda Hilst

Ensaio de Edson Duarte da Costa

 

A flor azul representa o desejo, o amor e a busca metafísica para o infinito.

Hilda, amantíssima, hoje nasceu uma pequena for azul, aqui no quintal de casa, e logo me lembrei de você, daquele seu colar de safiras azuis, que você às vezes queria usar porque tinha lido, na Autobiografia de um Iogue, do Yogananda, que safiras azuis eram muito boas para a saúde das pessoas. Aí, numa sucessão veloz do pensamento, me lembrei do seu poema das éguas que tinham manchas azuladas em seus dorsos, e do maravilhoso quinto poema das tuas “Odes maiores ao pai”, que nunca canso de revisitar. É fim de tarde, e a chuva cai, há raios e trovões, e sei que você ficaria em pânico nesta hora. Por fim, entro e vou beber água, os cantos ali, aqueles mesmos que você escreve que nunca são notados, ninguém dá nenhuma importância para eles, e os cantos agora pulsando, reverberando em mim a lembrança de ti que não, nunca cessa de me acompanhar.

Depois, vou aos livros, releio o poema para seu pai Apolônio. Não me contenho. Há aquele nó na garganta. Aquele umedecer dos olhos, como se um algo indescritível transbordasse em mim, como se a moringa de água já estivesse cheia demais, ou a eclusa se rompesse. Chorei potes, querida, como costumo dizer. Será por que meus olhos andam tão úmidos estes últimos tempos? Será que é por causa de tanta chuva? Pensar e repensar a finitude, a morte. Obsessão? Morbidez? Você sempre afirmou que não, que não era porque uma pessoa escrevia pornografia que ela era pornógrafa, e nem era mórbida se ela escrevia sobre a morte.

Onze anos se passaram como passa veloz uma lufada de vento. Haverá comemorações, com certeza, eventos, falas, homenagens vão pulular como pipocas pulando céleres na panela do tempo. Talvez haja pouco tempo para pensar na finitude, e muita festa, como se fosse Ano Novo, dia dos namorados etc.

Você virou um personagem, um mito, minha nega (lembra a Lídia, nossa amiga de Jundiaí, uma mulher rica e elegante, chamando você assim, desde a primeira vez que veio nos visitar?). Sua literatura, Hilda querida, vai permanecer, como você disse várias vezes em vida. Você estaria contentíssima se estivesse viva, porque finalmente estaria colhendo os frutos de seu trabalho. Mas a celebridade tem um preço, como escreveu Clarice Lispector: “Se eu fosse famosa, teria minha vida particular invadida, e não poderia mais escrever. O autor que tenha medo da popularidade, se não será derrotado pelo triunfo.” Como você, Clarice teve alguma notoriedade em vida, mas não ganhou dinheiro suficiente para viver bem apenas com os frutos de seu trabalho. Clarice só foi enterrada dignamente graças à ajuda de amigos.

Você disse numa entrevista que era megalômana mesmo, que tinha escrito um trabalho de primeira qualidade. Imagino você aqui, agora, mais megalômana ainda, tendo que fazer como o Henry Miller, que depois da fama, mudou-se para Big Sur, na Califórnia, mas aos poucos esta praia deserta onde ele morava se converteu num centro de peregrinação, e o coitado foi expulso do lugar, tendo que se mudar de um lugar para outro o tempo todo. Para onde você iria? Fico pensando que você se mudaria para dentro de você, numa modesta casinha, mínima, que nem ninguém te encontraria mais aqui na Terra.

Seu senso de humor era impagável, quando a gente estava negociando a compra de seu arquivo pessoal com o Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulalio, da Unicamp, você estava apreensiva e brava com a demora da compra, mas mesmo assim escreveu o seguinte para as pessoas encarregadas de realizar a transação:                   

 

Tenho ficado no quintal, nestas lentas madrugadas, olhando para o céu, pensando se você está mesmo em Marduk, ou na quinta Galáxia depois de Andrômeda, quem sabe agora você é uma das estrelas da constelação de Pegasus, mas minha inclinação é pensar que você está mesmo morta, enterrada embaixo da terra, enquanto eu, que maçada, ainda VIVO. Você sempre brincava que, quando a morte viesse, você diria: “Que maçada!” Vittorio, o protagonista de seu último livro, Estar sendo. Ter sido (1997), disse:

A BUÇA NEGRA VEM VINDO. PUNHAL. VELHICE. ADAGA. CUSPO-LHE NA CARA. ELA SE ARREGAÇA LASSA. MORTE. AMADA.

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Edson Duarte da Costa

Nasci numa pequena cidade de Minas Gerais, Pratápolis. Vim, ainda menino, para Campinas/ SP. Estudei Letras na Unicamp, onde também fiz mestrado na obra de Clarice Lispector. Entre os anos de 1992 a 1996, organizei o acervo documental da escritora Hilda Hilst, que foi negociado em duas partes com o Centro de Documentação Cultural “Alexandre Eulálio”, Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp, em 1995 e em 2002. Em 2002, mudei-me para Florianópolis para fazer meu doutorado, na UFSC, sobre a poesia de Hilda Hilst. Desde 2006 voltei a morar em Campinas. Entre 2007 e 2009, fiz um pós-doutorado sobre a prosa de Hilst, sob supervisão do professor Dr. Jorge Coli, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp.

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Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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