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Lírica impura II

Coletânea de poemas de Edson Duarte da Costa*

 

A MÃO DE DRAGA 

(miserere do corpo)

 

I 

A mão de draga é minha.

Soberana quando eufórica

bate portas

armários       

ilusões

e desencantos.

 

A mão de draga

é soberana agonia

de quem espreita

risos e bebidas:

música mais indigesta

que o coalhar das horas.

 

A mão de draga é minha.

 

II

Também tenho corpos.

Pêlos. Poros.

Ilusões e desespero.

 

Ele me diz:

dinheiro vício

negro carnaval

e fodas.

 

Também tenho o provisório

gravado no corpo

e o vasto desvario sobretudo.

 

Homens imberbes

comem à nossa mesa.

E sei que um dia

seremos os nós

atados

na ossatura do espírito.

                       

Imensos.

Breves.

Desatentos.

  

III

Ele me diz:

Dinheiro

Casa de praia

Cobertura.

 

Aí onde chega

sua catarse da matéria.

Além

meu sonho sobrevoa

o excesso de águas do oceano.

 

A minha carne ainda lhe pertence.

Além meu corpo

é corpo do espírito.

E ali, onde estamos:

sorrisos

gritos

vaziez

e vômitos.

 

A minha carne é minha.

Tua. O mundo

é obscura paisagem.

 

Teu corpo:

tofranil

colesterol

diazepan

bebida.

 

A minha carne ainda é minha.
 

IV 

Meu corpo é ilha.

Um albatroz de pés na terra.

Mergulho. Queda.

 

Amo demais teu nada.

Não sei homeopatias

equilíbrio

o meio.

 

Sei dos extremos

começo e fim.

Os meios

que se danem, sofram.

 

A rasura do pires.

A exatidão da mão.

O eco. Eco. ECO.

 

O perfume se adensa.

Corrói espaços.

Evapora memórias.

 

Nos meus quarenta e um

serei o vômito das palavras.

 

E muda

minha mão

draga o mundo.

 

V

Papéis.

Memória.

Pergaminhos da mente.

Que passos ainda?

Que danças macabras do desespero?

 

Eu me repito. Não me refuto.

 

A mão de draga

é abulia e injúria.

Distende o tempo.

Percorre o corpo.

Dilui tuas ilusões.

Depois se joga:

terceiro andar é pouco

pra mise en scène da morte.

  

VI

Terceira vez.

Onde estará a Sylvia?

O mundo inteiro desencontro.

Prestígio. Ilusão. Nonada.

 

Meus pés sabem o chão.

O duro amor do insabido.

O insabido é nada.

E tenho pés cabeça sexo.

 

E meus neurônios

sabem

sinapse

álcool na mente

fumo no abstrato.

 

O meu espírito é draga.

 

VII

A mão de draga

no meio é sexo

um obtuso carinho.

 

Segundo plano:

doentio desengano.

 

Casal é sempre

o chinês e o humano.


 

VIII

Meu sexo é

roteiro

casa

estranho malefício.

 

Meu ar é

escuro e fundo.

E quando penso

bate asas

o espírito-e-o-santo.

E vai

vai além

do desespero.

                       

Meu ar

meu sexo

                       

é o nada.

  

IX

A medida do medo

é a grandeza da dor:

desejo escorrendo

entre meus dedos.

 

A mão de draga

é funda confiança

agonia implume

espaço do festim dos anos.

 

Não comemoramos ainda

a ira

o ódio

o desencontro.

 

Retemos apenas

corpos nomes

e depois broxamos.

 

O coito é corpo

possuído de gozo.

E gozo é pequena morte

em vida.

  

X

A mão de draga

passeia geografias

paisagens da mente

súbitos desvarios.

 

Ela sabe tudo.

É rancorosa e gasta.

Sabe do tempo:

julhos abris agostos.

 

A mão de draga é minha.

Tua.

Do mundo.

Do ninguém.

 

A mão de draga

é o que crias na mente

para cegar o amor em desespero.

 

A mão de draga é minha.

 

*Trecho do livro "Líricas impuras II", editado com apoio financeiro do PROAC POESIA 2014, da Secretaria de Cultura de São Paulo.

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Edson Duarte da Costa

Nasci numa pequena cidade de Minas Gerais, Pratápolis. Vim, ainda menino, para Campinas/ SP. Estudei Letras na Unicamp, onde também fiz mestrado na obra de Clarice Lispector. Entre os anos de 1992 a 1996, organizei o acervo documental da escritora Hilda Hilst, que foi negociado em duas partes com o Centro de Documentação Cultural “Alexandre Eulálio”, Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp, em 1995 e em 2002. Em 2002, mudei-me para Florianópolis para fazer meu doutorado, na UFSC, sobre a poesia de Hilda Hilst. Desde 2006 voltei a morar em Campinas. Entre 2007 e 2009, fiz um pós-doutorado sobre a prosa de Hilst, sob supervisão do professor Dr. Jorge Coli, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp.

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