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Editorial: Inverno 2015

de Rafael Lasevitz

Andrew Stevovich / Bus stop (Parada de ônibus) (2001)

Tenho uma cena mais ou menos guardada na minha cabeça de quando tinha provavelmente seis ou sete anos de idade, morava com meus pais e tinha uma televisão na sala e outra no quarto. Por algum motivo naquele dia, em um surto de independência que se tornaria mais ou menos comum ao longo dos anos seguintes, resolvi que não queria seguir assistindo sabe-se lá que novela ou jornal com que notícias que se ouviam nos anos noventa e, me atirando na cama, girei o seletor da televisão sem controle remoto freneticamente pelas cinco ou seis opções disponíveis até trombar com um filme do Schwarzenegger chamado o Último grande herói. Foi o primeiro filme que eu decidi assistir na minha vida sem influência externa, meu primeiro filme favorito, e pelo menos por um dia Schwarzenegger para mim foi como uma escolha cult, ou indy, dentro do que você pode ser indy com seis anos de idade. Aquele filme do Schwarzenegger seria fundamental para entender diversas coisas sobre o mundo literário no qual vivemos.

Muitos anos depois eu já escrevia meus próprios contos e trombava com frases de Clarice Lispector, inclusive com uma em que ela diz em algum lugar que escrevia apenas para si mesma, e acho que já li outros escritores dizendo o mesmo. Me lembro de entender perfeitamente por um lado, de pensar no transe em que me sentia entrando enquanto escrevia, do prazer de me sentir encarnando fantasmas alheios mesmo sem acreditar neles, de lutar para segurá-los comigo o máximo de tempo possível como uma espécie de ghostbuster carente que apenas não quer que suas assombrações vão embora.

Mas também me lembro de não entender Clarice. Porque para mim esteve sempre muito claro que independentemente de tudo isso, eu escrevia para ser lido, para suprir uma falha terrível de comunicação, um mal entendido entre mim e o mundo que somente se resolveria se o mundo, em um dia de muito tédio, sem trabalho nem filme B para assistir com pipoca se sentasse à sombra de um ipê para me ler, calma e relaxadamente, com todas as horas de um longo dia de domingo pela frente. E é claro que há o problema óbvio de que o mundo não para sequer para o Raul Seixas descer, mas há também o problema do mundo. Porque querer o mundo?

No fundo, eu quero falar de coisas banais, para que e para quem escrevemos, mas também, sobre o que significa o fato de tão pouca gente ler literatura e tão menos gente ainda ler nova ou novíssima literatura, e o que a gente faz com isso tudo, se esconde debaixo da cama ou se abandona na rua e vê se alguém leva pra casa.

Lembro particularmente de um momento anos atrás, em uma conversa em algum café de Brasília em que falávamos sobre frustrações da vida e eu falava das minhas de escritor não lido pelo mundo até que em algum momento, me questionaram: e? Uma coisa interessante do filme do Schwarzenegger é que foi provavelmente meu primeiro herói de cinema, aquele que explode as coisas e salva o pirralho em perigo. No universo do filme, todos sabem quem ele é. Mais do que isso, o filme ia além e convidava o garoto pirralho que assistia ao próprio filme do Schwarzenegger no cinema para, em meu primeiro contato com a metalinguagem no cinema, fazê-lo entrar dentro do filme, no meio de todas as suas explosões e todo o seu sangue falso. O garoto pirralho podia ser o Schwarzenegger. Podia provavelmente até salvar o Schwarzenegger de morrer em algum momento. E?

Você aí em casa que está lendo este editorial provavelmente tem uma estante de livros por perto com as lombadas do livro olhando para você neste exato instante desfilando uma coletânea sem fim de autoras e autores mortos e famosos, e quem sabe também com alguns vivos e menos famosos no meio pra destoar. Talvez tenha começado a ler com Harry Potter ou com Sherlock Holmes, ou talvez com Woolf ou com Joyce ou com um livro escolar obrigatório do Machado. A questão é que quase nunca tivemos a oportunidade de ter uma referência literária que não fosse um herói, cultuado por multidões, vivo e celebrado ou morto e com roupas de baixo jogadas em cima de seus túmulos. Será que sabemos separar a ideia de ser escritor da ideia de ser um herói? Talvez alguns de vocês saibam. Mas talvez a pergunta seja válida para qualquer outra coisa. Saberíamos separar qualquer carreira das referências de carreiras de heróis? Viver a vida sem ter celebridades como referência? Será que sabemos ter referências de vida de tamanho humano? Ou que conseguimos imaginar quem serviria de referência se o mundo não tivesse telas de cinema nem televisões nos quartos nem grandes editoras de livros?

Em um vilarejo alemão do século XVIII, alguém algum dia contou para três ou quatro pessoas a história de um garoto que subia um imenso pé de feijão que crescia tanto que ultrapassava as nuvens do céu e chegava no mundo estranho onde moravam os gigantes. Por acaso um século depois a história chegou aos irmãos Grimm e virou filme da Disney ou coisa que o valha, chegando a um número de pessoas que sequer cabe em nossas apertadas imaginações mas ali, naquele pequeno vilarejo de três séculos atrás, quem contava histórias imaginava apenas as próprias histórias e não suas plateias. Ao contrário de uma lista de seguidores de Twitter, as plateias eram feitas de pessoas palpáveis, e os efeitos das mensagens talvez até se fizessem sentir, quem sabe? Eram filhos, irmãos, talvez amigos que tomavam umas de vez em quando na taverna do seu Fritz.

Não, não quero dizer que os novos escritores devem abandonar os seus sonhos de prêmio Nobel. O que quero dizer é apenas que talvez seja a hora de repensar uma série de coisas na maneira como pensamos – como leitores, como escritores, e como editores – a nova literatura. Até mesmo como produto, perdoem meu economês. Porque no próprio filme do Schwarzenegger toda a aventura do pirralho no mundo de seu herói serve apenas para que no final toda a ideia de herói e de referência ser desconstruída e ele voltasse para seu próprio “mundo real” sabendo que poderia criar referências reais com as pessoas reais que viviam ao seu lado. Pensando bem, talvez uma das coisas mais fantásticas que existam no mundo sejam mesmo as pessoas reais. E o mais incrível é que é isso que eles são, os novos escritores. São reais, não são? Ao contrário daqueles do filme do Robin Williams, os novos escritores formam uma espécie de sociedade de poetas vivos, e isso por si só deveria ser incrível, não deveria?

Em um mundo em que já há quem diga que a sociedade dos compartilhamentos de torrents, carros, casas e verbetes de enciclopédias pelas internets nos coloca hoje em uma espécie de pós-capitalismo, talvez a única forma de se pensar o mundo literário de maneira que não seja perda de tempo seja pensando-o de maneiras radicalmente diferentes. O que não significa pensar que devemos abandonar nossas fantásticas editoras e revistas independentes, muitíssimo pelo contrário, assim como os torrents de filmes não levam ninguém a abandonar as telas gigantes do cinema, eventualmente com óculos tridimensionais. Mas talvez haja espaço para pensar na nova literatura como uma outra forma de interação. Alguns parecem entender isso, como Jeanne Callegari e seu grupo de escritores que sairá em caravana literária pelo país em breve, tentando esticar o braço que falta entre novos autores vivos e pessoas igualmente vivas. Certamente não há uma fórmula única para se entender essa necessidade. Talvez um dia a nova literatura ou a literatura ultra-contemporânea se torne uma espécie de moda hipster tanto quanto o vintage é para os móveis, mas também pode se tornar uma moda pirata, anarquista, comunitária, ou tudo isso junto.

Na verdade eu nem ia falar sobre isso nesse editorial e sim sobre o trabalho do editor, e no fim das contas isso provavelmente fica pro próximo. Mas é interessante pensar o quanto que nos dói viver essa dinâmica absurda em que somos os donos do SIM e do NÃO a cada email que nos chega de escritores que querem apenas ser lidos. Será que seríamos uma espécie de alfândega da existência alheia? Não haveria um SIM necessariamente existente para cada NÃO que damos da mesma maneira que dizemos que existe um par perfeito para cada pessoa no universo e que é apenas uma questão de saber procurar? Pois bem, os pares perfeitos talvez sejam uma invenção do romantismo, mas as comunidades de leitores são muito mais antigas, vem dos tempos em que os irmãos Grimm ainda sequer tinham saído por aí coletando tradições orais. E talvez tê-las em mente dê algumas perspectivas de vida interessantes a todos nós, escritores, editores, e principalmente leitores.

Ao dizer que eu escrevia esse editorial como uma espécie de manifesto-ambicioso-revolucionário para mudar o mundo, a Raquel (Parrine, amiga e co-editora da Raimundo) deu como resposta uma definição mil vezes melhor: “revolucionar o mundo eu nao sei, mas vai sacudir a pequenez das nossas vidas”. Eu, você, e todo mundo que a gente conhece podemos ser muita coisa, mas certamente uma delas é leitores. Mas será que sabemos ler? Entendemos o que é ler? Talvez não seja possível sacudir a pequenez das nossas vidas lendo apenas quem não faz parte dessa pequenez. Talvez seja hora de se perguntar: será que eu leio quem está ao meu lado neste instante? E se eu não a leio, nem ela me lê, céus, quanta comunicação e quanto amor estamos perdendo?

A edição de inverno da Raimundo está cheia de textos que falam sobre todas as coisas menos sobre o amor. Alguns falam sobre cachorros que morrem em campos de golfe, sobre lagos, sobre morte, sobre sopas de peixe, sobre estar prestes a se morrer afogado, sobre peixes que desaparecem de aquários, sobre ser multado em uma viagem pela Ruta 14 argentina. Todos os autores estão vivos, muitos tem blogs, e alguns talvez até respondam seus emails.  Nenhum deles é um herói, e isso é fantástico.

Bom proveito!

 

 

 

Inverno 2015

Não sobre o amor

 

Adriana Calabró
Beatriz Ferraz
Bianca Gonçalves
Carolina Meyer Silvestre
Edson Duarte da Costa
Ellen Maria
Geruza Zelnys de Almeida
João Melhado
João Pedro de Souza Liossi
José Leme Galvão Jr.
Júlia de Carvalho Hansen
Junior Bellé
Léo Tavares
Leticia Tandeta
Líria Porto
Lucas Barros
Marcella Mattar
Marcella Lopes Guimarães
Marchiori Quevedo
Mariana Basílio
Marina Cristaldo
Marina Mattar
Ni Brisant
Paulliny Gualberto Tort
Renata Cordeiro

Ricardo Koch Kroeff & Mandela

Rita Brás
Rodrigo Pereira dos Santos
Sara Timóteo
Thais Lancman

Vilto Reis

Wanderson Mendes Machado

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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