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Vamos todos fazer silêncio?

Coletânea de poemas de Geruza Zelnys

 

apontamentos desse dia que me comeu hoje. [ou dessa tal liberdade]. ou desse dia que comeu meus apontamentos. [ou hoje, só].


o dia amanheceu
como amanhecem os pães
 
sobras do ontem esse hoje
murcho
e marrento
 
* * *

menina-brinquedo
 
corpo-túmulo
úmido de vida
 
* * *

eu sinto
[muito]
 
experiência única
de existir
entre dois versos
paralelos
 
* * *

cuidado:
pessoas
 
com igual tumulto
na alma
 
a poucos metros de distância
 
* * *

só você sabe
o que eles sentem
você sou eu
 
* * *

duas ou três lágrimas me acontecem se ouço:
1. joni mitchell
2. alguns versos / bêbados / de amigos
3. o silêncio da mãe
4. a voz metálica do condutor:
 
"estação liberdade
desembarque pelo lado direito do trem"
 
* * *

ao policial:
como chego a esse destino?
“segue à esquerda
esquerda
de novo à esquerda”
 
ponto de referência?
“em frente à igreja”
 
ufa, que bom
 
* * *

eles falam de cigarro e cachaça
 
burburinhos na sala
ao lado
esposa
cachaça
barriga solta &
vermes
 
gengivas e dentes riem suas cáries
: a verdadeira poesia da vida
 
* * *

aguardo a entrevista
quem perguntará o meu nome?
a senha de acesso ao meu ser?
somos só
uma letra g
atropelada por sílabas
 
* * *

um abrigo
uma obrigação
mulheres
com úteros careados
como eu
apetecida
de restos
 
* * *

ela sorri
e planta um sol dentado
no meu coração
 
de que matéria são feitos os sóis?
 
* * *

pulsam as paredes
 
"você já trabalhou isso?"
 o quê?
 
"a morte"
 
todos os dias
das 8h às 8h da manhã
 
* * *

"escolhi a vida" e ela
escolheu?
 
* * *

"eu fui bancária"
e contava os dias em notas de cem reais
 
a vida passava rápido
sem tempo
de acontecer
 
* * *

"professora", respondo à estagiária de psicologia
que tem a cara de uma ex-aluna
perdida
no tempo
 
* * *

se é dia por que ainda todo esse breu?
 
* * *

ela diz "agora"
e o relógio começa a correr
das horas
 
* * *

escaldo meus pés
num balde de gelo
imaginário
 
enquanto espero
uma estagiária de 20
decidir a vida
dos meus 40
 
* * *

por que o pudor de dizer
o verso que
brado
os sapatos perdidos
   no asfalto
   sujo
   o verso
de sangue e nada:
 
uma morte recém-
nascida
enrolada no berço azul
da poesia
 
* * *

assinale o x
( ) branca
( ) negra
( ) parda
( ) azul com listras e/ou bolinhas vermelhas
 
não há diferença de cor aqui:
todos somos
pretos
 
* * *

ela diz que vai demorar um pouco
mas meu tempo é outro
730h
distribuídas homeopateticamente
 
no canto da sala
uma salamandra muda
de cor
 
* * *

ladradura infernal ecoando no silêncio
 
* * *

talvez vesga:
conversa fixamente com um ponto
            logo acima do meu ombro
direito
 
talvez só esteja falando diretamente com meus guias.
 
* * *

o meu nome é
geruza
 
oi geruza
 
* * *

elas são tão velhas
que crimes cometem as velhas?
 
* * *

olham-me e abaixam a cabeça
não é respeito
é compreensão
 
* * *

eu + todas
as mulheres do mundo
limpando privadas
e bocetas
cagadas
por homens
 
* * *

em tempo:
que crime pode ter cometido alguém que usa uma bolsa hello kitty?
 
* * *

procuro a palavra
mas velado é o coração dos dedos
 
continuo piando apenas
    dentro
    do galinheiro
 
* * *

me chamam
não ouço e também não vou responder
 
sagrado é o nome
pelo qual atende
                 meu coração
 
* * *

"se relaciona com homens ou
mulheres?"
 
com gente
me sinto mais segura
 
* * *

um pássaro da raça dos possíveis
metálico
pousou na minha árvore
    genealógica
 
[preciso me lembrar de colocar óleo nas engrenagens]
 
* * *

um coração não-humano
pequenino
como o de uma galinha
bate
desconcertado e com febre
no atacama do peito
 
* * *

quatro paredes vazias de quadros
uma porta
[fechada]
linda!
 
* * *

a tragédia se avizinha
e eu sinto
 
vontade de fazer xixi
 
* * *

but I said: no no
no
 
* * *

box 02
o nome dela é luz maria. e ela não pegou
na minha mão, mas sorriu
 
de que matéria são feitos os afetos?
 
* * *

agouro-agora: ela me deixa

posso chorar mas estou seca
 
* * *

um verso:
a vida é essa insônia constante dos dias
 
* * *

só a mim mesma
confesso-me
aos outros sou pura
 
exibição
 
* * *

quero esvaziar meu corpo dos outros
e ser só
experiência
 
mas na hora do aperto
o mais difícil de segurar
é a vontade de fazer xi-
xi
 
* * *

ela escreve bisexual
com um 's' a menos
não me incomoda
eu quero mais é que as palavras
                          se fodam
 
* * *

por favor, há um lugar em que eu possa libertar
o deserto?
 
* * *

passa a bolsa
da hello kitty
cheia de crimes contra a humanidade
 
poderão reintegrá-la à sociedade?
 
* * *

hoje não quero faca nem fome
só a paz
dos suicidas que se matam
sem
 
* * *

ela deixou a porta aberta mas
tenho medo
dessa tal liberdade
 
[só pra contrariar]
 
* * *

tenho de me lembrar de tomar boldo
o bandido mencionou que é bom
     pro fígado
 
[ecos da sela ao lado]
 
* * *

somos criminosos tão comuns que
passaríamos  
incólumes                   como pardais
 
não fossem os crachás incendiando
o peito
 
* * *

cinquenta e duas pétalas tem o girassol mais amarelo
e isso não tem importância nenhuma
 
* * *

capturado
é uma palavra feita com as pintas
    do leopardo
 
* * *

aprisionada num deserto infinito ao qual não cabem grades
aprisionada na liberdade perpétua do pensamento
 
mexicanizo-me
 
são tantos e eles cantam
 
meus pés tamborilam
e dentro um exército de cantores
colombianos tocam flauta
nas esquinas
dos meus ossos
 
* * *

recrio uma lituânia
  nunca vista
no quadro ausente
  de um box
  de no. 2
2x2
é a medida do horizonte se abrindo
      sob
      meus pés
 
* * *

hilda
o que aconteceu contigo para ter enlouquecido mais
do que eu?
 
* * *

vidro líquido escorrendo pelas pernas
gozo
 
* * *

na fila, um cego
renovando a CNH
 
difícil escrever poesia
  rimando
.com
burocracias
 
* * *

H6042
entre uma senha e outra
escrevo
o verso
 
intervalos poéticos
entre inspiração e
               ex-
piação
 
uma cerca vazada de arames confunde galinhas
 
* * *

constava que nos parágrafos finais
 
com pressa e
faz-de-conta
a menina-brinquedo
atravessava
a avenida do estado
 
segurando apertado
no gradeado de dedos
uma centelha faiscante
[pleonasmo]
 
de liberdade
 
 
[ain que poema fofo]


 

 

 

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Geruza Zelnys

geruza zelnys é quase a mesma do verão 2015. só que com um silêncio a mais pregado no peito. continua amarrada ao poste. agora com um livro fincado entre os dentes. mas "esse livro não é pra você" (ed. patuá). gosta de imaginar que outra forma de ser livre é parando no meio de uma fr

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Raimundo • Nova literatura brasileira

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