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Res cerratensis e outros poemas

Coletânea de poemas de José Leme Galvão Jr.

 

Mareal

Alcântarus chovia sob nuvens, claras
águas incontinentes mais molhando.
São Luís alinhavada no horizonte,
subia e descia diante da baía.

Contraria vaga curantur,
observa o navegante, profundo.
Cerratense em desvario arregaça mangues,
redime florada atlântica nos remos.

Trabalho recendente a gema rasgada,
vem de dentro quebrando casca desperado.
Esperada metrópole em séculos mosaicos,
emparedando de fora, observante.

Ao horizonte submersas histórias de cascos não chegados.

Águas santas cheias de culpas humanas:
Santa Maria, São Luís, São Cristóvão, São Salvador.
Demandam São Franciscanas chapadas,
São Marcos dos Cristais, Arrependidos.

Inaxis occidentalis
São Sebastião de todos os reis em janeiros,
dezoito séculos d.C. rompe Mantiqueira.
Cordis filheira.
Dondeldorado é berço e tumba,
façanha e barganha,
liberdade e escravidão

Quatro Villas sonhadas doiradas.
Nuvens de ouropó.
Frechadas curare, ne curantur,
em torrealvas Sant’Annas.

Vila Rica, Vila Boa, Vila Real e Vila Bela.

Ai meu Bom Jesus!
Valei-me Nossenhora D’Abadia!
Desafogai-me das águas, embebei-me nas secas.
Navegandante de veredas e cerrados infinitos.

Mare Nostrum.

Novo mediterrâneo espessado sangra
pelo Vermelho, funde Berôocã, repuxa
das Mortes, Uruhu, Almas, Maranhão, até Santa Maria
de Belém do Grão Pará, fusão plena de águaterra.

Além sangra de novo pelo Cuiabá e São Lourenço,
em choro lento pelos desvarios do poeta de Barros.
Estanca, chove pra cima nos Xaraiés, recolhe-se.
Pará Guay até além de los Guaranies.
Imolados Arcanjos,
imolada Guayra,
sete vidas, sete quedas.

Si te quedas en la Mar del Plata,
en el océano ya quedaste.
Más si vuelves en ollas de nostalgia,
hasta el sol y los alumbrados de los Parecies,
mirad, mas allá America sangra suave.

Observa Ricardo Franco em águas misteriosas opulentas:
Guaporé, Mamoré, Madre de Dios, Beni, Madero.
Solidões de águas emendadas, degelos tropicais.
Urubamba, Ucayali, Marañon, Solimões,
vastas águas Brancas e Negras.
Vasto Amazonas.

E Santa Maria recomeça pelo fim.

* * *

Assimetrias
(mínimo tratado da Síndrome dos Sumérios)

Apesar dos esforços simétricos – cêntricos,
códices rompem-se em áureas divisões
e existências frágeis
Muros, muralhas, Hamurábi.

Se alevantam penhascos de barro e pedra,
demarcam próprios e familiares semi-deuses.
Frestam umbrais suntuosos, cerram madeiros invernais,
ameiam e fuzilam, vertem óleos ferventes.

Do sortimento de desatinos sob halos sísmicos,
fluem faunos tingidos de sangue, azuis.
Servindo-se das vidas inúteis – é parca a sentinela,
avançam céleres à conquista da nova cidadela.

E no secreto das catacumbas, ainda submersos,
sortilégios proferidos à pouca luz dos sacelos,
dos desvalidos, ecoam em frígido universo.
Priscas eras, priscos homens e mulheres.
Valhacoutos de fogos frios, ínvias cavernas.

Novíssima sociedade de símiles seres avança,
trança caminhos estranhos, retesa os largos passos.
Fluem caravanas largas, não erram sobre cascos.
Destinam, não desatinam por lagares como dança

Mas tal destino cumpre tirana ameaça
e o fado cruel do escorpião signa sátrapas.
Cede atávico medo, humo adonde viçam ímprobas
flores do mal, e vestem finos mantos de caliça.

E a cidadela trucidada sustenta novas raízes.
Sobre pedras ensanguidas alvanéis alevantam
a urbe rediviva, onde frisos e anéis brilham.
E tornam como anjos os altos senhores e juízes.

Eis a síndrome atávica de nossas mais primevas
eras, de quando os semi-deuses eram parcos
homens envolvidos em finas franjas douradas.
Estranha natureza, havendo deuses, hão covardes.

Eis a síndrome dos francos esgrimistas da palavra.
Esmagam antecessores com maça e arquiclava,
e sobre a ruína alheia constroem catedrais retóricas,
cidadelas de razões fluidas, urbes meteóricas.

Disse Jurandir na carta ao Brasil:
É em reflexo à esmagadora potência da natureza,
à mortalidade, ao corpo vulnerável,
que os homens inventam as civilizações.

Disse Platão na sétima carta, no sétimo selo:
A divindade vingadora desencadeou sobre vós
franco desprezo das leis e dos deuses, e a audácia
que só a ignorância confere, onde os males da humanidade
deitam suas raízes, engrossam e produzem frutos amaríssimos.

Antiga mente. Moderna mente. Igual mente.

Escalas de destruição comparáveis à construção.
Imensa energia para destruir cidadelas à ela proporcional,
a humanidade cumprindo a síndrome ritual.
Vida e morte, opostos complementares, Yin – Yang.
No apogeu, em gestação a morte.

Poetas, filósofos e artistas afiam essa navalha,
mostram na tragédia o belo e o espetáculo.

Redivivos e refinados Sumérios, dominantes, cruéis,
restituem medos virtuais, ternura, mundo simulacro,
batalhas retóricas, guerras discursivas,
submissões intelectuais, derrotas e humilhações insuportáveis.

Deconstruir catedrais de pedras conceituais,
arcos retóricos, invenções e reinvenções da natureza,
construir novas catedrais, novos argumentos.
As mesmas pedras entretanto.

Desde Platão à Freire ouço longo rumor,
como vozes em longos debates, como as margens
ravinas em decomposição ante águas, como as guerras
nunca se calam em nossa história.

Deblateram dementes e sábios recentes,
sapientes disputam primazias de teses ocas,
porfiam maestros portentosos, mestres ilusionistas,
indigentes de rotas roupagens do saber, trêfegos escribas.

Queria eu cumprir o intento mordaz desta porfia,
glosar os caricatos, desafinar os cânticos opacos,
golpear e deitar ao chão a retocada iconografia.
Bobão, fui pego no remoinho dos poetas fracos!

* * *

Res Cerratensis
Lembro-me do cântico Nerudiano
O espanto pela existência do Narwaal
Lembro-me do cântico infantil
Desconfiando entre existências reais e imaginadas
- Pai, existe isso ou aquilo?

Quem já entrou em mata fechada
Em campos sem fim
Quem se encerrou no cerrado
Em quadros sem fim
Já ouviu gritar aninhada em buritis
A recurva Curicaca
Já lendou bugios em bando
Povoando capão de mato repleto de baunilha madura
Já apostolou progresso modernista
Arquitetando em cartilha segura
Aos ermos e enfermos...

Quem já viveu de real um termo de homaiadas migrantes
E ansiou porvir asfaltado, passageiro do projeto avião
Hoje melancoliza, não era pra ser assim não,
Não era pra debochar dos viventes.

Será que existe mesmo o Guará?
Será nosso Lobo um espantoso Narwaal?

Cerrado ataperado inerme, retificado altiplano
Caianas e sojas infinitas carpetam o imenso crematório
Olho o centro, a verdade e a mentira da visão do santo
Palaciano present’Emas

Pobre e canceroso Éden

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

José Leme Galvão Jr.

Nasci em Cruzeiro, Estado de São Paulo, Brasil, no dia 15 de setembro de 1950. Resido em Brasília desde 1971, onde estudei e me formei arquiteto pela UnB. Por 35 anos fui arquiteto do IPHAN, participei de muitos projetos e obras de restauro e requalificação de monumentos e áreas urbanas, entre tantas outras atividades de gestão e cuidados com o patrimônio cultural.

Só para citar algumas: Antigo Quartel do 20ºBI, Goiás, GO - 1980/82; Igreja e Museu de Arte Sacra de Nossa Senhora da Boa Morte, Goiás, GO - 1982/83; Museu das Bandeiras, antiga Casa de Câmara e Cadeia, Goiás, GO - 1982/83; Casa da Princesa, Pilar, GO - 1980/81; Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, Pirenópolis, GO - Etapas de 1983/84 e 1987/88; Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, Cuiabá, MT – 1982; Sé de Sant’Anna do Sacramento, Chapada dos Guimarães, MT - 1982/83; Seminário da Conceição, Cuiabá, MT - 1982/83; Palácio Conde dos Arcos, Goiás, GO - 1983/84; Antiga Casa da Fundição do Ouro, Goiás, GO - 1984/85/86, 1989, 1992; Casa do IPHAN em Cuiabá, MT - 1992/93.

Alguns projetos e programas de governo, como o Programa de Revitalização do Patrimônio Cultural Urbano, depois MONUMENTA. Além disso alguns projetos de arquitetura e paisagismo, entre residências e instituições. Aposentado pelo IPHAN (Serviço Público Federal) desde agosto de 2013, agora arquiteto e urbanista autônomo. Artista plástico autodidata mas com passagens nos ateliês de Ralph Gehre e Elder Rocha, meu trabalho é predominantemente figurativo com algumas incursões iniciais em xilogravura e design gráfico. Hoje minha produção restringe-se a desenhos sobre papel (bico-de-pena, crayon, lápis), e pintura com têmpera vinílica sobre tela. Sou artista representado na Galeria XXX de Arte Contemporânea, em Brasília.

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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