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Oi, mãe, sorrindo

Conto de João Melhado

Os verões são os piores, especialmente este, africano. As crianças não têm aula, elas brincam de bola na rua e tomam sorvete depois do almoço e no final da tarde, não tem problema duas vezes no mesmo dia, tá calor, os pais deixam as gravatas no armário, as mães vão pro clube, as praias lotam até não existir mais areia e as tevês torcem pra que fique cada vez mais quente, praí noticiar um novo recorde, com cenas das praias sem areia, o mais quente dos últimos cinquenta e três anos.

Eu não. Eu busco minha mãe no hospital: câncer. Mama. Estágio avançado, descobriu tarde, era pra ter morrido na quinta passada se o médico fosse bom de matemática. O novo chute são outras duas semanas. Pontadas no seio, tão gorda quanto um caule de manjericão, careca, as unhas quebram, vomita todos os dias, duas vezes pelo menos, sempre depois do almoço, se é que aquele líquido tem esse nome. Ela usa fralda, meu deus! E mais duas semanas?

Ela sabe o que eu penso, eu acho, e já deve ter pensado também, não é possível que não. Ao invés disso, fica inventando programas pra passar mais tempo comigo e com a minha irmã: os filmes do Oscar, buraco, podar as flores da casa, fazer waffles que ela não come, os filmes do Oscar do ano passado, todos os jogos de tabuleiro, dominó, xadrez, resta-um, detetive, banco imobiliário, palavras cruzadas. Enquanto jogamos, sorrio, fingindo que a mulher na minha frente é a mesma do porta-retrato no canto da sala. Move as peças devagar, devagar mesmo – o ó, depois o cê, o u e só então ele e o ó de novo – como se quisesse enganar o tempo, dizer que ainda não, enquanto o olhar sorumbático diz já.

***

O envelope ficou lá. Não abri nem quis levar pra casa. Já sabia a resposta, o olhar dele me disse. Só perguntei quanto tempo: dois meses, no máximo. Corrida com o pessoal do trabalho três vezes por semana, churrasco quase nunca, álcool socialmente, uma vida saudável e chata, afinal. Agora isso. Pros outros deve ser mais fácil colocar a responsabilidade em deus. O fato de ser mama deixa a morte ainda mais estúpida: tem campanha na Globo e camiseta da Hering, cacete! Fui atrás de saber, e mais de noventa por cento das pessoas dizem que, se pudessem, gostariam de saber o dia em que vão morrer. É que elas não podem, e também não acham que vai acontecer logo. É um inferno: quando eu acho que morri, meu corpo dá uma pontada e diz que ainda não, que vai ser aos poucos, pungente, interminável. Meus peitos se foram, obviamente. E tem a enfermeira que me pergunta como eu tô depois da quimio, as flores e os bolos – eu não posso comer bolo – dos vizinhos, as tias com quem nunca falei e agora ligam querendo saber se já morri – fiquem tranquilas, vocês serão avisadas – os filhos das visitas que, depois de olhar muito, pedem pra passar a mão na minha cabeça. Nada é mais clichê do que câncer.

***

Nunca sei como ela vai estar quando abrir a porta do carro: baqueada, faminta e chapada, curiosa pelo nosso dia, animada com a sessão mais leve, cansada. Em geral, cansada. Tento parecer tranquilo, mudar o tom, falar do verão sem dizer o que penso, comentar as críticas do filme que ainda vamos assistir, fazer algumas surpresas. Até que isso acabe, e espero que o médico acerte desta vez, sempre, invariavelmente, enquanto ela caminha em direção ao carro, abaixo o vidro e digo oi, mãe, sorrindo.

 

 

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

João Melhado

João Melhado nasceu em londrina, tem vinte e quatro anos e é economista.

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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