Início          Edição atual          Edições anteriores          Blog          Corpo editorial          Normas para publicação          Quem somos?          Contato         

 

Meu nome é Valentina

Conto de Lucas Barros

 

Tiro a identidade do bolso. Mostro para o suposto homem-câmera que confere a identidade de todos que a partir dos sessenta entram pela traseira do ônibus. Eu duvido que elas funcionem. Estão em todos os lugares, no mercado, no hortifruti, no banco, Deus, até nas ruas elas lá estão. Só no maldito ônibus tenho que confrontá-la, interagir, esticar um braço em sua direção, meu nome estampado ao lado de uma mulher que há muito já deixei de ser, o outro segurando firmemente a barra de metal que confere algum equilíbrio para pernas que já sustentaram um corpo esbelto com pés em ponta, giros de trezentos e sessenta ininterruptos e perfeitos. Agora quem gira é o volante do motorista e a rotatória que na juventude sempre amei agora odeio: o girar libertário agora me angustia, só quero sentar e seguir em linha reta, por favor, sem quebra-molas, basta a dor nas costas. 

Há muito deixei de olhar para a câmera: o movimento é automático, cada vez mais baixo, cada vez com menos esforço. Quem é este jovem trocador que me manda repetir uma ação desnecessária? Essa imagem informática, não me enganem, sei que ninguém está a assistir, talvez ela nem exista, de fato, ela nem existe. O real sou eu, com todas as rugas e manchas de sol, mão cadavérica que nenhum creme conseguiu refrear a ação do tempo, então, não, eu não vou repetir ação ridícula de estender braços para ninguém, meu jovem, olhe pra mim e me diga que tenho menos de sessenta, que lisonjeiro seria. Mas os jovens estão presos neste inferno kaufkaniano e repetem o que lhe mandaram repetir. Finjo que não ouço, que me achem louca, senil ou gagá, o termo que melhor convir, não repito, só sento e aguardo a chegada do meu ponto.

Abro a bolsinha para depositar lá Valentina, essa jovem bonita que não conseguiu não deixar entrevir nas bochechas cheias um leve sorriso zombeteiro. Deixo a identidade cair, Deus, a tarefa hercúlea de procurá-la no chão do ônibus. O problema não é a descida, mas a volta, as vértebras berrando de dor, detestam a gravidade que as impelem pro chão. Vejo que pais fizeram um bom trabalho quando o jovem mais do que depressa abaixa e pega a identidade, movimento veloz que paradoxalmente amo - poupo-me tarefa árdua -, e que odeio - lembra-me minha velhice. "Que linda a senhora!" E me devolve a identidade.

Não sou má educada, e sorrio soltando sons baixos de velhinha satisfeita com quem fora, mais para satisfação dele do que minha. A insatisfação da afirmação reside nos meus olhos, para os quais ele olha, mas não vê - obscurecido pela visão do olhar maroto de Valentina que acredita entrever em minha íris opaca, luz nenhuma a atravessa mais. Não passou despercebida a ausência de verbo na frase do jovem rapaz, nada me escapa. Sei como sou, ele tentou não me lembrar, mas como não? Quando nossos dedos se tocam na devolução de Valentina, lá está a verdade nua e crua de mãos separadas por décadas, a minha repleta de calos, a dele alva, unhas bem feitas, vejo suas veias fracamente destacadas da pele, em harmonia com a superfície, planície perfeita e invejável quando olho para as minhas veias sobressalentes de solo morto sem água.

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Lucas Barros

Lucas Barros é graduando em Cinema e Audiovisual na Universidade Federal Fluminense. Vem procurando desde o início do curso uma formação complementar ao cinema, seja buscando cursos secundários, seja pela vontade própria de explorar outros meios técnicos de expressão. Assim, além do trabalho em diversos curtas, vem explorando outras formas de expressão, como a fotografia, a arte digital e a escrita. Atualmente, está expondo seu projeto fotográfico 'Densidade' no Solar do Jambeiro em Niterói.

Blog do autor

barroslp.wix.com/home

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

A revista

Edições anteriores

Blog

Corpo editorial

Nossos artistas

Autores (breve)

Colabore com a Raimundo

Normas para publicação

Contato