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Pequena história da leitura

Conto de Marcella Lopes Guimarães

Eu nunca arrumo meus livros. Eu ajudo o seu deslocamento, dando apoio braçal ao desejo de novos ares: – Você quer morar um tempo com as irmãs Brontë? – Prefere a companhia de Dostoievski? – Ficaria à vontade entre Le Goff e Duby?Ou prefere conversar esta semana com o moleiro Menocchio? – Daquele lado, mora Nietzsche... Quando alguém entra aqui e me pergunta como me encontro, eu digo que nunca me encontro e por isso estou segura. As pessoas são condescendentes com os poetas, mesmo que eles sejam falsos.

Um dia, descobri uma lagartixa entre os volumes de Tempo e Narrativa de Paul Ricoeur e relatei o caso a três pessoas. Aguardei semanas que ela terminasse a leitura dos volumes. Imaginei que precisaria de muito tempo, confiante na disparidade enganosa entre o corpo e a vontade de saber. Quando julguei que ela enfrentaria Alberto Manguel, descobri seu corpo seco entre as páginas 184 e 185 do terceiro volume: “a ideia de sequência de gerações proporciona a base sobre a qual repousa essa relação anônima entre indivíduos, tomada na sua dimensão temporal”. Enquanto afastava o meu olhar do resto mortal e pensava onde tinha deixado a vassoura, fui assaltada pela dúvida: teria tido tempo, em meio a tanta dedicação às letras, de transmitir a alguma criatura o legado da sua miséria. A responsabilidade de despoletar uma sequência de gerações a teria esmagado? Desejou ser só? Escondeu-se de um casamento arranjado? Devolveu as cartas à Regine Olsen?

Virei a página. Se seu temor do futuro não a tivesse esmagado, teria descoberto que “o enriquecimento que o conceito de geração traz ao de história efetiva é mais considerável do que poderia suspeitar”, seja lá o que o filósofo tenha querido dizer ou confortar. Eu passei os olhos pelas páginas do futuro abortado da inquilina inadimplente. Eu lamentei o que não mais lerá, até observar os volumes localizados à direita de Tempo e Narrativa... Ela viveu, afinal! Ao invés de me entristecer com o não, sua história de leitura me provava o que foi. Ela não errou o discurso de seus anos.

Fechei o terceiro volume. Encerrei-o na caixa de luxo apertada da obra que, afinal, pode ter sido a causa do sufocamento da leitora e olhei à minha volta para conferir se alguém precisava de nova vizinhança. Eu. Espalhei a minha vaidade pelos quatro cantos, criando associações engraçadas entre os livros que escrevi e seus novos companheiros. Em respeito póstumo à ausência da lagartixa, coloquei um pequeno livro meu ao lado do seu esquife. Olhei para cima, Tolstói me aprovava. Foi quando percebi aquilo que parecia ser um pequeno fragmento de lã animado. Uma minúscula evidência da vida ansiosa por queimar etapas, abraçando a literatura russa! Com cuidado e sem pressa, eu a levei até o reino das águas claras para que, antes de surpreender a fuga de Tolstói, aprendesse, ao menos e antes, a falar com a Marquesa de Rabicó.

 

 

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Marcella Lopes Guimarães

Marcella Lopes Guimarães é formada em Letras, Mestra em Literatura Portuguesa e Doutora em História. Atualmente é Professora Associada de História Medieval na UFPR e pesquisadora do laboratório de pesquisa NEMED (Núcleo de Estudos Mediterrânicos). Atuou como crítica literária no Rascunho por quatro anos. Publicou obras dedicadas aos estudos literários, como: Visões da cidade: um passeio por Rua de Miguel Torga, pela Editora Juruá, e Literatura dos anos 90: diversidade cultural e recepcional também pela Juruá; artigos em revistas brasileiras e estrangeiras, mas tem um carinho muito particular pela coleção de livros para crianças sobre Identidade, Alteridade e Memória, pulicados em 2013, pela Editora Positivo. Oura realização sobre a qual gosta de falar, na área da Historiografia, é o seu Capítulos de História: o trabalho com fontes, editado pela Editora Aymará e selecionado no PNBE do Professor em 2013. Marcella Lopes Guimarães teve poemas seus publicados no Rascunho e recentemente a Revista Flaubert publicou seu conto “Os óculos”.

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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