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O aquário vazio

Conto de Marcella Mattar

- Morreu de novo – disse o homem servindo-se de uma grande xícara de café, só então notando que os pingos que escorriam da cafeteira mancharam a toalha xadrez – Droga – ele largou a cafeteira bruscamente sobre a mesa e foi buscar um pano.

A mulher mirou o aquário sem emoção.

 – Mas que porra, de novo?

- De novo – ele respondeu, irritado, enquanto tentava limpar as gotas pretas da toalha.

A mulher olhou o marido com indiferença. Sequer havia notado o aquário vazio, embora ela estivesse na cozinha já há algum tempo.

-  Deve estar com algum problema essa água aí – o homem continuou – Não é possível que  morram tão rápido.

- Você pode cuidar disso? – disse ao marido, enquanto voltava a organizar os papéis sobre a mesa – Tenho que terminar a minha tese.

E ouviu-o suspirar se afastando pelos corredores do apartamento.

 - Agora passo na loja antes que ela acorde.

O aquário permaneceu vazio até o fim da manhã, quando João chegou com um peixe novo embrulhado numa sacola de plástico com água.

- Você acha que esse aqui se parece com o anterior? – disse à esposa, largando a sacola com o peixe na mesa da cozinha.

Só o que tinha de fazer era continuar comprando um peixe da mesma cor. Todos eram parecidos e a filha nunca percebia a substituição.

- Cuidado! – a mulher exclamou – Não vai botar esse bicho perto dos meus papéis!

João tentava manter a calma, mas ela estava sempre exaltada. Olhou pela janela, o sol raiava no exuberante céu azul. Era quase hora do almoço.

- Vou pedir para a Rita acordar a Marina – ele disse, desviando os olhos do horizonte.

 Pegou o recipiente com o peixe e ficou olhando-o parecendo claustrofóbico na sacola pequena. Por um momento teve piedade. Depois, pegou uma faca que estava sobre a mesa, abriu a sacola de qualquer jeito e mecanicamente despejou o peixe no aquário.

Marina chegou à cozinha pulando e contando das atividades escolares que teria hoje. A mãe se retirou da cozinha para poder ler em silêncio.

- Bom dia, Cenourinha! – disse, olhando o peixe laranja no aquário – Papai, ele está a cada dia mais bonito.

O pai riu, enquanto, distraído, assistia ao jornal na televisão. Marina sentou-se à mesa e ficou esperando a comida.

- Papai, a toalha está suja.

-  O pai derramou café sem querer.

- E não vai comprar outra?

- Agora não – ele respondeu.

- Essa era a minha toalha preferida.

Marina conversou com o peixe enquanto Rita preparava o almoço. Ele era seu melhor amigo, sua mais fiel companhia. Após o almoço, o pai saiu para trabalhar e a mãe ficou na cozinha escrevendo a tese de mestrado. Gostava de ficar na cozinha, pois, mais tarde, de lá dava para ver o pôr-do-sol. Nada mais justo que um café com pôr-do-sol depois de um longo dia de trabalho, a mãe sempre dizia. Rita levou Marina na escola, e mais um dia se passou, como qualquer outro.

No meio da noite, Marina despertou-se assustada. Tinha tido um pesadelo. Sonhou que a mãe virava peixe e nunca mais voltava ao normal. Mas não era um peixe bonito, era um daqueles monstruosos dos quais ela tinha medo. Espantou o pensamento e levantou-se da cama. Sentia sede. Foi até a cozinha, passando pelo silêncio e a escuridão da sala, perguntando-se se os pais já dormiam. A cozinha tinha as janelas grandes e era mais iluminada, aliviando o medo da menina. Por algum motivo, todos na casa tinham uma estranha preferência pela cozinha. Pegou um copo no armário e encheu-o de água até quase transbordar. Tomou tudo quase num gole. Sentindo-se sozinha, foi até o aquário e ali ficou olhando o peixe por longos minutos. Ouviu um barulho estranho vindo do quarto da empregada. Imaginou como seria viver embaixo da água. Como será que o peixe respira? Ele era tão engraçadinho. Os gemidos contidos do quarto ao lado não paravam. Enquanto isso, Cenourinha continuava rodando de um lado para o outro, em movimentos sem sentido. Notou que ele não tinha direção, simplesmente perambulava pelo aquário. Uma hora ficou parado, encarando-a como se soubesse que ela o observava. A menina olhou bem fundo nos olhos dele. Sentiu que o animal a olhava de volta, comunicava-se com ela. O aquário era melancólico, por mais que os pais nunca o deixassem vazio. Imaginou a mãe dormindo sozinha do outro lado do apartamento. Sorriu para o peixe laranja, esse Cenourinha era mesmo um dos mais bonitos que havia ganhado nos últimos meses. Enfiou a pequena mão por dentre o vidro e agarrou o peixe, retirando-o da água. Quando estava morto, devolveu-o ao aquário, depois retornou ao quarto e dormiu.

 

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Marcella Mattar

Marcella Mattar gosta de banhos gelados, viagens solo e feijão. Acredita que o mundo seria um lugar melhor se fossem proibidas perguntas sobre o significado de suas tatuagens, seus escritos ou o vegetarianismo. Publicou o livro de contos “O movimento do oceano” pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul em 2012.

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marcellamattar.wordpress.com

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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