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Cruzes vazias e outros poemas

Coletânea de poemas de Ni Brisant

 

Panteão

Fiz duma flor o meu estandarte

quando descobri que toda bandeira

(inclusive a da paz)

é pintada com sangue.

 

Tomei o vento como único mestre

ao saber que toda convicção

(a minha e a sua, inclusive)

é um compromisso de morte.

 

Ser independente não é estar só

é escolher com quem e por onde andar.

 

* * *

 

Agosto

Não

nunca morre o dragão
por dor

doença

ou lança.


Morre pelas próprias mãos
se cala o grito

perde o riso

dança. 

 

* * *

 

Cruzes vazias

(para Laudecir Silva)

 

Encontro animais a caminho da guerra

já sem vida antes da volta

sem inimigos nem raiva

marcham

superarmados

com avançadas técnicas de estupidez

exibem a destruição como glória

em medalhas sem honra ou mérito

colorem com esperma a bandeira da paz

massacram e cantam hinos

categoricamente

sob a proteção dos deuses da morte

portam armas de fogo à esquerda

e revista pornô na destra:

demônios sem governo, fé ou inferno.

 

Encontro animais a caminho da cama

já sem sonhos antes do sono

aos beijos

bandos

formam coletivos de solitários no cio

berram palavrões compostos

colecionam corações

e pilham corpos

na falta de natureza  para amar

tragam o ópio da desgraça

pelos cantos da escuridão

e pela manhã

malham e chupam drops de vitamina C:

demônios latifundiários do tédio sem moral.

 

Encontro animais a caminho do trabalho

já sem forças antes de derramar o 1º suor

montam cadáveres [nacionais e importados]

dirigem gaiolas

e suportam

sempre amarrados

salários-esmolas, insultos ilimitados,

carteiras assassinadas e outros golpes

previstos na soberana escravidão oficial

sem crer num deus-salvador-invisível

[maquinam]

na falta de dignidade para reagir

[preguiçam]

juram lealdade a carnês, livros sagrados,

cruzes vazias e outros nós

aparentemente inofensivos

e chegam à aposentadoria sem saber

a quem ou ao quê

serviram:

batalhões de demônios imperadores

cabisbaixos.

 

Ao longo destas 26 léguas,

já não conto quantos animais encontrei.

Também não sei mais ao certo

a qual espécie pertenço.

Mas das gentes: homens e mulheres reais,

de tão raros, lembro bem

cada traço, valor e nome

todo sentimento, ritmo e ideia.

Eu e minha gente guardamos a vida no peito

sem desconfiar que a eternidade

esteve sempre em nossas mãos.

Antes eu não sabia

mas agora já suspeito de tudo

e ninguém poderá nos deter

ninguém poderá nos medir.

Se juntos, somos mais,

façamos o caminho inverso

não só para o bem

não só para o legal

mas para o que for preciso.

 

Lado a lado

somos infinitos.

 

Não contemos os passos

caminhemos.

 

 

 

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Ni Brisant

Ni Brisant pensa que poesia é o que a gente sente; o resto é literatura. Retirante, educador social, piriguista e organizador do sarau Sobrenome Liberdade. Ni escreveu "Para Brisa", "Se eu tivesse meu próprio dicionário" e "Tratado sobre o coração das coisas ditas" (todos publicação do autor).

Blog do autor

nibrisant.blogspot.com

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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