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Descasa-te

Coletânea de poemas de Rita Brás

 

Não fiques em casa. Descasa-te. Compra um jornal e senta-te a ler as secções. A cultura, a informação económica, a política internacional. Secção atrás de secção. Lembras-te de ti como uma criança, em nova, a jogar às cartas debaixo da mesa e a bater como um cão nas pernas da avó?! A avó estava louca, senil, como lhe chamam. E tu tinhas à tua frente uma nova discussão com a luz. “Prefiro a prosa”, e davam-lhe moedas caso provasse ser um arrumador de trocos. “Eu gosto de tudo”, não podias dizer, ninguém ouvia nada de nada. De ti, perdeste o traço, o carril até à estação grande no apeadeiro do cais, por baixo da nuvem cor-de-rosa da aurora. Quem és tu? Tens um amante? Jogam às cartas? Ouve-se o barulho dos carros a chegar e a correria das crianças?  Oh, descasa-te. O mundo pertence-te tanto que tu já nem sabes sonhar. Nem contar, nem decidir por que estrada, por que mapa, por que rua, poderá ir o teu cavalinho à chuva. O teu peão de plástico do xadrez do bairro, o soldadinho que às vezes combate, um a um, os teus fantasmas solitários. Apodrece já. Seria melhor se mandasses fazer a barba ao teu pai Natal de cartão molhado com as tuas lágrimas salgadas. Faziam-te a corte se soubessem que estás perdida, perdida. Anunciavam a tua chegada com tambores e tudo, e serviriam um banquete se estivesses de dieta. Mas não estás pois não? Avisaram-te para lamberes os dedinhos no final se não ficas de castigo... A cumprir um castigo muito doloroso e mau. Consiste na ideia tonta da tua malvadez. É complicado e sério, grave e antipático. “Diga-lhe que escrevo. Ela prefere poesia não é?” A ter que lavar-se. Sentava-se perto do balcão de jade, e imitava um teatro chinês, a mímica e a sombra e as cores vivas sobre a desgraça. E o meu coração oprimido continuava em maré de azar! Assim sem mais nem menos, gostaria de verter essa água toda para um alguidar. Coma, se lhe dá prazer. Diga-me lá, em que esquina assimétrica o seu pai, com o diabo, faleceu? É óbvio que as horas passam. Ninguém percebe patavina da sua história final. Porque é que não começa por dizer a que horas chegou, e a que horas pensa voltar?

 

* * * 
 
Não há sinais de vento sobretudo não há ganchos, molas
para segurar o meu coração preso ao estendal
pus a secar a minha sede
dei a minha língua a engolir a uma vaca
se eu não quero ter mais medo dos pobres 
nem das ilusões das baratas pequenas que aparecem
em todo o lado
uma chapada
um grito abafado com um mel nojento
uma toalha cheia de sangue
uma mesa miserável numa casa suja
desarrumada
e os amantes burgueses que já não existem
a discutirem o cinema do tédio

A minha paranoia por um requinte
de drogas suaves misturadas com uma música nova
ia chegando aos ouvidos do Marajá da Índia  
que me ia comprando em literatura
tudo o que eu não obtive em vida.

Mas o sol não chega à borda da roupa
não vai secar a cor das camisolas de lã
a sua lição não é para nós
é para os cágados que se deixam ficar a apanhar do ar
é para as borboletas que aparecem do nada como ilusões
para nos deixar admirar as suas asas e as suas cores
é para as pedras aquecerem nos caminhos
enquanto os lagos se evaporam
longe da nossa voz

 

* * * 

A inspiração?
Eu sou uma ave.
Tenho as costelas de uma vaca.
Os olhos de todos os animais.

Olhem-me.
Eu não sou mais do que uma breve criança agitada,
uma pequena flor a crescer no muro ao canto do jardim.
 
Enfloro o largo de casa.
Convido com os meus passos os cidadãos a entrar.
 
Porque não rir?
Emprestar a minha última frase.
Porque eu sinto o sol  desvendando os objetos,
e lembro-me que tu coraste.
 
Há uma mão de ferro presa à minha cintura delicada,
a empurrar-me para a frente, a empurrar-me para a frente.
 
Porque não voltar ao tempo dos gritos súbitos,
dos estalos na cara e dos silêncios tristes,
só para chorar? 

 

* * *
 
Sentamo-nos lá fora? Assim podemos ver as pessoas que passam.
A barba, o saco da velha, os saltos da morena, o livro debaixo do braço.
 
Só que eu quero ir para lá das ruas. Negociar o preço da minha sorte.
Pôr-me num navio para navegar à deriva a milhas daqui,
anunciar uma distância comprida a partir dessa cara safada da minha mãe.
 
Coser ponto por ponto a planta das minha mãos
como se elas fossem de novo um mapa,
saber guiar-me pelos meus olhos
como um farol sobre um mar de gente.
 
Só a minha caneta sabe a proporção de desistência inconcebível
que há hoje em dia no meu mundo, e nada mais disto quero eu.
Vais beber o quê?
_ Palavras, palavras.
Só sei que quero atacar a imprensa estrangeira,
pôr veneno nos dedos que me faltam,
morder o resto das pegadas dela.

 

* * *
 
Gosto de gostar do novo,
desta cara que não conhecia de ter aparecido algures
cá em casa todos gostam de debater debates
- começa-se por ouvir na televisão alguém a falar alto
e acaba-se a beber um copo à saúde dos mais infelizes:
rapazes alterados que chegam tarde e a más horas,
velhotas incapazes a colecionarem contas de telefone,
a melancolia fria no meu ar congestionado de bêbada parva
com um estômago fechado. 
 
É assim que se reúnem as associações esclerosadas
ao fim de um dia de trabalhos:
falam dos seus botões, cada um com o seu próprio fim.
Na ordem de trabalhos compete-me a mim escrever a acta.
 
Gosto de viver assim,
com uma propensão suicidaria que ou não tem nome,
ou é algo de muito estranho
- uma timidez quase parecida com a morte.
 
Há quem diga que não se veem resultados.
Brindemos a isso.

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Rita Brás

Nasci em 1980 em Lisboa. Apesar de ter começado a escrever cedo, estimulada
pela minha professora de português Feliciana no 7º ano, que nos fazia redigir composições a cada semana (e me deu a conhecer a Clarice Lispector, os Laços de Família, dizendo que eu a tinha feito lembrar dela!...), nunca publiquei minha poesia em livro, embora já tenha pensado nisso muitas vezes. Recentemente saindo de uma noite de caipirinhas e abençoando o nascer do sol na praça XV, comentava com uma amiga que fazer filmes é para mim mais como um ofício, e que a escrita é que é minha verdadeira vocação, e por isso deveria ser minha principal ocupação. Mas tornei-me cineasta, documentarista, videomaker, e tenho levado a vida a contar histórias de pessoas e grupos que se cruzam comigo, me ensinando lições amorosas e de sobrevivência humana que sinto o dever de partilhar. Realizei os filmes “Aqui”, “A Ocasião”, “A Ocasião Seguinte”, “Trésor”, a videoperformance “Rádio Pirata”, o making of “Fora de Campo”, e o vídeo para a instalação Museu Encantador “Minha Vizinha”, entre outros. Também ilustrei o livro infanto-juvenil “O Siri e a Sombrinha”. Atualmente estou consagrada aos estudos de Antropologia no Rio de Janeiro.

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Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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