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Medo

Conto de Renata Cordeiro

 

Nasci com problemas respiratórios sérios e o médico disse aos meus pais que natação ajudava. Aprendi a nadar antes de aprender a falar. Não me lembro do rosto da professora de natação do América, nem do nome, só dos pés - eu tinha três anos de idade. Ela sentava à beira da piscina com as pernas na água, dali mesmo dava ordens aos maiores. Ordens de bater os pés assim ou assado, de esticar ou encurvar os braços, levantar ou abaixar a cabeça, essas coisas. Enquanto isso, eu só me pendurava nos pés dela, dentro d'água, e ali ficava me hidratando. Também não me lembro das outras crianças, só da água que espirrava e dos ruídos.

         Minha mãe tinha cuidado comigo, sempre dizia que morre afogado quem sabe nadar. Eu realmente nadava aos onze anos, quando me afoguei, mas não morri. Talvez eu não tenha morrido exatamente porque não tivesse aprendido direito as lições do América, não há como afirmar com certeza. O que eu sei é que era julho, Praia do Morro em Guarapari, Espírito Santo, e o mar agitado cavou buracos na areia que eu desconheci do dia anterior. Bandeiras vermelhas no mar por toda a parte, ventava, mas o sol convidava, enfim.

         Minha prima gritou socorro a poucos metros de nós. Minha irmã escutou e disse que era brincadeira, eu percebi que não era e pensei - Opa!, eu sei nadar, posso simplesmente ir até lá e ajudar. E fui, mas não ajudei muito não. Ela era maior do que eu, não dei conta. As ondas me levavam cada vez mais fundo, a prima ficava cada vez mais longe. Eu nadava, nadava, e nada. Até que entendi que não adiantava nadar, ou que eu não sabia mais nadar. Parei de bater os pés e comecei a pensar, muito. Aliás, é incrível como se pensa com clareza nos momentos que passam rente ao desastre, morrer deve ser impressionante. E enquanto pensava, entreguei pra Jesus - como dizem os crentes. Em seguida, conversei com Deus - ok, vai ser agora, tudo bem, eu vou morrer.

         Daí por diante, parei de tentar. Só que tem que a gente não afunda assim facilmente. Mesmo sem fazer nada fica num sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce... As ondas me tratavam como bem entendiam e, em duas das subidas vi minha prima e minha irmã serem resgatadas. Eu estava mais distante, reclamei com Deus - ai!, que isso tá demorando! E quando finalmente fechei os olhos, amoleci inteira e comecei a afundar, um salva-vidas me puxou pelos cabelos. A mãe, antes, gostava deles curtos porque eu ainda era bem magrinha e mais loira, ficava bem e evitava pegar piolho na escola. Mas naquele inverno que eu virava mocinha era tempo de deixar crescer as madeixas e elas estavam próximas dos ombros. Salvação: o moço teve muita corda pra puxar. E eu, que já me entendia carta fora do baralho, logo no segundo ar que tomei depois de puxada pra vida, comecei a me agarrar no pobre coitado do salva-vidas e a me levantar acima dele. Só que as ondas vinham e nos afundava aos dois. Foi por isso que ele fez aquilo que é a técnica que salva a vida dos salva-vidas: deu uma chave de braço em mim e me levou até a areia carregando igual a um pacote de arroz sufocado no sovaco. Engoli muita água no caminho.

         Depois, salva, desfalecida, fiquei na areia esticada um bom tempo. Descansando, entendendo, lembrando de mim até que a mãe e a tia apareceram desesperadas como mães de filhas afogadas que eram. Queriam saber se estavam vivas as suas meninas. A gente já de pé e a mãe gritava: ai meu Deus, será que tá tudo bem?! Tá tudo bem mesmo, moço? Mas como!? Como que vocês... Que falta de juízo, vocês! - e vinham solavancos entrecortados por um - Graças a Deus! - e vinham beijos interrompidos por - vocês quase me matam! - e vinham mais beliscões - Mas graças a Deus! -, beijos na bochecha, nos cabelos, nas mãos, que interrompidos por beliscões viravam safanões. Com a praia toda em volta assistindo aquilo, eu extremamente envergonhada me encurvava no abraço da mãe que ora beijava, ora repreendia e apertava, como as ondas também me fizeram no mar.

         Alguns minutos passados, nós já no apartamento, eu não queria tomar banho. Esticada na cama, sentia o vai-e-vem do mar que ainda de vez em quando sonho com ele. Aliás, foi um vai-e-vem que ficou muito tempo em mim, ininterruptamente enquanto acordada, e muitas vezes também em sonhos que não chegavam a ser pesadelos e nem sequer eram sonhos ruins. Eram vai-e-vens apenas, que faziam aparecer um ambiente verde azulado aquoso e aquela sensação de dizer a Deus - tudo bem, pode ser agora, mas diz pra mãe que mandei um beijo - só.

 

         Não tenho medo de água, nunca tive. Nunca me queimei e ainda assim morro de medo de fogo. Vai entender.

 

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Renata Cordeiro

Renata Marques Cordeiro é cantora, compositora, professora, historiadora e escreve ficção. Nasceu, em 1983, na cidade de Caratinga, cresceu em Manhumirim estuda em Mariana, Minas Gerais.

 

   

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