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A cadela devia ficar, porque ela é como uma égua que passeia brilhante pelo green do campo de golfe

Conto de Ricardo Koch Kroeff & Mandela

 

Meu cachorro morreu ontem no Country Club de Golfe.

 

Segurança armado do clube de golfe:

– Não pode cachorro aqui.

– É cadela.

– Também não.

– Mas eu liguei antes, disseram que podia.

– O diretor Nora disse que não. Que: ou sai o cachorro, ou sai tu & o cachorro.

– Ele disse por quê?

– Sim. (O segurança tira um caderninho do bolso e lê)Porque "esse cachorro esbanja a juventude que eu não tenho".

– Ele disse isso?

– Sim. Palavras dele.

– Entendi. Diz pra ele ficar feliz que alguém possa correr, mesmo que ele não possa. Diz pra ele tentar sugar com os olhos a felicidade dessa cadela em correr.

– Sugar com os olhos? (segurança anotando no caderninho)

– Isso. Sugar com os olhos.

– Já volto. O senhor fique aqui.

Segurança volta. Diz:

– Ele tentou sugar com os olhos. Não conseguiu. Não enxerga bem.

– Ah, então tu vai ter que descrever pra ele.

– Descrever o quê?

– A felicidade da cachorra em correr pelo green.

– Como eu faço isso?

– Que tu sente quando vê ela correndo?

– Que ela tá feliz.

– Que mais, qual o jeito que ela corre?

– Como uma égua.

– Isso! Que mais? O que é bonito nessa égua?

– Que égua?

– A égua que ela parece.

– Ela tem o pêlo bom, brilhante.

– E quando essa égua tá correndo brilhante pelo green do campo de golfe, que tu vê?

– Eu vejo uma cadela correndo.

– Não. Que tu imagina? A mais, não a menos.

– Imaginar?

– Isso.

– Imagino ir pra casa logo e parar de passar recadinho entre playboy e velho rico em clube de golfe.

– Entendi. Ok. Tava tentando te ensinar a ser poeta, mas se tu prefere a realidade fria do teu cano de revólver...

– Prefiro.

– Então só diz pro diretor Nora que a cadela devia ficar, porque ela é como uma égua que passeia brilhante pelo green do campo de golfe.

– Passeia brilhante? (anotando)

– Isso.

– O senhor fica aqui.

(...)

Ele volta. Seu Nora, o diretor, vem junto, ao lado do segurança, mas dentro de um carrinho motorizado de golfe. O segurança faz uma marcha atlética ao lado do carrinho de golfe, como em desfiles presidenciais. Chegam perto de mim e da Mandela(minha cachorra), e o velho diz, sem descer do carro:

– Não pode cachorro aqui.

– É que eu liguei antes e...

– Eu não gosto de ver ele correndo. Vai tirar ele daqui?

– É ela.

O diretor Nora saca a arma do segurança e atira na barriga da Mandela. Devolve a arma e diz:

– Resolvido.

Eu olho pra Mandela, morta, me ajoelho e choro. O segurança pergunta pro Nora:

– Agora ela pode ficar?

– Não. Também não gosto de ver cachorra morta.

– Por quê?!

– Porque me lembra que eu vou morrer.

– E por que tu matou ela então, diretor!? Viva não era melhor?!

– Não. Viva me lembrava que eu já tô morto.

 

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Ricardo Koch Kroeff & Mandela

Ricardo Kroeff é mestre em Escrita Criativa pela PUC-RS. Mandela é sua cadela e frequentou apenas a escola das ruas. Os dois trabalham com educação social e ilustrações de livros e vendas de quadros, numa página do facebook chamada Achei o Ricky.

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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