Início          Edição atual          Edições anteriores          Blog          Corpo editorial          Normas para publicação          Quem somos?          Contato         

 

O lago da morte

Conto de Rodrigo Pereira dos Santos

 

Somos eu e um tapete, sofás, quadros, aparelhos, abajur, flores, paredes, porta e janela. Eu esperando que a janela ou a porta se abram e me convidem a se retirar, a tomar um ar lá fora. Ou que a mulher do quadro parasse de ficar tão calada e conversasse comigo. Que falasse alguma coisa que seja. Qualquer coisa. Nem que seja pra me xingar. Ou então que as flores se transformassem em pessoas, ou animais talvez. Poderia também acontecer de eu ligar a televisão e os personagens dela darem um pulinho aqui e se sentarem. Quem sabe o abajur não criasse braços para me abraçar suficientemente. Se o sofá virasse colo também não seria nada mal. Ainda ontem li um artigo numa revista que quem vive sozinho tem mais risco de ter depressão. É a última lembrança que tenho do dia de ontem. Nem sei porque li. A realidade é que agora estou aqui nesta sala, só, única. Não estou narcotizada quimicamente pra querer que o inanimado aqui se mexa. Não são alucinações. Mas confesso estar tão parada quanto a mulher do quadro. A única coisa que consigo fazer agora é lançar zoom para os objetos e dissecá-los até sair vida deles.

            Cheguei do cemitério agora mesmo. A morte não deixou meu marido em paz, e covarde, ela lhe deu o instrumento e o cenário finais: um frasco de veneno à beira de um lago.

            Otávio era um respeitado médico feito para trabalhar num pronto socorro. Este era o lugar dele. Não poderia jamais ser outro. Nascera predestinado a salvar vidas, curá-las, encaminhá-las, ou até mesmo dignificar a morte delas com um jeito todo especial e humano. Ele sabia ajudar as pessoas a dar adeus. Mas sabia muito melhor ainda ajudá-las a não desistir. Sabia perfeitamente como se cura uma ferida, mas quanto a chegar na ferida rasgada e dolorosa do seu coração, parece não ter conseguido acesso.

            Foram quarenta e cinco anos de vida feliz e triste, sofrida e alcançada. Uma vida tão paradoxal, tão dividida. Para viver foi necessário que ele juntasse os cacos e remendá-los parte por parte, para que restasse uma figura sobrevivente. Nascera numa família muito pobre, e a único fator familiar que soubera era que um casal de imigrantes húngaros o haviam salvado da pobreza fatal à beira de um lago. Nem era para ter sabido disto, mas quando tinha cinco anos ouviu a mãe relembrando a adoção a uma tia. Sabendo disto, tão logo já desistira de um dia querer saber seu paradeiro. Achou melhor pensar que surgiu de um lago, que as águas o conceberam.

            Como sua vida era toda um paradoxo só, no ambiente familiar também não foi diferente. Nunca entendeu porque seus pais o salvaram da morte e o adotaram, e eram tão frios. Não tinha a lembrança de um abraço, beijo, toque, palavras de afeto. Talvez o medo de se sentirem culpados depois, fez com que aquele casal o salvasse. Mas apenas o medo da culpa, e não amor.

            Era tudo muito enigmático para Otávio. Sabia que os pais não podiam ter filhos. Também ouviu um dia uma conversa entre os dois, em que constatou que ambos eram estéreis. Pode ser aí um fator de grande relevância para que seus pais não o amassem tanto. Não era fruto deles. E a culpa sempre falou mais alto.

            O compensatório todo foi na materialidade. Tinha uma vida farta de riquezas e bens acumulados através do plantio e exportação de frutas exóticas dos pais. Isso lhe valeu o curso de medicina e especializações nos Estados Unidos e na Europa.

            Uma coisa é inegável: mesmo diante disto tudo, Otávio parece ter virado o jogo frente ao desamor. Tornou-se uma pessoa com o propósito de fazer para os outros tudo aquilo que não recebera. Era um médico exemplar, ético, humano e infinitos predicativos mais. E o conheci por este seu espectro salvífico, na maca de um pronto socorro. Havia passado muito mal a noite com fortes dores de cabeça e vômitos. Fui sozinha ao pronto socorro mais perto de casa, dirigindo sem condição alguma, mas sem haver outra forma. Fui socorrida por um médico jovem, gentil e demonstrando muita preocupação comigo. Não havia mais ninguém naquela noite naquela unidade. Parece que coisa do destino. Passei a noite toda ali, ele ao meu lado, controlando religiosamente a medicação. Melhorei até que rápido, mas ele não permitiu que eu fosse embora enquanto não amanhecesse. E acabou que conversamos madrugada afora. O que projetou um casamento sólido e feliz por vinte anos.

            O telefone tocou na nossa casa, e era a polícia avisando que os pais de Otávio haviam sofrido um grave acidente de carro numa rodovia próxima. Era uma viagem em que pretendiam conhecer uma fruta ainda não cultivada por eles, e que muito era do interesse deles. O impacto da batida foi tão grande que seus pais foram lançados a uma distância descomunal. E não se sabe como, os corpos foram encontrados à beira de um lago.

            Otávio não suportou. Era um ser humano tão incrível que amava seus pais mesmo sem sentir uma gota deste amor em troca. À beira do lago próximo ao pronto socorro onde trabalhava morto estava envenenado com química e dor.

            Agora são oito da noite. Acabei de chegar do sepultamento. Um dos quadros tem um lago desenhado. E a mulher do outro não para de me olhar. Nem sei o que perguntar para a vida. Só sei que minha vontade agora era procurar um lago. Mas não posso deixar minha filha que já está fazendo medicina fique sozinha neste sonho de continuar o legado do pai. Ela está dormindo agora, sedada, mas quando ela acordar quero estar mais forte. Nem que seja uma força vinda dos objetos da minha casa. A mulher do quadro está olhando por mim. O sofá vai me abraçar e me devolver melhor. Ah... Meu nome é Monalisa.

 

 

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Rodrigo Pereira dos Santos

Rodrigo Pereira dos Santos, 33 anos, residente em Lambari-MG, professor de Língua Portuguesa e psicanalista.

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

A revista

Edições anteriores

Blog

Corpo editorial

Nossos artistas

Autores (breve)

Colabore com a Raimundo

Normas para publicação

Contato