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Por metade de uma vida dar-me-ia ao precipício no Alandroal

Conto de Sara Timóteo

Há muitos anos que procuro fugir do meu daimon, esse traço de genialidade que Harold Bloom considera trazer ao que fazemos um certo travo de posteridade. Na verdade, nunca pensei muito na posteridade. Apenas o acto de escrever ocupa os meus dias, as minhas noites e o que possa existir para além disso.

Tomei conhecimento da natureza das noites e dos dias em peregrinações ao Alandroal, mais propriamente a S. Miguel da Mota. Nas caminhadas em silêncio pude recuperar o som de cascos e o riso elusivo que pertence a memórias antigas. Lá, fui parte de algo maior do que aquilo em que me converti ao longo do percurso desta vida.

No decurso de uma dessas caminhadas, desloquei-me à Rocha da Mina e, entre sombras e cursos de água de pequena dimensão, subi a um outeiro onde tive de me acautelar em termos de movimentos devido ao precipício. Esse ano foi assaz pródigo em novidades: visitei as festas profanas do Alandroal no recinto próximo ao das piscinas, fui à caminhada anual e ainda tive oportunidade de me enquadrar como parte do público de um festival de músicas do mundo. Sentia-me feliz sob a lua ingente, pois tinha avistado sinais de uma memória manifesta em artemísia sobre a aridez do solo. Havia até corrido descalça sobre a terra, tal a profusão de entusiasmo de que me sentia refém.

Há onze anos que trabalhava com o intuito de evoluir para um determinado patamar e pensei estar bem integrada no grupo nesse ano em particular. Sentia-me feliz e apresentava ao mundo e aos meus companheiros de caminhada a face nua dessa felicidade. Esperava ter encontrado o meu lugar no esquema das coisas e quase já esquecera o daimon que me provocava com ideias inusitadas e sensações que não reconhecia como minhas.

O precipício da Rocha da Mina surgiu, desmesurado em apelo, quando escutei, de forma inadvertida, uma conversa entre duas pessoas que me acompanhavam desde há muito nestes périplos de uma vida inteira de interrogação.

Uma dessas vozes afirmava a pés juntos que todos nós éramos como partes de um todo e que a única pessoa que lhe interessava de uma perspectiva individual (Luís Represas cantava então A Feiticeira ao vivo) era uma das minhas companheiras de caminhada. A outra voz tentou esboçar uma objecção, mas logo foi suplantada pela convicção que emanava da primeira voz. Sorri para ambas as emissoras dessas vozes e creio que nunca se aperceberam do facto de eu ter escutado toda a conversa.

Seria muito pedir para que o nome que escutei fosse o meu? Talvez fosse.

Assim que pude, pedi licença e fui lá para fora chorar durante o resto da actuação de Luís Represas. Quando voltei, recomposta, decidi permanecer coesa em relação aos meus companheiros de caminhada. A minha ilusão não era culpa de qualquer um deles, nem sequer dos que se pronunciavam sobre mim com tamanha segurança.

Voltava, de novo, a ter metade de uma vida – a vida que age em piloto automático. Por metade de uma vida, pensei, dar-me-ia ao precipício no Alandroal como sacrifício pela comunidade. Para mim é melhor não ter vida do que ter esta vida em que calo metade – metade de uma vida que fica por dizer, sentir e agir. Havia procurado a protecção de uma caminhada com uma prática e crença comuns; no entanto, reencontrava a escuridão dos caminhos do daimon na minha própria mente.

Voltei mais vezes ao Alandroal. Uma vez por ano, resta-me retomar a sensação do vento e do silêncio na minha pele. Há uma verdade que se impõe ao mundo em que habitam as pessoas que trabalham na Pousada da D. Ana, nas piscinas ou no Fórum Transfronteiriço. Continuo a entrever algo mais para além de memórias do Alentejo nos passos que dou. Há um voto que se cumpre em cada amanhecer, mesmo que o capricho engendrado pela Penélope a que chamamos condição humana tenha originado o encerramento das portas do que foi outrora um espaço de cura.

Hoje penso muito na conversa daquela noite e rememoro os detalhes que se tornam cada vez mais precisos: a modulação cuidada das vozes, a forma como o grelhador escorria gordura e aliciava o nosso apetite e os rostos radiosos de todos os meus companheiros enquanto ouviam a música de Represas.

A vida encontrou forma de se interpor entre mim e alguns dos meus companheiros de caminho. Dizem que a memória de longo prazo é menos fiável; porém, para mim tudo se torna mais nítido à medida que o tempo passa.

Já aprendi há muito a fugir do sofrimento. Há quem finja, mas eu não preciso de fingir. O meu daimon é, para mim, uma presença real. Ele acompanha as noites de inquietude em que mergulho algumas vezes. Ontem, voltou a deitar-se na minha cama (surge sempre do meu lado direito) e abriu os olhos prateados de loucura. O cabelo tem caracóis negros e o corpo é denso, embora não apresente sinais de respiração quando se deita sobre o nosso local de encontro. Chama-se Mikh e lutamos com alguma frequência pelo domínio das ideias que transmito através da escrita. Quando deixo de me debater, ele ampara-me e cobre-me com um manto de estrelas eternas que difere das estrelas a fingir que os homens inventaram para o céu nocturno. Estamos muito longe da caminhada solar que empreendi no Alandroal durante tantos anos. No meu corpo, o Sol nunca nasce – nem dorme.

 

 

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Sara Timóteo

Sara Timóteo nasceu em Torres Vedras e reside na Póvoa de Santa Iria há 28 anos. Especializou-se em Jornalismo/Economia Internacional e pós-graduou-se em Ciências Documentais (opção arquivo), tendo já exercido as profissões de arquivista e de técnica de biblioteca.

Tem sete livros publicados em Portugal e três nos Estados Unidos. Encontram-se em preparação três projetos de não-ficção que espera publicar entre 2015 e 2016. Os contos destinados ao público infanto-juvenil encontram-se em fase de ilustração para futura publicação. Tem participado em várias antologias e colectâneas pelo incentivo que constituem e pelas perspetivas inovadoras que oferecem como resultado desse desafio de escrita em torno de um tema específico.

Prepara a tese de mestrado em Teoria da Literatura acerca do conceito de morte do autor em Stephen King. Abraçou o atletismo há quase três anos e participa com regularidade em corridas de fundo.

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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