Início          Edição atual          Edições anteriores          Blog          Corpo editorial          Normas para publicação          Quem somos?          Contato         

 

Daniel, espelho, mundo

Conto de Thais Lancman

 

A porta de correr fez o barulho de sempre, inaudível em dias normais. Talvez fosse intencional, piração do artista sozinho em seu ateliê, a diferenciação da instalação em um espaço vazio e no caos sutil dos museus, pensou Daniel. Tão intencional quanto os trilhos e rodas utilizados, assim como foi com a cor dos compensados de madeira. No museu fechado à visitação, poucas luzes acesas, aquele som arrastado era mais imponente que o resto da obra.

Com a porta fechada, o lado de fora era dissolvido. Daniel parecia estar a quilômetros do restante da exposição, do segurança que nem tinha visto o rapaz entrar ali. Sentia até mais frio lá dentro, justo o único arte-educador a trabalhar de bermudas, o que levava a piadinhas diárias a respeito da sua resistência ao frio. Naquela noite, tinha sido o único a deixar o bar – sem alarde – enquanto os outros brindavam aos metaesquemas e aos parangolés. À arte!

Atravessou a rua e o portão de aço do museu, todos os vazios escolhidos pela curadoria, e virou de costas para a primeira porta do Penetrável. De forma que não viu o que havia escrito nela (Pureza é um mito), apagado pelo escuro e encarando o HO das costas de Daniel. Ele deu mais um pequeno passo, revirando a brita e a areia do chão, e chegou a uma segunda placa de madeira. Arrastou-a, fazendo mais barulho. O retângulo cortado em dois quadrados, Daniel confinado em um deles. Empurrou a porta, passou à segunda metade, fechou-se.

Então, Daniel foi se agachando. Deixou celular e carteira em um canto, em um criado-mudo invisível. Ficou de joelhos, não sem antes afastar as pedrinhas. Olhando para cima via o teto do museu, quase um céu de tão afastado, de um material que, por ser diferente do que compunha a instalação em que estava, parecia etéreo. Não fazia parte de onde estava agora, ali era o mundo. E, no mundo, as relações eram outras. Eram entre homem e coisa. Aguardava como que uma reação da madeira, embora soubesse que ela era apenas matéria morta. Porta foi e voltou, com movimentos leves de Daniel, brincando um pouco com ela, o arte-educador chegou a sorrir.

Ele deitou, de forma que o espaço todo novamente foi consolidado como um, não mais duas metades entrecortadas por uma divisória de correr. A brita incomodava mas até que daria para se acostumar. Daniel ainda não estava satisfeito. O disparador da sua inquetude era olhar para o teto, fora. Havia todo um interior para estudar, para experienciar.

Antes porém, precisava aceitar que estava dentro. Isso era fácil: não tinha motivo para sair. Podia mover paredes, conversar com elas sem usar a voz ou os ouvidos, apenas por meio dos movimentos. Controlava aquele pedaço azul de um lado, vermelho do outro. Se em algum momento houvesse pessoas do lado de fora, o vigia noturno ou algum colega de trabalho em busca de uma mochila esquecida, eles se fundiriam ao compensado, a pele ganhando aquelas cores e as formas se achatando. A bidimensionalidade favorecia a comunicação. Daniel vislumbrou-se por dias ali, a vida dedicada a mover a madeira para lá e para cá. Escutando o que ela tinha a dizer e o que dizia sobre ele, quando sumia e aparecia.

Aquilo era apenas uma parte da instalação. Quando atravessara a porta de madeira, tinha aberto mão de outro espaço, idêntico. Enquanto estava em uma metade, a outra permanecia inacessível a Daniel. Ali a imaginação de Daniel situara uma pequena multidão de nus, como modelos de aula de desenho, posando para ele ou para ninguém, para a madeira em volta. Eles mudavam de posição de tempos em tempos e, enquanto deveriam permanecer estáticos, vibravam. Daniel, queria descansar por um tempo no seu isolamento frágil, sentia necessidade de, antes, organizar aquela coleção de corpos imaginários. Mentalmente desmontava-os – eles agora eram manequins –, imaginando-os em uma caixa vista por cima, vislumbrava suas próprias mãos alinhando e enfileirando pessoas, por ordem de idade ou altura, talvez pelo menos de forma que não conversassem entre si ou, imagine, brigassem. E também juntava pedaços de gente, braços, pernas, troncos, e formava montinhos. No topo deles, Hélio Oiticica paramentado em um parangolé, em pose de monumento.

Tarefa cumprida, na cabeça de Daniel, Hélio esperava o seu próximo passo, mas  ele preferia repousar. Não deixava de ser um feito, quem sabe permanecer até o final da exposição ali, seria vantajoso. Performático. Monumental. Pena não se importar com nada disso, com o significado externo das coisas. O que importa era o que ele fazia com seu corpo, o controle que tinha de si.

Daniel criou, para testar esse controle, uma sequência: fechar, abrir, passo, passo pulando o trilho passo pequeno, virar noventa graus, quantas vezes bastasse para normalizar. A medida era exata e nisso as pegadas deixadas na brita ajudavam. Às vezes perdia um pouco o equilíbrio e diminuia o ritmo, mas mantinha a sequência pensando cada vez menos nela, como uma rotina estrabelecida. Até que parou. Percebeu o cansaço. Deu calor.

Preferiu descansar, sentado de frente para a porta de entrada na instalação. Sabia que lá havia uma frase escrita. Ela chamara sua atenção desde o curso preparatório para trabalhar no museu. De seu significado, Daniel não conseguia extrair muito, apenas do fato de ser um escrito visível apenas de dentro da instalação ele achava particularmente curioso. O contrário de um título. O miolo do conteúdo. Passava a mão na madeira, buscando sentir as letras pintadas com a ponta dos dedos. Tentava ser cego. Na vida real, morria de medo de deixar de enxergar.

O som de éfes, provocado pelo toque arrastado na madeira de cima a baixo pareciam vir de fora. Ou do lado, da parte escondida da obra. De todos os cantos. Ali, na face obscura, alguém queria, a partir do tato, captar o que havia no cômodo que Daniel estabelecera. O desejo de penetrar e o de sair, simétricos. Agora com o rosto colado à parede, Daniel quase ouvia uma voz sussurar. Com o tórax, captava um coração batendo no local que não podia ver. Vários corações, seres com as mesmas proporções, a mesma lógica de corpo que investiga e testa as possibilidades diante do concreto, do real.

Viu-se então do outro lado, ali, esperando, coletando dados, estudando reações diante daquele encontro impossível. Daniel acreditou nessa hipótese, que de repente sua entrada no penetrável havia sido uma separação, um descolamento de si, uma metade escondida da outra. Uma parcela se tornando móvel e fluida para substituir o grosso, o lodo que era Daniel escorrendo pelas paredes, deitando e ocupando a brita. O outro Daniel via o primeiro como líquido.

Era um alívio e ao mesmo tempo sufocante imaginar o que o seu duplo viveria enquanto ele permanecia movimentando os compensados de madeira de um lado para o outro, repetindo aquela sequência sem outra opção. O antes filosófico agora parecia um imbecil. Porém, o angustiante não era pensar naquela rotina interna que estabelecera, e sim comparar com o cotidiano do outro, ou da sua outra parte, o educador, o estudante, o ser humano preso na comunicação em palavras. Então Daniel mais uma vez passou a mão pela madeira colorida, e o que mais precisaria ser feito.

Quando se deu conta, o dia estava clareando. Foi possível, então, ler as letras vermelhas impressas na madeira amarela, um recado de Hélio: a pureza é um mito. Um segredo  contado a quem desafiava a obra e entrava nela, confidenciado ao Daniel desperto da noite, sorrateiro e desterrado do outro. O resultado de se ver de fora. As partes, antes indiferenciáveis, cultivaram um abismo entre elas, e mesmo assim conviviam, o corpo como ponte. A pureza é um mito, Oiticica, justamente porque é preciso de uma frase para se ter tudo isso em mente. E porque Daniel não soube deixar de reverenciá-la.

 

 

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Thais Lancman

Thais Lancman nasceu em 1987 em São Paulo, onde vive. Filha única, teve periquitos, peixeis e Mr. Hams, o hamster. Teve contos publicados pelas revistas Raimundo e Flaubert. Formada em jornalismo em 2010, faz mestrado em Letras sobre o literatura judaica norte-americana no século XX, com foco no autor Saul Bellow. Não toca instrumentos musicais e não sabe desenhar. Desaprendeu a escrever poesia conforme foi se aprofundando na prosa. Moradora de Santa Cecília com vista para o Minhocão, ainda não tem opinião formada entre a demolição e a transformação do elevado em parque. Não fuma e não possui carro. Tem disponibilidade para viagens. Gosta do twitter: twitter.com/___thais.

Twitter da autora

twitter.com/___thais

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

A revista

Edições anteriores

Blog

Corpo editorial

Nossos artistas

Autores (breve)

Colabore com a Raimundo

Normas para publicação

Contato