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Regardless e outros poemas

Coletânea de poemas de Wanderson Mendes Machado

 

regardless

Há dias – têm sido freqüentes, vos confesso –

em que minha sombra

se esgueira a esconder-se da sua

própria sombra

e eu, senhor de meu reino, me amedronto

da ampla noite escura

 

meus dias se processam

entre biscoitos recheados, vinhos chilenos

e envelopes de remédios controlados à venda

 

coleciono troféus vazios

às escondidas como me preparando

para uma insurreição

 

it’s all about politics, it’s all about

 

meus dedos chamuscados

do ardor do gelo cravejando

as bordas do copo do uísque 12 anos

as pontas dos dedos ressequidos

queria cavar com as próprias unhas

meu túmulo

queria ouvir um triste lamento no dia do meu enterro

uma marcha funeral que contivesse a triste resignação

com que me preencho cotidianamente

 

não encaro as coisas com o mesmo olhar incisivo

já não tenho tais olhos, já me vejo nos olhos esquivos

do peixe apunhalado

 

que me joguem de volta ao lago

que me retornem a meu habitat

 

falta em mim o sabor pouco convincente

do chocolate ao leite

quero o amargor dos gostos que travam

a língua

quero a correia que desata as engrenagens

 

meu armistício não tem legitimidade

minha opinião me vale tão pouco

quanto a do cachorro que me vigia

as entradas e saídas

 

livrai-me de encontrar algum santo

pelo caminho

não quero que os santos me vejam

não quero que os santos me convertam

que os santos vão com os diabos

para convertê-los

 

(eis que não me resta palavra tola

pra desmistificar a paixão frívola

dos recém-convertidos)

 

imprima-se em mim o meu itinerário

já não haverá curiosos pelas esquinas

 

temem a minha saliva

como se lhes fosse veneno

e perdição

 

não nego que me regozijo desse poder

 

não me revisto de couraças

minha boca não recebe lascívias

não cato as palavrinhas pelas calçadas

 

sou meu inimigo

meu pior

sou minha vítima

meu algoz

minha pouca vergonha

minha soberba

meu passo em falso

meu cadafalso

uma salva de palmas

o palhaço trapezista

 

meu anel vale pouco

a um ourives

mas ele não está à venda

não está à venda

 

que me arranquem tudo, que eu me desfaça

toda a cortina de fumaça se dissipe

e eu não estarei morto ainda

 

peço à minha esposa um filho

que me venha a salvar

a um filho me renderia

um filho me seria a minha absolvição

 

minha estima beira à lástima

não creio estar caminhando sob as nuvens

estou recitando cantos de ninar

para os anjos

 

gozo da pouca retidão dos que me rodeiam

sou persuasivo nas minhas convicções

ninguém é suficientemente cético

pra me questionar, pra me provar

 

o calabouço, arcabouço

falem das vitórias

que eu falo das feridas

 

minha ferida é tão exposta

que se esposo-a à minha carne

esta a rejeita por precaução

a mulher sisuda merece mais crédito

que a mulher exaltada

 

não escrevo provérbios

não sou sábio

 

por que não me atinjo

se me flagelo?

por que me inebria

a dor que lateja?

por que me corrige

a dor que me desgasta?

 

* * *

 

a cota do dia

o mundo, além destas

paredes

lavadas bimestralmente,

— que este é o tempo

que leva a sujeira

para encrustar-se —

é tão longínquo quanto seja distante a palavra do

pensamento

 

o dia me vem em compotas

meio-abertas, o suficiente

para sentir-lhe o cheiro

de frescor

 

o dia me vem em compotas

colher rasa

fundo doce espesso

saboreio a cota de hoje

 

amanhã já está por vir

 

* * *

 

café-da-manhã 

No gosto da casca do ovo

não está o ovo, o ovo está

além ou aquém deste ovo

que quebro na frigideira.

Meu suor tem gosto do óleo,

o ovo pulando no raso,

o óleo espirra na camisa,

alva clara enrijecida.

Minha espátula descobre

o único lado escondido

e de modo inexprimível

a gema colore o branco.
 

* * *

 

hora da janta

ô amor, você fez de novo peixe

deixe que eu busco o suco na cozinha

adivinha quem vi lá na parada?

passa a salada mais pra cá, meu bem

mês que vem, nasce o filho da Fernanda

vê se manda para ela um cartãozinho

hoje almocei sozinho, mal comi

vai sair, filha, agora? volta cedo

tenho medo, que a essa hora é um perigo

é como eu digo, eu tardo mas não falho

no trabalho hoje foi dia de cão

quebraram o orelhão, esses vândalos!

deu escândalo tua irmã, aposto

é do doce que eu gosto que 'cê fez?

paga amanhã o inglês da Carolina

a gasolina já aumentou de preço

esqueço como é bom matar a fome

tem nome diferente aquele ator

o doutor disse ser só resfriado

o feriado está quase chegando

está nevando no sul, a Edna disse

só se eu visse iria acreditar

vontade de matar este patife

ligaram de Recife, lá tá quente

a gente bem que podia viajar

sei que não dá, quem sabe num outro ano

o plano de saúde vai subir

se Deus me permitir, nem uso mais

não se faz homem como antigamente

tem gente que sei lá, tem cada louco

põe aqui mais um pouco do feijão

não sei não, eu pergunto para a Vera

'spera, aumenta o volume, quem morreu?

que Deus nos livre de uma coisa dessas...

 

 

 

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Wanderson Mendes Machado

Wanderson Mendes Machado é poeta e sonetista de Brasília. Publicou seu primeiro livro de poesia, Trôpegos Passos (2004, ed. do autor), quando tinha 18 anos, há exatamente uma década, com apoio do Fundo de Arte e Cultura da Secretaria de Estado de Cultura do DF. O primeiro livro é uma reunião de poemas de diversas estéticas, com bastante experimentação. O autor está preparando um Livro de Sonetos, que reunirá 50 poemas em português e em inglês. A estética do novo livro é clássica, com algumas pitadas de modernismo, tendo influência de sonetistas desde o século XVI até o século XX.

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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