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Vigilante dia e noite

Conto de Bogdan Dumitrescu / Tradução de André Carlos A. Heliodoro

Dia.

Logo cedo, quando os primeiros bondes passam, ele já está escrevendo no seu Trabant* ainda úmido pelo orvalho. Sai do carro no frio da alvorada e, tiritando, coloca as folhas de papel escritas no pequeno porta-malas abarrotado com um montão de outras do mesmo tipo. Troca a roupa com a qual tinha passado a noite e dá a partida no motor obrigando toda a circunvizinhança a despertar para a vida.

Com aquele Trabant expelindo borbotões de fumaça ele transporta pessoas pela cidade gratuitamente. O assento do carona é soldado no assoalho, no carro não cabendo mais do que um único passageiro que aceite a convenção do motorista: uma viagem em troca de uma conversa. Essa disposição aparece escrita a tinta verde num papelzinho colado no para-brisa bem em frente ao passageiro.        

O banco de trás está sempre cheio de bugigangas, não há mais espaço nem para um alfinete. E é essa quinquilharia o pretexto que normalmente dá inicio à conversa. No meio do banco traseiro está montado um televisor portátil Sport preto e branco, alimentado por uma bateria suplementar que fica embaixo do assento. Ainda havia peças de xadrez, sombrinhas esqueléticas, cabos metálicos enferrujados, pequenos vinis de 45 rotações, um grande tinteiro de cristal na forma de uma rolinha com o bico quebrado, jornais, revistas e livros velhos, trapos e mais algumas caixas dentro das quais tilintam objetos bem diferentes dos bombons desenhados nas tampas.     

Costuma estacionar na frente de bancas de revista ou de livrarias, de onde observa pessoas que compraram algo para ler. Pergunta a elas se não querem ir de carro até algum lugar e às vezes consegue convencê-las a entrar no Trabant. Na partida, ele exibe a inscrição no para-brisa e, antes de chegar ao destino, também mostra aos passageiros um cestinho no qual está colada uma notinha com os dizeres “Doces para os meninos de rua”. Os passageiros nem sempre conversam, mas todos colocam algum dinheiro no cesto.      

Noite.

Encosta o Trabant chocalhante perto do último Circo da Fome** que ainda não tinha virado shopping center e desce com as sacolas cheias de bombons. Entra no salão passando sob o tubo de luar que penetra pelo buraco do teto semiesférico e aguarda. Acocora-se e olha sem ver na direção da escuridão que contorna o disco de luz amarelo-prateado e espera.   

Aos poucos é rodeado pelas sombras dos cheira-colas com cabeleiras imundas que se aproximam, o tocam, apertam-lhe a mão e se retraem à margem da escuridão, em círculo. Ele os conta, os reconhece, saúda a todos e em seguida abre as sacolas como se rompesse o esterno de uns animais pequenos. Eles chegam até a luz, esvaziam as sacolas e em troca colocam na frente dele velharias que acharam nas ruas, dentre as quais em cada noite ele escolhe um único objeto. Como num ritual ele vai até o automóvel, deixa o objeto no banco de trás e tira do porta-malas um monte de papel, volta ao centro do salão arruinado e lê com voz clara, acompanhado pelo zum-zum de dentes esmigalhando bombons.           

Em certas noites, ele deixa o porta-malas aberto e, acelerando o motor ao máximo, espalha a papelada escrita pelas ruas alvoroçando os cães e fazendo as lâmpadas dos apartamentos dos blocos residenciais se acenderem à sua passagem, como uma cauda luminosa.

*Modelo de automóvel produzido na antiga Alemanha Oriental entre 1957 e 1991. (N. T.)  

**Os “Circos da Fome” eram os prédios de complexos agroalimentares que faziam parte do projeto comunista de sistematização de Bucareste. O apelido vem da arquitetura dessas construções cujas cúpulas assemelhavam-se a de circos e da ironia de se construir prédios gigantescos para distribuição de alimentos num período em que era bastante difícil conseguir qualquer tipo de gênero alimentício (devido à política de Estado que preconizava a exportação da maioria da produção agrícola para o pagamento da dívida externa). A maioria desses “Circos da Fome” só foi concluída após a queda do regime comunista e transformada em complexos comerciais eminentemente capitalistas. (N. T.)        


 

 

 

Primavera 2015 / Museu das conversas desencontradas

 

Bogdan Dumitrescu

Nascido em 15 de abril 1968 na cidade de Oneşti na Romênia, Bogdan Dumitrescu é publicitário, cronista e articulista. As histórias traduzidas fazem parte do volume “SMS” (2009), seu livro de estreia. Nas palavras de Mircea Cărtărescu: “parábolas surpreendentemente graciosas, ecos de Cortázar, Borges e dos pós-modernos americanos. O tema principal da maioria das histórias desse volume é a dissolução do real. Existe em “SMS” páginas completas, de uma poesia autêntica, para além de qualquer tese ou temática imposta. Elas são suficientes para validar uma estreia literária muito interessante, em uma zona onde poucos prosadores da nova cena se aventuraram a desbravar”.

André Carlos A. Heliodoro

André Carlos Arruda Heliodoro é pernambucano e passou a maior parte da infância na cidade de João Alfredo. Estudou até a sétima série na vizinha Limoeiro, cidade onde nasceu no dia 2 de junho de 1979. Foi morar no Recife em 1993, concluiu os estudos no Colégio Marista e formou-se em Comunicação Social (turma de Radialismo e TV) na UFPE em 2002. Em seguida ainda estudou Ciências Sociais na mesma universidade, porém, não concluiu o curso. Trabalhou sete anos como pesquisador de campo coletando dados para as pesquisas de emprego e desemprego do IBGE (de 2005 à 2007) e do DIEESE (2008 à 2013). Teve um primeiro contato com a língua romena ainda na época em que era estudante de Comunicação, quando, por acaso, com o rádio transistor que era do seu avô, escutou um programa em romeno transmitido em ondas curtas pela Rádio Romênia Internacional. Cativado pela musicalidade do idioma, decidiu estudar a língua como autodidata depois que encontrou dois velhos manuais de romeno na biblioteca da universidade. O estudo da língua fez com que ele manifestasse um interesse incomum em conhecer mais sobre a cultura romena (especialmente história, sociologia, cinema e literatura). Visitou a Romênia pela primeira vez no mês de agosto de 2012, mora em Bucareste desde março de 2013 e ainda não perdeu nada de seu entusiasmo inicial de querer saber e entender mais sobre a Romênia, seu povo e sua cultura.

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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