Início          Edição atual          Edições anteriores          Blog          Corpo editorial          Normas para publicação          Quem somos?          Contato         

 

Os aperfeiçoadores

Conto de Bogdan Dumitrescu / Tradução de André Carlos A. Heliodoro

Quiseram refazer filmes velhos. Não se tratava apenas de dinheiro, era também o modo ideal para difundirem a tese que defendiam sobre realidade e ficção.

          Com muita facilidade obtiveram os direitos autorais das produções do período entreguerras. Convenceram uma grande produtora a realizar as novas versões, a única que poderia fazer com que obras anacrônicas em preto e branco pudessem obter algum espaço em meio a avalanche tresloucada de filmes novos. Receberam algumas centenas de cópias, um bom começo, se bem que teriam desejado refazer todos os filmes da época, exatos 6.777 rodados em todo o mundo entre 1920 e 1945 segundo tinham calculado. E cheios de ânimo começaram a pôr a mão na massa.

          O propósito deles – além da aplicação de procedimentos técnicos de restauração e colorização das imagens e de recomposição do som, todos rigorosamente necessários – era o de modificar aquelas sequências nos filmes antigos que eram claramente datadas. Mas substituí-las sem modificar nada da história, objetivo esse também ressaltado já no contrato de remasterização. A nova proposta era a de oferecer aos espectadores um filme que contasse a mesma história, mas com os meios de expressão do presente. 

          Sabiam exatamente onde tinham que intervir. Nas cenas violentas, que sempre terminavam com um contraplano do ponto de vista do personagem morto ou ferido, mostrando as expressões de choque do herói ou da heroína quando olhavam para aquilo que o espectador nunca podia ver. Quanto mais longa a cena de comoção, maior a gravidade do crime-acidente-desastre; as heroínas de costas sacudindo-se em convulsões e dependurando-se no pescoço de alguém, geralmente no do herói, ou simplesmente paralisadas de perplexidade face à horrível cena. 

          Após anos de espera, eles finalmente podiam se deleitar inserindo na montagem original dos filmes sequências de cadáveres ensanguentados, personagens se queimando, paredes cheias de sangue etc.; cenas essas filmadas sem problemas, era fácil encontrar dublês de personagens desfigurados, nem havia necessidade de um casting trabalhoso. Aliás, eles filmaram a si próprios na maioria dessas cenas, realizando assim uma considerável economia no orçamento de produção.

          Mexeram também nas cenas eróticas. Nessa categoria conseguiram modificar dois tipos de sequência. Para aquelas onde o herói e a heroína olhavam um para o outro transbordando de desejo, porém sem se tocarem, bastou acrescentar uns planos de beijos passionais utilizando dublês. De novo um trabalho fácil, na confusão de braços e cabelos qualquer um poderia com tranquilidade tomar o lugar dos atores originais. O segundo tipo eram aquelas em que os protagonistas se beijavam em pé ou na beirada da cama e só. Tirando proveito do fato de não precisarem mostrar o rosto dos personagens aos olhos da câmera, resolveram aumentar as sequências desnudando os protagonistas, deixando-os se acariciarem e depois encenarem fragmentos de atos sexuais de variadas intensidades. Também nessas cenas eles assumiram os papéis principais sem inibição, somente contratando dublês de corpo naqueles casos onde não tinham como preservar a continuidade em termos de semelhança física com os protagonistas originais.             

          Era esse em essência o trabalho deles, mas foram além em outros quesitos. Modificaram umas cores démodé dos figurinos e também na parte musical efetuaram alterações sem dificuldade, eliminando ao máximo os violinos nas trilhas sonoras. 

          Outro experimento foi a substituição de personagens discriminados, atendendo às solicitações insistentes de algumas organizações não governamentais. Em algumas cenas, colocaram homens nos papéis de mulher, em outras foram as mulheres que substituíram os homens. No lugar dos personagens de cor – negros, chineses, peles-vermelhas – entraram em cena atores árabes. E nos filmes em que aqueles mesmos personagens de cor apareciam muitas vezes no mesmo quadro com os protagonistas, impossibilitando dessa forma sua substituição, foi usado o recurso da voz off, brindando-os com falas cínicas dirigidas aos atores principais.    

          A produtora também deu carta branca para que eles fossem mais ousados em certos aspectos. Mudaram parcialmente os diálogos de umas comédias modificando digitalmente os movimentos labiais dos atores originais em algumas cenas ou introduzindo falas em off de humor mais seco, mais contemporâneo. De forma análoga, também alteraram as tiradas gongóricas nos filmes românticos ou as passagens por demais moralizantes nos filmes infantis, eliminando-as, encurtando-as ou condimentando-as com pitadas de autoironia. Descartaram quase todos os monólogos patrióticos nos filmes de guerra, substituíndo-os por odes de amor ao planeta, à natureza.     

          Foi instantâneo o êxito dos filmes antigos sob nova roupagem. Porém, e quanto a isso nenhuma surpresa, todo esse sucesso deveu-se não aos espectadores de mais idade, que continuavam a gostar das versões originais, mas sim ao público mais jovem e mais maduro. Eles tinham a expectativa de que o atrativo maior residiria nesse novo conceito de retrabalhar filmes do passado conectando-os com o presente. No entanto, os fãs apreciaram bem mais os aspectos técnicos do trabalho, efeitos especiais suprapostos com tecnologia digital, e também se divertiam com a parte lúdica, o humor involuntário introduzido nos originais, as situações ridículas em que se deparavam agora as estrelas de outrora, o correio eletrônico aparecendo em algumas passagens dos filmes refeitos, que, fora do seu contexto, se tornavam realmente hilários. Todo o trabalho deles era mal interpretado.        

          Apesar da desilusão sofrida, permaneceram convictos de que ainda assim tinham dado o primeiro passo. Não tinha importância a opinião geral das pessoas, eles tinham conseguido transmitir sua visão ao público. Então, encerraram em definitivo o trabalho com os filmes antigos, projeto para o qual dedicaram alguns anos de suas vidas, afirmando que o processo que iniciaram precisaria ser ampliando para abranger toda a filmografia universal e retomado a cada 50 anos pelo menos, talvez até em menos tempo devido ao crescimento exponencial da quantidade de material filmado.    

          Previam que a realização de novos filmes estava com os dias contados, o modelo de produção no futuro seria a adaptação de filmes antigos. Após alguns ciclos de remasterizações, a intervalos cada vez mais acelerados, a quantidade de filmes realizados seria suficiente para atender às necessidades de toda a humanidade, que terá então atingido tanto um patamar máximo na expectativa de vida como também um número máximo de filmes artísticos.       

          Decidiram viver isolados em algum lugar nas montanhas, numa comunidade hostil a pessoas estranhas, criam ovelhas e vacas, praticam alpinismo e cuidam da educação dos próprios filhos, alguns destes concebidos enquanto rodavam aquelas cenas eróticas, quando atuavam de bom grado como dublês de corpo. Estabeleceram de comum acordo que os jovens serão encorajados a seguirem carreira em áreas que não tenham nada a ver com o universo artístico, como, por exemplo, agricultura ou astronomia.    

          Na Páscoa e no Natal, montam peças de teatro tradicional com os moradores locais, que não gostam muito de fazer parte do elenco porque são espinafrados até mesmo quando erram uma simples fala.

 

      


 

 

 

Primavera 2015 / Obras gloriosas

 

Bogdan Dumitrescu

Nascido em 15 de abril 1968 na cidade de Oneşti na Romênia, Bogdan Dumitrescu é publicitário, cronista e articulista. As histórias traduzidas fazem parte do volume “SMS” (2009), seu livro de estreia. Nas palavras de Mircea Cărtărescu: “parábolas surpreendentemente graciosas, ecos de Cortázar, Borges e dos pós-modernos americanos. O tema principal da maioria das histórias desse volume é a dissolução do real. Existe em “SMS” páginas completas, de uma poesia autêntica, para além de qualquer tese ou temática imposta. Elas são suficientes para validar uma estreia literária muito interessante, em uma zona onde poucos prosadores da nova cena se aventuraram a desbravar”.

André Carlos A. Heliodoro

André Carlos Arruda Heliodoro é pernambucano e passou a maior parte da infância na cidade de João Alfredo. Estudou até a sétima série na vizinha Limoeiro, cidade onde nasceu no dia 2 de junho de 1979. Foi morar no Recife em 1993, concluiu os estudos no Colégio Marista e formou-se em Comunicação Social (turma de Radialismo e TV) na UFPE em 2002. Em seguida ainda estudou Ciências Sociais na mesma universidade, porém, não concluiu o curso. Trabalhou sete anos como pesquisador de campo coletando dados para as pesquisas de emprego e desemprego do IBGE (de 2005 à 2007) e do DIEESE (2008 à 2013). Teve um primeiro contato com a língua romena ainda na época em que era estudante de Comunicação, quando, por acaso, com o rádio transistor que era do seu avô, escutou um programa em romeno transmitido em ondas curtas pela Rádio Romênia Internacional. Cativado pela musicalidade do idioma, decidiu estudar a língua como autodidata depois que encontrou dois velhos manuais de romeno na biblioteca da universidade. O estudo da língua fez com que ele manifestasse um interesse incomum em conhecer mais sobre a cultura romena (especialmente história, sociologia, cinema e literatura). Visitou a Romênia pela primeira vez no mês de agosto de 2012, mora em Bucareste desde março de 2013 e ainda não perdeu nada de seu entusiasmo inicial de querer saber e entender mais sobre a Romênia, seu povo e sua cultura.

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

A revista

Edições anteriores

Blog

Corpo editorial

Nossos artistas

Autores (breve)

Colabore com a Raimundo

Normas para publicação

Contato