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True estoryes

Diálogos de Cheetara (ou Mário)

1

- vamos supor que existe reencarnação, tá?
- tá.
- não existe vidas passadas, mas vamos supor, tá?
- tá. tendi.
- dizaê, o que cê acha que cê foi, se existisse a reencarnação que não existe.
- eu??
- é. ocê. dizaê. quebressa preu.
- eu... seria... uma... mocinha japonesa do período Heian. filha de um funcionário público da província de Shimôsa, que tinha pequenas relações de familiaridade aristocrática com o clã Fujiwara. meu pai acabou me fazendo casar com um outro aristocrata de uma família guerreira, dos Monogataris, tudo isso pra manter o poder e dar mais estabilidade para a família imperial na nossa província e conseguir melhores impostos pra eles e pra nós. eu fiz dois poemas em 844, falando da brevidade da neve no inverno, a fugacidade do tempo e do amor e como estava triste com o final da minha pequena liberdade.
-...só...
- o segundo poema começava assim: a neve cai/branca pintura na montanha/nunca é a mesma de antes/nunca será igual a agora/cada instante é breve/cada instante é fugaz/agora cada instante vejo/que nunca fui quem imaginava ser/antes do cair da neve/branca que pinta a montanha.
-....
- desculpa. foi mal, a tradução é meio difícil de acertar. era bem mais bonito no original.
- quer se casar comigo?
- sim, Yamato-e. quero muito.
 

2

- Como é que eu vou saber que cê tá afim de mim se cê não fala?
- Como é?
- Que eu vou saber?
- Que eu tou afim de você?
- É! Ocê
- Mas quem disse que eu tou?
- Ocê! Nunca disse nada!
- Exato!
- Exato! E como é que eu vou saber?
- Mas eu nunca disse que tava afim de você!
- É disso que eu tou reclamando!
- Reclamando? Do que?
- De que você nunca falou que tava afim!
- De você?
- É. De mim.
- Mas eu não estou afim de você!
- Cê nunca disse.
- Agora tou dizendo que não tou
- Dizendo que não tá o que?
- Afim de você.
- Cê tá afim de mim?
- Não!
- Não o que?
- Não! não estou afim de você!
- Não-não? Duas negativas? Então é sim?!
- É não!
- Então é sim?
- Não!
- Então é não?
- Sim!
- Sim?
- Não!!
[Mas afinal acabamos nos casando. Então seis anos depois ele teve câncer e morreu. Convence-lo que estava doente foi tão difícil quanto a me amar]

3

- conta um segredo?
- um segredo?
- é.
- pra você não tenho segredos, sabe bem disso...
- mas conta um. quero ouvir algum seu...
- deixa eu pensar....
- ahn... conta logo...
- ok. pensei em um.
- conta! conta! conta!
- calma... bebe sua cerveja... e tem que prometer uma coisa
- prometo!
- primeiro ouve. cê tem que contar depois um segredo seu.
- um segredo meu?
- é. cê quer ouvir um meu, eu quero ouvir um teu.
- hum... deixa eu pensar...
- é um trato?
- é um trato!
- ok! lá vai meu segredo!
- ai! estou entusiasmada! quero ouvir! quero ouvir!!
- meu segredo é: eu gosto do Guilherme Arantes.
-..... hein....?
- é. gosto de uns sons dele. meu pai ouvia muito.
- Guilherme... Arantes...?
- bate nostalgia. é guilt pleasure, ruim mas gosto.
-.... ahn.... legal....
- conta o seu agora!
- o meu... segredo?
- é.
- o... segredo é que vai passar meu busão daqui dois minutos.
- o... seu busão?
- é. oh! olha ele ali, preciso pegar. tchau!
- espera. seu copo tá cheio ainda...
- não precisa me ligar. eu te ligo.
-.... tchau...

[essa foi a sétima vez que o Guilherme Arantes fodeu com a vida deste cara. porem foi a primeira que não acabou em assassinato]

4

- qual é o plano?
- o plano é não morrer.
- péssimo plano. acho que estamos num filme slasher.
- merda!
- fodeu geral!
- a gente trepou?
- sim.
- putaquepariu. o plano vai dar errado.
- vai. quem trepa em filme slasher morre.
- tou ligada. já vi trinta Jasons. vamos morrer.
- vamos.
- tou com medo. me beija.
- não posso.
- por que?
- porque se for mesmo filme slasher o facão vai vir por trás pelas costas e matar nós dois ao mesmo tempo.
- vai, né?
- é o que eu faria se fosse o assassino.
- ... você é o assassino?
- não.
- mas se fosse você ia me contar?
- não.
- nem por um beijinho?
- ah... por um beijinho eu contaria...
[Smuack]

Ambos estavam enganados.
Era uma comédia Romântica.
Eles acabaram casados.

5

- é próprio dos inteligentes mudar de opinião
- aé? que lindo.
- é, né?
- adoro sua inteligência. tão sexy!
- sabe, pensando bem nem é nada. quem muda de opinião é burraldo
- caralho, como você é burraldo.
- e você é inteligentíssima.
- claro. nunca mudo de opinião.
- quer se casar comigo?
- quero!
- sabe, pensando bem não quero mais casar.
- burraldo.
- talvez. posso mudar de opinião sobre quem é burraldo fácil.
- burraldo mas sexy. eu nunca mudo de opinião.

6

- Steve?
- Esteve.
 

7

- qual é o plano?

- primeiro a gente tem que escapar da primeira guerra mundial

- desculpa. eu apertei o botão errado.

- era pra colocar 2014 na máquina.

- desculpa.

- você faz mesmo tudo errado...

- faço. faço mesmo. desculpa.

- agora já foi. temos que voltar.

- cuidado! artilharia! abaixa!

- ufa. vamos ficar abaixados aqui na trincheira.

- pode dormir. eu faço guarda.
 

- viu, acorda.

- que foi?

- as bombas pararam. podemos levantar.

- aonde você deixou a máquina do tempo?

- ela deve aparecer uns 2 km daqui, ao norte.

- dá pra ir andando.

- desculpa, viu?

- era pra você colocar 2014. no dia que a gente se conheceu.

- eu sei... eu sei...

- era pra gente fazer com que nós dois não nos conhecêssemos.

- então no paradoxo temporal íamos esquecer que namoramos.

- é a melhor saída, menos, é claro, se voltássemos pra uma guerra.

- desculpa. te disse uma vez que sou disléxico de números.

- é?

- é.

- foi mal. acho depois de um tempo parei de escutar o que você falava.

- eu entendo. também, depois de um tempo, nem ligava mais pro que você fazia. tudo era muito escuro e sem formato. já não mais me importava.

- relacionamento é foda. não tínhamos mais condição.

- por isso que viagem no tempo é a saída mais fácil.

- vamos voltar pra 2014. eu tranco a mim mesmo no banheiro.

- eu escondo minhas chaves. nem saio de casa.

- tudo vai caminhar certo. vamos ser felizes novamente.

- vamos. sozinhos.

- HALT!!

- fodeu. alemães.

- vamos correr. a máquina está perto.

- abaixa, tiros! cuidado. entra na mata.

- quem diria que iríamos morrer na primeira guerra mundial?

- é. nunca imaginaria isso.

- pelo menos cê não mentiu no nosso segundo encontro.

- o que tem? o que falei?

- falou gostava de viver aventuras, e das estranhas. e de viajar.

- que legal cê lembrar disso.

- tem muitas coisas que eu lembro. mas a maioria quero esquecer.

- acho que morrer aqui vai ser o melhor jeito de esquecer.

[mas no final eles não morreram. voltaram no tempo, mudaram seus passados e esqueceram tudo, até mesmo que tinham construído uma máquina do tempo e ido até a primeira guerra mundial. tem certos romances que nem mesmo a vida nas trincheiras, com morteiros e gás mostarda pode salvar]
 

8

- Sabe, eu descobri uma coisa hoje de manhã.

- O ques?

- Descobri que gosto bastante de escrever diálogo, saca?

- Tous ligada.

- Tipo, conversa. Acho que pego bem em criar algo com duas pessoas trocan...

- Duas pessoas trocandos ideias, sei sei. Tous ligada. Sei bem o que cê tás falando. Tus curte escrever duas pessoas conversando, e meter coisas de literatura clássica no meio, umas boas sacadas engraçadas irônicas sarcásticas, uns bagulhos japoneses, outros de viagens nos tempos, criticas politicas atuais e sempres terminares romanticamentes, com alguém pedindo o outros em casamentos.

-....

-....

- Como é que cê sabe tudo isso?

- É que cê tás fazendos um agoras.

- Tou?

- Tás sim.

- Quer dizer que eu não estou conversando com você agora?

- Não estas. Estás sozinho, sentados no chão escrevendo uns diálogos sobre como curtes escreveres diálogos com diálogos. Olhas pras foras. Olhous? Então, esse é o mundo real. Todo o resto que está ressoandos na tua cabeça e que cês fica conversandos é mentira. Tudo inventado. Só existes quando cê pensas e nada mais. maises.

- Caralho.

- Procês ver.

-....

-....

- Nós já conversamos sobre isso, não é?

- Desdes 2008 umas dozes vezes.

- E por que continuo voltando pra esse mesmo tema?

- Sei lás.

- Quer que eu te conte uma história sobre a Grécia antiga?

- Não.

- Já ouviu, né?

- Dezenas de vezes.

- Beleza então.

- Beijos.

- Outro. Tchau.


 

 

 

Primavera 2015 / Museu das conversas desencontradas

Cheetara (ou Mário)

O Cheetara (ou Mário em Salesópolis. Comendador noutros locais) é um caipira que há dez anos brinca de não entender a cidade grande - SP. Escreve mas nunca publicou nada em sério, nem teve essa pretensão. Já foi um comediante de rádio cujas piadas não tiveram graça e costuma passar o tempo relendo tudo que um dia já leu. Ele gosta muito de andar e de jogar pokémon. Acredita de forma convicta que Casablanca é a melhor expressão artística da história da humanidade e que Grande Sertão: Veredas é tão genial que até doí fisicamente. Escreve na internet (entre outras coisas bobas) os diálogos que ouve na sua cabeça. Ah! E se formou em letras pela USP mas não tem a menor ideia do que fazer com isso.

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