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Conservas

Conto de Denise Mazocco

“Se não estiver bom jogue fora! É uma conserva que fiz do passado.” Curiosa justificativa para um doce, pensava. Que parte do seu passado guardara naquele pote de figos? Estavam muito doces! Acho que deixou cair um sorriso quando os preparou. Não... eram risos! Sentia o sabor daquela gargalhada alta, contagiante, ecoadamente em calda. Com a mesma expressão se desculpava pelo final amargo do doce de laranja. Seu passado conservava uma história triste. Meu paladar, embora infante, já o reconhecia na amargura. Mas só mais tarde percebi que algumas caldas lacrimejam. As uvas... Ela me ensinou a colher do parreiral. Cada cacho era um álbum de família. Não podia, porém, comer o doce. “Ficou ácido”, dizia. “Nunca acerto o ponto.” Maldito ponto! Era uma criatura feia, monstruosa, que disparava as palavras responsáveis por toda aquela acidez. “É de abóbora, para passar no pão.” Servia a lembrança dos únicos que conseguiram lhe roubar um beijo. Enquanto os rapazes de sua mocidade voltavam à mesa, nós, crianças, deixávamos sua bochecha melada provocando o esperado sorriso por trás da sobrancelha franzida. Sento naquela mesa enorme da cozinha. De madeira. A vista alcança a despensa, a porta de acesso a todas histórias de família. Nesta mesma cadeira, há pouco, ela arrependeu-se, acertou o ponto, serviu o doce de uva, e partiu. Ainda sobram conservas... “Os pêssegos são das crianças!” Lembrei dessa prova saborosa de carinho. Por que não aprendi a fazer outras? Talvez me faltassem aquelas mãos. Delicadamente firmes. Quem me dera novamente os risos, os beijos, os afagos, adoçados, temperados com cravos e canela! Comeria até as lágrimas, as palavras ácidas, as fotos, as saudades... O que conservei para mim? Destampei-me salivando o enlatado gosto de máquina, preço e rótulo.

 

 

 

Primavera 2015 / Museu das conversas desencontradas

Denise Mazocco

Sou Mestre em Linguística pela UFPR e graduada em Letras e em História. Não sou crítica literária. Sou escritora de domingo. Das manhãs de domingo. Pois é quando o silêncio, a rotina e a saudades permitem. Recentemente, resolvi divulgar meus textos no blog Prosa Domingueira. Nasci em Concórdia-SC, onde comecei a escrever poemas nos cadernos de redação das primeiras séries. Em Curitiba, cidade que escolhi para fazer a graduação e onde moro atualmente, larguei a literatura para estudar. Voltei a escrever não faz muito tempo. E só agora estou tentando desgrudar contos e poemas de minhas gavetas, em busca de mais leitores.

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