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Uma confissão

Conto de Ernane Catroli

Agora mesmo, então. E não só o que se revela ou se oculta em jorros de alegria ou de dor. Às vezes vômito, sangue, excremento e ira. E medo. Muitas vezes medo. Também silêncio. Até que resgatei L. Uma história antiga a me exigir. Como uma revisitação. Alto verão no corpo, na alma, no bairro do Méier do nosso reencontro.  E rimos soltos depois de um aperto de mãos, um abraço demorado.  O Bar do Osório cintilava em cores. Claridades de janelas abertas. O salão com alguns clientes em mesas dispersas. Escolhemos uma mesa mais ao fundo. Por um momento então, de frente. Depois por pedaços de olhares enviesados insisti no seu rosto, seus olhos, suas mãos.  Erguemos um brinde.

E de início era a minha voz. Desde os anos em que começamos juntos no trabalho. O fundo da nossa juventude. Aquele desfecho que marcou. Uma caixa de fotos guardadas e nunca esquecidas. E agora poder dizer-lhe. E o que mais guardei foi sua primeira aparição. E logo desisto porque sempre penso em terreno infértil, a solidão das horas: depois. Seus olhos correm o salão. Pela janela, as nuvens enoveladas e cinzas do final da tarde. Os lugares mais elevados enquadrados nas molduras das janelas. Fevereiro, quatro, terça-feira. O calendário marcava na parede do bar. Sem enfeite, isto é um poema. Então ouça. Eu digo pra mim mesmo retendo um gesto seu que seguirá comigo. Uma imagem nublada, mas não inventada. - Entendo pouco. A mãe falava agitando as mãos, impaciente. E mirava lonjuras. Neblinas. Aqui, o que nunca morre e me põe em sobressaltos. Em vigílias. E a cor do meu cansaço.  Entendo nada, mãe.

 

 

 

Primavera 2015 / Museu das conversas desencontradas

Ernane Catroli

Ernante Catroli é bioquímico, natural de Minas Gerais (Sant'Anna de Cataguases, 1953). Exerce atividades na área de Saúde, no Rio de Janeiro, onde reside. Publica regularmente em alguns blogs dedicados à cultura.

   

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