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Editorial: Primavera 2015

de Rafael Lasevitz

Gerrit A. Beneker / Telephone operator (a weaver of public thought) (1921)

Ao longo do tempo provavelmente concebemos não apenas um, mas vários projetos de vida, geralmente ligados a ambições pessoais e profissionais. Meu primeiro projeto de vida era de ser a pessoa mais veloz do mundo. Devia ter seis anos, ou até menos. Assistia corridas de carro na televisão e passava meus recreios na escola apostando corridas ao redor de uma quadra esportiva que ninguém usava. Quando uma estrela cadente caía, ser a pessoa mais veloz do mundo era a única coisa que eu conseguia imaginar que valia a pena desejar. Às vezes fazia corridas imaginárias com pessoas que não sabiam que estavam correndo contra mim. Em suma, meu primeiro projeto de vida já era acima de tudo, um projeto concebido para um universo onde eu deveria estar em permanente competição com quem quer que estivesse ao meu lado.

A maior parte de nós provavelmente não sabe se imaginar fazendo qualquer coisa que não seja por competição. Somos postos em competições nas escolas, e depois nos vestibulares e depois nos ambientes de trabalho. Ficamos até felizes quando nos falam da possibilidade de fazer carreira competindo com os colegas. Até Manoel de Barros  concebia a poesia como tudo o que pode ser apostado no cuspe a distância. E cada competição tem seus elementos fundamentais. Regras, vencedores e perdedores, provavelmente um vendedor de pipocas em algum lugar. E invariavelmente um juiz.

Quando começamos a trabalhar como editor na Raimundo essa foi uma pergunta importante: afinal, seriam os editores juízes? A resposta óbvia sempre foi que não. Sim, estabelecemos as regras, publicamos alguns e deixamos de publicar outros, e deve ter até alguém vendendo pipocas virtuais velhas em algum canto escuro da nossa revista. Mas para sermos algum tipo de juiz teria de haver algum tipo de competição, e por mais que seja difícil de conceber até para nós mesmos às vezes, não só não há competição alguma como pelo contrário, esse é exatamente o oposto de tudo o que fazemos.

Vamos falar da nossa rotina. A cada três meses soltamos os pôsteres em nossa página no Facebook, alardeamos por todos os cantos do universo que queremos os seus textos, seus poemas, seus contos e ensaios, nos sentamos na frente da tela do email e ficamos aguardando ansiosamente pelo primeiro email, e geralmente recebemos centenas. Digo para mim mesmo que lerei cada texto com atenção, que não vou me desanimar com primeiros parágrafos tediosos, me forço a me livrar de preconceitos, tento ver a beleza de estilos que não gosto e gostar de temas que nunca leio, e de alguma maneira, tento me cercar da certeza de estar fazendo uma seleção incrivelmente justa e objetiva mesmo sabendo claramente que nada disso existe no mundo real.

Recebemos todos os tipos de textos, com todo tipo de estilo e de temática, desde histórias cheias de sangue e tiroteios, passando por contos adolescentes, centenas de poemas românticos, narradores que falam como se estivessem escrevendo no celular, gírias urbanas dos anos 80, textos com e sem mesóclises, poemas com palavras como “regardless”, “sanduba” ou “minh’alma”. Às vezes por algum motivo leio um mesmo conto três vezes, acho fantástico na primeira, horroroso na segunda e interessante na terceira. Qual dos meus três eus está certo? Qual deles é objetivo? Qual é o mais meritocrático?

Não é nem apenas dizer que nossa capacidade de seleção dependa dos nossos gostos pessoais. É dizer que varia segundo a quantidade de café tomada no dia. É ter acabado de ler vinte páginas de Cortázar e sem pensar se frustrar por não encontrar frases cortazarianas no primeiro poema que encontro na minha frente. Em alguns dias eu quero que os textos na minha frente sejam bons e sem pensar faço o possível para gostar deles apenas para mudar de ideia radicalmente vinte dias depois porque descobri um punhado de rimas pobres, ou uma frase machista ou sexista ou elitista no meio do conto e que eu não tinha percebido antes porque li rápido demais da primeira vez. Às vezes fico tão fascinado pela beleza da forma de um conto que me esqueço do conteúdo, e às vezes é o contrário.

Imagino que não apenas a maior parte dos editores vai se identificar com tudo isso, mas também a maior parte dos professores de colégios, universidades, cursinhos de inglês, e toda pessoa que já teve que dar nota para alguém ou decidir se alguém será aprovado ou não em qualquer coisa, e eu poderia falar sobre todos os problemas de se ter um universo inteiro se sustentando sobre meritocracias mais abstratas que um quadro do Pollock mas não vou porque quero falar aqui apenas de literatura. E acho que antes de se falar sobre o que é boa literatura ou má literatura existe uma questão mais importante que tem que ser feita: por quê, céus, por quê escrevemos literatura?

Quando cheguei à adolescência eu já tinha desistido de me tornar a pessoa mais veloz do mundo e meu principal objetivo passou a ser conseguir me comunicar com as pessoas, o que estava longe de ser fácil considerando que poucas vezes na minha vida vi a comunicação como uma coisa que eu pudesse fazer sem pensar. As pessoas falavam de assuntos aleatórios como eventos banais de sala de aula ou coisas que apareciam na televisão de alguém e eu, que queria falar de sentimentos profundos e do sentido da existência humana, tinha grandes dificuldades em entender como um tipo de assunto poderia levar ao outro de maneira razoável. E então comecei a escrever poesia. Não necessariamente boa ou ruim, mas pelo menos servia para tentar dizer as coisas que eu queria tentar dizer. Alguns dizem que escrevem para si próprios, e em parte isso sempre foi verdade para mim, sinto prazer no transe em que entro quando tenho que escrever, mas em parte também sempre foi uma tentativa de comunicação. Mesmo que muitas dessas tentativas nunca fossem lidas.

Talvez o mais incrível seja pensar que não deixei de querer me comunicar através da literatura com o passar dos anos, mesmo tendo amigos e relacionamentos nos quais podia falar abertamente sobre, em teoria, todo tipo de assunto. Em teoria. Talvez você não tenha ainda parado para se perguntar o que é, afinal, um assunto? O que torna um amontoado de palavras em algo bom, não, razoável o suficiente para ser aceito socialmente como digno de se transformar em assunto? E sendo o assunto razoável, quais são as formas socialmente aceitáveis para se abordar um assunto? Com o tempo comecei a perceber que mesmo com a idade, alguns limites do aceitável ou não em uma conversa não estavam muito claros e comecei a brincar com eles, as fronteiras do assunto. Elas variam, claro, de pessoa para pessoa. Há aquelas com quem você consegue discutir questões como crises de políticas sociais, sentidos ocultos em um filme turco, apogeu e queda de relacionamentos amorosos, e com outras você no máximo alterna assuntos relacionados a futebol e engarrafamentos e sobre o quanto o dia está nublado hoje e parece que vai chover. Mas conteúdo é uma coisa que se relaciona diretamente com forma, e se os conteúdos podiam variar, as formas sempre me pareceram algo muito mais delicado. Tem coisa que só consigo comunicar quando ponho em uma forma literária. Talvez precise do drama do estilo literário para enfatizar algumas questões, ou talvez precise de uma história que ilustre certas ideias ou certos sentimentos. Talvez seja simplesmente que a comunicação escrita seja completamente diferente da oral. O tempo da escrita não é o mesmo tempo da oral. Conversas são autoritárias ao ponto de serem quase selvagens. Exigem respostas independentemente de humores variantes ou de eventuais abstinências de cafeína. Já a escrita tem tempo para ser o que bem entender.

Já perguntei no editorial passado o quanto não se perde quando não se lê aquela pessoa que está ao nosso lado, mas talvez eu não tenha feito a outra pergunta que é o avesso dessa e é provavelemente tão importante quanto: quanto não se perde ao se deixar de escrever? Que eu desaparece do mundo quando o eu da escrita não tem a chance de existir no universo? Quando penso nas discrepâncias incríveis entre meu eu escrito e meu eu falado, como não pensar em todas as pessoas escritas que estão escondidas debaixo de camadas e camadas de pele, gordura e roupas que jamais escrevem e apenas falam?

Diante de tudo isso, eu entendo que um editor possa ser visto por aí como uma espécie de gatekeeper que abre e fecha as portas para o mágico mundo literário de uma revista, mas aí então deveríamos estar nos perguntando, afinal, o que é uma revista? A partir do momento em que entendemos que, muito mais do que uma forma refinada de expressão para uma elite de gênios abençoados, a literatura pode ser entendida como sendo apenas uma outra forma possível da conversa, na mesma hora a gente entende que uma revista, por mais extraordinária que seja, é essencialmente um tipo de panelinha. Sim, uma panelinha, do mesmo jeito que você tinha panelinhas de amigos no recreio da escola e podia entrar em algumas delas mas nem queria chegar perto de outras.

Quando penso no meu mundo utópico em noites de insônia (ou quando estou no transporte público), penso em um mundo em que todas as pessoas escrevem. E isso não é um problema nesse mundo, porque existem milhares, milhões de revistas dentro dele, cada uma com seu pequeno grupo de leitores. Os textos que a gente recebe quase sempre são de pessoas que usam a literatura para expor suas entranhas, seus amores e ódios, todos os nomes dos ácidos que as corroem por dentro e por fora, todos os pôres de sol e arco-íris repetidos que a gente usa para dizer que nossas vidas estão mais coloridas, todos os finais de seriado frustrantes, os resfriados de fim-de-semana, a vontade reprimida de matar a facadas lentas algum chefe que cheira a cigarro, de explodir uma repartição, de inventar todos os grandes filmes já filmados, de denunciar todas as polícias que são secretas e as que já deixaram de sê-las há duas gerações. À sua maneira, cada um deles grita tentando ser ouvido. E talvez seja isso ser editor no mundo de hoje. Ser um imenso, gigante ouvido recebendo todos os gritos do mundo de uma vez sem ter como responder a quase nenhum deles a não ser com uma resposta cordial e padronizada via email. E se fôssemos vários ouvidos? E se ao invés de apenas escrever, também soubéssemos falar sobre literatura? Responder a histórias com outras histórias?

Talvez seja hora de se pensar que reinventar as conversas é uma coisa possível, e que a literatura tem que ser protagonista nesse processo. Que reinventar a literatura pode significar descentralizar a literatura, parar de insistir somente na leitura e trazer a escrita também para a rotina. Não apenas deixar de silenciar todos os eus mutilados de sua metade escrita, mas entender que a maior parte deles está recebendo de volta apenas seu próprio eco. Quando foi que começamos a achar normal ler um texto, conto ou poema que seja, e deixá-lo sem reposta? Por quê de todos, justamente nossa forma de comunicação mais elaborada e refletida é a que se tornou a menos capaz de se transformar em diálogos e a mais propensa a propagar os monólogos do universo?

Essa edição não quer ser mais veloz do que todas as outras edições do mundo, mas provavelmente pode inspirar boas conversas sobre máquinas do tempo românticas, temperos para comidas fracassadas, sorvetes excessivamente caros, mulheres relegadas ao anonimato, encontros com assassinos. E extraordinariamente nesta primavera, sobre a linda e muito nova literatura romena, com seis traduções inéditas de contos traduzidos diretamente da língua original, a qual não teria sido possível sem os esforços  do tradutor André Carlos Arruda Heliodoro e de Anca Mosescu, que merecem nossos agradecimentos especiais, assim como a editora Polirom por todo o apoio com os trâmites legais e na interlocução com os autores. Sem eles, o acesso a essas "obras de autores sem glória,  no depósito poeirento de uma literatura menor de um país secundário", como nos disse um surpreso Bogdan Dumitrescu em uma de nossas trocas de emails, continuariam inacessíveis ao público brasileiro.

Boa leitura!  

  

 

 

 

Primavera 2015

Museu das conversas desencontradas

 

Ana Luiza Mendes

André Carlos A. Heliodoro

Barbara Monfrinato

Bogdan Dumitrescu

Cheetara (ou Mário)

Denise Mazocco

Ernane Catroli

Felipe Bibian

Fernanda Lopes

João Pedro Souza Liossi

Jório Cunha

Josiane Siqueira

Lavinia Branişte

Lena Luiz

Luiz Fellipe Almeida

Marcella Lopes Guimarães

Rafa Ireno

Roberta Santiago

Rogerio Luz

Roselaine Hahn

Ruxandra Cesereanu

Tamara Chagas

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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