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Sanguecinza

Coletânea de poemas de Fernanda Lopes

A poesia rasgada
no seu cabelo crescido
a calça rasgada que
nunca pousou no chão do meu quarto.
O sorriso rasgando seu
rosto contínuo
Os filósofos pingando da sua língua
enquanto você lambia as minhas feridas
e me mordia
e eu sangrava
o gosto esquivo do meu sangue
na sua boca
você que não sangrava nunca.
Mas o vermelho saía.
e a sua mão subindo por baixo da minha saia
eu sempre de azul.

na Europa
nossos filhos nórdicos
desamarrando os sapatos
e usando os cadarços para
enforcar seus abortos
“renega a literatura fazendo literatura”
a literatura é repulsiva.
teu aborto não presta
mas nós também não.

 

* * *

 

Já não posso ouvir
minhas músicas tristes
tem um leão ensanguentado na sala de estar
me pedindo pra amar todos os bichos
“constrói uma arca
enche ela de cascalho
e deixa que afunde”

 

* * *

 

Um sertanejo brega
qualquer
cantando numa tvzinha de bar
A gente aqui
sentados nessas cadeiras de bar
cadeiras sentadas antes
por quantos fundilhos de jeans
sujos de fuligem

“Parecia um pornô”, sorvendo cerveja
a mais barata
do bar mais barato
o sertanejo revirando os olhos
O cheiro de fritura já não agride
nossos narizinhos pequeno-burgueses.

Um banheiro apagado
“eu preciso fumar.”
a calcinha listrada
o ruído da mente
abafando sem querer a lamúria
do sertanejo

Somos um.
Perdi um amor tão brega quanto o dele.

 

* * *
 

Cheiro de cigarro me lembrava você.
Comecei a fumar
Agora cheiro de cigarro me lembra
de mim mesma.

 

* * *

 

Eu adoro o seu jeito de olhar pras coisas e não enxergar nada
Você é feito de estrelinhas e transfusões
Você me dá dor de cabeça
Eu te dou o meu sangue
encharco suas hesitações
O eco pelágio do arrependimento retumbando rítmico e grosseiro há dias

Você não me alcança com os seus bracinhos de boneca
Você escava e bebe e chora procurando por mim
Eu observo sua decoração pitoresca
suas cores obscenas
seu rostinho egrégio

Você é a cinza de um cigarro que eu fumei até o filtro.


 

 

 

Primavera 2015 / Museu das conversas desencontradas

Fernanda Lopes

Fernanda Lopes nasceu num mês que costumava ser chuvoso; suas primeiras festinhas de aniversário foram embaladas pelo som de tempestades e karaokês tocando “tarde em itapuã”. Aprendeu inglês escutando os berros doloridos de rockeiros norte-americanos. Escreve com a mão direita, mas tem vontade de ser ambidestra. Cogitou tornar-se veterinária, bailarina, samurai e astronauta antes de decidir ser poeta.

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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