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Oitoitenta

Coletânea de poemas de João Pedro Souza Liossi

1

oito ou oitenta
meu filho
ou você fica ou você frita

2

péssima escolha você
fez uma péssima escolha
sua pena é perder
as penas uma por uma
você vai viver meu filho
é isso
você vive

3

por favor entre
frite à vontade
condimentos?

4

Isto
é uma brincadeira
de péssimo gosto
falta sal
falta aquele tchan

5

pode segurar e amarrar
por favor?

6

você não tem
o direito de sentir
apenas sente e aguarde
se possível
na cadeira marcada

7

minha bunda formiga
minha bunda eu não sinto
mas ao mesmo tempo é como
se milhares de formigas bundudas

subissem pelas pernas
isso é mesmo normal? 

8

é um processo muito comum
acontece sempre quando o óleo
começa a esquentar

9

este aqui
é o palito de fósforos
vou colocar o palito
de fósforos em você e se acender
o óleo está pronto

10

vejo que vocês mudaram
os métodos espero que seja
mais eficiente agora do que
o velho banho-maria

11

nada contra o banho-maria
a tensão é maior pois o tempo
o tempo perde o seu valor de tempo
a dor é impagável pela questão
do tempo mas o gosto
devo admitir que o gosto é outro

12

mas quando a carne é ruim
meu filho
não tem banho de santa que dê jeito
acredite

13

seu nome qual é mesmo?

14

preciso do seu nome completo
seu endereço o nome dos seus pais

você tem o telefone de algum
parente mais próximo?
acho que é o suficiente
mas antes devo lhe perguntar se
você tem um cachorro em casa

15

eu realmente gostaria de saber
se você tem uma casa
e um cachorro que mora dentro dela

16

a casa está lá mas temo
que o cachorro tenha ficado
preso do lado de fora essa
correria dos dias o senhor sabe
e o cão lá fora com esse calor
meu deus esse calor

17

senhor onde devo colocar este
pedaço peço desculpas de antemão
não era minha intenção que se desprendesse
mas o senhor bem sabe
como são as bundas

18

(penso agora que entre o meu
nome e a minha boca
entre a minha boca e o ouvido
do chef entre o ouvido
do chef e o seu cérebro
entre o seu cérebro e a provável resposta
que sairia de sua boca procurando
ouvidos)

19

existe um mosquito
um urubu do lado de fora
esperando a minha carne

20

não esquente com isso (rs)

você não deve se preocupar
isso sempre acontece e bundas
existem aos milhões
o que mais existe são bundas  

21

o meu nome senhor
o meu nome existe
sozinho
eu durmo e o meu nome
sai pra dar uma volta
pelos becos mais vagabundos
desta cidade
isso é engraçado mesmo
o senhor não acha?
eu fritando
mas o meu nome continua
eu não sou mais
mas o meu nome é



 

 

 

Primavera 2015 / Museu das conversas desencontradas

João Pedro Souza Liossi

Liossi, aos dezenove, é poeta. Palavra pesada. Pensa que cada um carrega o fardo da palavra que merece. Pensa que existir é carregar a palavra entranhada na pele, nos cantos esquecidos das unhas. Pensa que a autopictografia é a melhor biografia. Carrega a pele pesada de palavra.

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Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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