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Azul

Conto de Lavinia Branişte / Tradução de André Carlos A. Heliodoro

Os computadores assobiam amortecidos e o logotipo da firma esbarra no canto do monitor, num descanso de tela padronizado conforme a identidade gráfica da companhia. Tons de azul.  

          Enquanto minhas narinas se dilatam por conta de um bocejo reprimido, desloco com dificuldade a mão direita pelo mouse com o lema impresso: responsabilidade, unidade, eficiência. Uma mexida no mouse e a tela se acorda, mostrando a primeira página do site da firma. Tons de azul.

          Toda a equipe está na sala de reuniões para uma recapitulação do training inicial, exatamente seis meses depois de termos começado a trabalhar. Querem se certificar de que não esquecemos os procedimentos, de que todo mundo está progredindo. Como no primeiro dia, Sara fica ao lado da tela onde foi projetado aquele mesmo Power-Point, estamos agora na parte que fala das qualidades de um agente de atendimento ao cliente. Sara está de frente para a equipe, na mira do projetor, desenhos e pedaços de texto se espalham no rosto dela. Um tormento enxergar o que é apresentado, me interessa elucidar aquilo tudo mais do que se tivessem pregado na parede, pequenos enigmas nos poros da cara dela e ela com olhos entreabertos no projetor, dando a entender que olha para a gente. Por vezes vira devagar a cabeça, como quem quer pegar um bronze uniforme.    

          Mais uma vez nos preparamos para aquelas brincadeiras batidas, misturamos nomes de cores e de cidades dentro de um chapéu e depois não sei mais o que acontece com eles.

          De manhã cedo não escutei quando o relógio despertou e me acordei na hora em que já devia estar no ônibus 104, chegando na Unirii, de onde teria ainda que pegar o metrô.

          Pulei da cama, me vesti com o que vi primeiro, nem tive mais tempo pra escovar os dentes ou comer alguma coisa, sorte que ainda tinha na bolsa uma última pastilhinha de menta, foi dureza tirá-la da embalagem antes de chegar na esquina.

          Meti a pastilhinha na boca, abri a porta de um táxi estacionado na esquina, me joguei no banco traseiro e disse: Rua Santos Voivodas*, número catorze. O taxista inclinou levemente a cabeça para trás com um “fala sério” em mente, seria uma corrida de apenas 15 lei** e eu bem sabia que frequentemente acontece de te recusarem porque não é rentável para eles. Se me dissesse que não, eu teria me jogado aos pés dele e começado a chorar para que enfiasse o pé na tábua e me levasse a jato, era vital chegar a tempo no escritório, a companhia preza a pontualidade, e Cristi do planejamento é impiedoso. Em oito horas de trabalho temos pausas acumuladas de apenas trinta minutos, meu esquema diário é xixi três vezes mais um sanduíche, se acontecer de ter que ir no banheiro mais outra vez, então, adeusinho sanduíche. Ainda assim, faço um esforço para não ir muito ao banheiro, quer dizer, tento não consumir mais de um litro d’água por dia, quer dizer, duas garrafinhas de meio litro daquela água que parecia de torneira, que eles deixam grátis nas geladeiras pequenas e transparentes coladas pelas paredes aqui e ali. Por conta da casa. Tudo aqui é submetido a um processo contínuo de avaliação, adotaram as garrafinhas de meio litro porque as “fontes” com garrafões grandes foram mal avaliadas. As auxiliares de serviços gerais sempre precisavam pedir para um dos meninos colocarem o garrafão, e por causa disso os meninos não avaliaram bem as auxiliares. As auxiliares agora chegam tranquilas, cada uma com uma grade apoiada na barriga, ficam de joelhos e deixam as garrafinhas bem arranjadinhas nas mini-geladeiras. E isso de hora em hora, porque as garrafinhas desaparecem num piscar de olhos. Somos muitos no tablado de produção, fileiras compridas com dezenas de cubículos, os supervisores mais em separado ou nos cantos, isolados, escutando as chamadas, quentes ou frias, ao vivo ou gravadas. Não tiram os fones de ouvido, não param de fazer cruzinhas nas fichas de avaliação, cem linhas para cem pontos, para cada ponto sendo necessário respeitar certos critérios.

          Sara é a nossa instrutora de formação. Ainda não a avaliei. Se o francês nativo que ela fala não fosse música para os meus ouvidos, a ficha de avaliação dela seria uma cruz só. Sempre sorrindo. Disse para a gente que: no fim do dia de trabalho vocês tem que sentir dores aqui ó, e puxa para cima a pele das bochechas com os dois indicadores.

          Na apresentação estamos agora naquela parte com a pirâmide, o que quero dizer 100%, o que digo 80%, o que o outro escuta 60%, o que o outro entende 40%, o que retém e é capaz de formular (frase longa e amontoada no vértice da pirâmide derrubada, com “formular” separada em sílabas) 20% e Sara com a mão na parede e com os dedos espalhados no último segmento, sorriso no rosto olhando na direção do refletor e nos dizendo:  

          - Temos que nos esforçar para estar aqui.

          No divisor frontal do cubículo, de um lado a outro, cada um de nós tem um espelho no qual se vê quando está com um cliente na linha. Para que a gente se lembre de sorrir, porque o sorriso se sente em tudo. Na voz mais ainda.

          - E não se esqueçam, cabe a nós a iniciativa da despedida.

          Se durante a chamada esqueço de dizer três vezes o nome do cliente, digo então rápido três vezes no final. Nosso objetivo: não gerar recontato. Ou damos um jeito no cliente ou mandamos ele para um outro nível.   

          Se você atrasa mais de quinze minutos, cortam a primeira hora do seu dia. Você fica com um dia de trabalho de apenas sete horas, e os vales-alimentação são para os dias completos, de oito horas. Se você atrasa mais do que quinze minutos, perde um vale-alimentação.

          Hoje atrasei vinte minutos. Na verdade só quinze até entrar pela porta principal e cumprimentar o senhor da vigilância, que ficava atrás de uma parede de vidro que dá para a rua, olhava a neve caindo lá fora e a lama que ia se formando. Não tinha permissão para sair do edifício. Provavelmente todos os alarmes disparariam se ele saísse.

          Cheguei às nove e quinze, mas até passar o cartão de identificação magnético por todos os leitores, até aprovarem minha entrada na recepção, no elevador, no andar, no departamento, enfim, até que o prédio me avaliasse e decidisse me receber, uns bons cinco minutos tinham se passado. Entrei correndo no tablado de produção, fiz um desvio de uns dez passos até o planejamento. Enfiei a cabeça dentro e olhei para Cristi. Apertou os lábios e arqueou uma sobrancelha, como se fosse ele quem tivesse de perder dinheiro por eu ter me atrasado. Como se fosse receber comissão em função do número de penalizações que nos dava.     

          Disse a ele:

          - Desculpa.    

          Poderia ter contado toda a história em detalhes, mas me interrompeu:

          - Fazer o quê?

          Para a sala de reuniões nos levaram depois do almoço.

          Sara nos apresenta a situação. Sugere que prestemos atenção pois não podemos anotar nada. Na sequência um jogo daqueles de raciocínio, quando estava na escola até que eu gostava desses passatempos, levava jeito. Talvez ainda leve. Desde quando comecei só fico na lanterna nessas avaliações de equipe. Tirando Eddy não tem ninguém realmente fora de série, um bando de colegas nada brilhantes e eu, que me considero melhor do que eles, tão melhor ao ponto de ficar desconcertada quando vejo meus resultados ruins nas avaliações. A língua que falamos é contaminada de francês, o nosso empregador é francês, fazemos de conta de somos franceses, apesar de um “leve sotaque”. Quando começamos a trabalhar cada um de nós escolheu um nome mais internacional. Nome de romeno ia pegar mal com o cliente.

          E então Sara diz: Miki e Letícia foram encontrados mortos no quarto deles. No chão um aquário quebrado. Sinais de que houve uma tempestade. Apartamento trancado por fora. Vocês têm três perguntas para descobrir o que ocorreu.

          Cristi mete a cabeça na porta e pergunta a Sara, carregando nos erres, se ainda falta muito para terminar. Sempre perde pontos nas avaliações por causa dos acentos que não coloca quando escreve emails. Ele será o próximo. Virá até o projetor para nos relembrar como é que inscrevemos nossos pedidos e solicitações no sistema, como podemos planejar os turnos, como fazer para não irmos ao banheiro todos na mesma hora, nos lembrar outra vez da subvenção para óculos caso nossas dioptrias tenham aumentado por conta do trabalho.         

          Fazem muitas perguntas mas ninguém adivinha o que aconteceu. Sara sorri com ar de vitoriosa, Miki e Letícia eram dois peixinhos e uma ventania tinha derrubado o aquário. Ninguém parece encantado com esse desfecho. E depois a moral: vocês não me perguntaram o essencial. Não foram direto ao ponto perguntando o que aconteceu. Para que vocês vejam o quanto penamos na vida se não sabemos perguntar direto o essencial.

          Perguntem ao cliente o essencial.

          Sara sorri triunfante para uma galera que não está nem aí, essas reuniões na verdade só servem mesmo para a gente se livrar dos fones de ouvido e escapar da avalanche de chamadas. 

          Cristi espera na porta. Quero prestar atenção a tudo que é dito e ainda fazer perguntas. Quero demonstrar complacência para com os esforços da companhia, porque vou tentar recuperar meu vale-alimentação de hoje.

          Enquanto acontece a troca de operadores, quando temos uns dois três minutos para poder ir ao banheiro, Eddy me diz baixinho que conseguiu trabalho em outra empresa. Até que enfim, depois de seis meses procurando. Desde o primeiro dia quis dar no pé. Veio para Romênia para dar uma chance à relação dele com Claudia, os dois tinham se conhecido através de um site de idiomas, ambos aprendiam algo, acho que português, uma língua dessas. Eddy é de Paris. Acabou de concluir a faculdade e recusou um trabalho na área de pesquisa em engenharia nuclear para ser operador de atendimento ao cliente em Bucareste. Fomos juntos na entrevista, no mesmo dia. Quer dizer, para a última entrevista, aquela em que o empregador francês dá o sinal verde, porque antes eu já tinha vindo naquela firma umas três vezes (e nesse mesmo período também andei por outras três quatro companhias parecidas), tinha feito testes de gramática e elaborado redações sobre o meu futuro em todas as línguas que eu sabia. Esse meu futuro me dava vontade de vomitar.

          No dia da entrevista esperei ao lado dele na recepção, até que apareceu uma tal Mihaela dos Recursos Humanos dizendo para a gente se preparar, não entendi porque ela se atrapalhava tanto no francês, só saquei depois, quando disse a Eddy que ele seria o último a entrar, para não levantar o nível da seleção logo de cara, sendo ele nativo.     

          Nos reencontramos no primeiro dia de trabalho, primeiro dia de um training de duas semanas. Ficou do meu lado e traduzi para ele o curso de segurança do trabalho, que estava em romeno,  comecei a rir quando nos disseram para prestarmos atenção no momento em que estamos descendo as escadas no metrô, não devemos fazer nenhuma outra atividade enquanto descemos, tipo contar dinheiro, porque corremos o risco de sofrer um acidente. Caso isso aconteça a caminho do serviço, será então considerado como acidente de trabalho. Se você cai na escadaria do metrô enquanto está contando dinheiro a caminho do serviço, então é acidente de trabalho. Aí ele me perguntou qual era a graça e eu expliquei-lhe baixinho, frustrada com minha pronúncia imperfeita, e depois na hora do almoço estou de novo com ele na cozinha, naqueles bancos altos estilo bar, ele me falando de Claudia. Esses bancos são incômodos, deslizo neles mas sem chegar até o chão, então ponho o pé na barra do banco dele, me apoio no banco dele e nossas pernas se tocam de leve, sinto como minhas calças jeans roçam nas calças jeans dele, e ele me dizendo que os pais de Claudia telefonam para ela três vezes por dia, como é possível uma coisa dessas, e que é meio esquisito os romenos tagarelarem tanto no telefone e cuspirem muito na rua. 

          - Eu não cuspo.

          - Sei, não falava de você.

          Faz cálculos em voz alta, três mil euros o trabalho na França, mas quanto é o aluguel em Paris? quanto é a comida? e para completar já tinha caído na real de que não vai conseguir convencer essa Claudia a se mudar para a França. E que é que eu faço se eu ficar três anos num call center e ver que não vai dar certo?

          - Você é novo, digo a ele. Tem muito tempo ainda pra não dar certo.

          Nem para mim nada deu certo até agora e tenho certeza que não vai ser aqui nesse trabalho. E no meu caso não se trata de um sacrifício em nome de uma relação, é apenas um sacrifício e pronto. Um sacrifício para o aluguel.

          Cristi se instalou e não consegui ir ao banheiro, depois de tantos meses já tenho um reflexo de calcular os minutos livres, metades de minutos livres, de resolver logo a questão do banheiro. Colocamos os calculadores no “convocation RH”, quer dizer, nos chamaram dos recursos humanos, para cada brief ou “session qualité” – quando fazem críticas das nossas chamadas – é preciso colocar no “convocation RH”, até antes das simulações em caso de terremoto colocamos o sistema no “convocation” RH, mas deixei a bolsa lá. 

          Cristi prepara os slides e prepara o seu francês, mesmo na companhia há alguns anos ele ainda escorrega no vocabulário limitado das atividades do seu departamento. É paranoico em não deixar escapar nada em inglês, diz mensagens indesejáveis e anúncios publicitários intempestivos, ele não bane ninguém, ele proscreve, e na antessala, com seus chegados, fala de uma maneira cordial.

          A não ser Eddy só tem romenos na sala, e Cristi se apronta para começar com um “Alors...”.

          Calculo  meu meio minuto e me levanto e vou até ele e digo:

          - Desculpe por hoje de manhã, vou ficar depois do expediente. Fico mais meia hora.

          Ri sem tirar os olhos do monitor e diz: 

          - Ficar onde, que vem alguém do outro horário e vai usar teu computador.

          Com essa já não posso dar jeito.

          - Pô Cristi, por favor, não corta o meu vale.

          Ele endireita as costas, olha se na parede a projeção está legal, regozija-se com o que fez e saboreia este estado de satisfação o maior tempo possível.

          Finalmente olha para mim, olha um pouco para cima porque eu sou mais alta, mas, é como se ele me olhasse de cima pois se acha o rei da cocada preta.

          - Até paguei táxi pra chegar aqui mais rápido...

          - E a culpa é minha?

          Volto pra minha cadeira, Eddy me pergunta:

          - O que você disse?

          - Não, nada. Tentei me desculpar pelo atraso.

          No tratamento das mensagens escritas, Eddy andou na corda bamba desde o início. Eles pedem de modo expresso que utilizemos apenas as formulações de respostas padrão, esperamos ter correspondido às suas expectativas e continuaremos à disposição para quaisquer outras consultas...  Eles não têm confiança em nos dar carta branca para escrever em francês. Para nós é fácil, mas para Eddy deve ser terrível, não pode se abster de não entabular relações pessoais com os clientes que retornam com os emails, escreve-lhes usando suas próprias palavras, tempera as mensagens com emoticons e por conta disso é penalizado na avaliação. Nosso objetivo é não gerar recontato, foi o que Sara repetiu antes. Seja como for, todas as mensagens são assinadas como “A Equipe”.

          Cara equipe, foi o que escreveu um hoje de manhã. Eddy me mostrou o email quando cheguei, e a supervisora lá no canto dela de vidro observando logo que eu não estava no meu lugar. O sujeito esqueceu a senha e não podia mais acessar sua conta no site para o qual dávamos assistência. A pergunta de segurança era “qual o nome de seu amigo de infância?”. Cara equipe, coloquei o nome de quatro amigos e não mais sei qual. Exposto por tanto tempo à toda a burrice do mundo ostentada nas terminações dos verbos franceses, Eddy ainda se divertia terrivelmente. Perdia uma porrada de pontos nas avaliações. Perdia pelo “espírito de Zorro” – não comece a educar o cliente. A sua missão não é essa.

          Pediu-lhe de novo todos os dados pessoais, mais a resposta para a segunda pergunta de segurança, qual o local de nascimento da mãe do senhor. E agora mal pode esperar para voltar para o computador e procurar na caixa onde todas as mensagens desembocam o número de identificação daquele email que passou a ser simpático.   

          - Você vai ficar de saco cheio desse cara e vai acabar dizendo “eu sou um robô, me deixe em paz”.

          Eddy sorri, mas não estou certa se entendeu o que eu disse, embora fale um romeno galopante. Em seis meses já conseguiu tirar de letra, pode andar livremente por qualquer rua.

          - Melhor você passar para as chamadas. E aí salva a nossa pele.

          Nós ainda não nos acostumamos a ter de lidar com todo tipo de maluco na linha. Me olho no espelho e falo com todos os doidos e repito o nome deles três vezes durante a chamada, para deixar bem claro que eles são importantes para a gente.   

          Embora não seja da sua alçada, Cristi começa falando que a equipe está meio jururu, é isso o que se nota, e que nós precisamos de umas atividades para levantar o astral. Geralmente são joguinhos que nós próprios temos de bolar e depois oferecemos uns presentinhos uns aos outros. Normalmente os prêmios nessas atividades de animação são coisas comestíveis. E quem tem a iniciativa de propor uma dessas atividades ganha pontos na avaliação.    

          Escaneio mentalmente a gaveta mercado de pulgas lá de casa, onde eu tenho berloques, livros lidos e cosméticos vencidos, coisas que eu guardo para amigo-oculto. Muito bem, estou salva.

          - Vocês tem que se conhecer melhor, diz Cristi.

          - Je m’en vais, Eddy dá um risinho, e de repente ele me parece vulgar, como se tivesse acabado de dizer um palavrão e é como se as coisas fossem ficar ainda piores sem ele por aqui. 

          - E já que estamos discutindo sobre esse assunto, espero que tenham visto hoje de manhã na intranet que uma menina do tablado 3 faz aniversário hoje, na equipe Boygues Telecom. Estão fazendo uma vaquinha.

          Vi na intranet, mas não a reconheci pelo nome, talvez eu respire no cangote dela todos os dias no elevador, talvez ela seja gente boa, mas ainda sou muito nova aqui para ficar contribuindo em vaquinhas.      

          - E se for um caso de usurpação de identidade? Eddy me pergunta.

          As respostas padrão já contaminaram o seu modo de se expressar até mesmo quando ele fala baixinho, naquelas ocasiões onde podemos considerar que são “a vida pivada”.

          E aqui no trabalho sou eu a vida privada de Eddy.

          - Acho que não. Quebrar a cabeça assim a troco de quê?

          - Poderia fazer uma outra conta...

          - Exatamente.

          - Deve ser um velho, não sabe nenhum macete.

          - Digita só com um dedo.

           Seguramos o riso, e Cristi, que já começou o blá blá blá dele, olha fixo para a gente, gesticula com exagero e bate sem querer a mão na mesa redonda onde estamos todos. O choque se transmite em círculos, e meu monitor pisca quando se mexe a superfície embaixo dele, como se piscasse amedrontado.

          Começa a falar mais alto e diz outra vez que na hora da escolha dos turnos temos que discutir entre nós, porque senão vai acontecer de o horário de um se sobrepôr ao do outro e aí vai sobrar para ele ter de colocar ordem na casa.

          - E depois vocês colocam a culpa em mim.

          Bate novamente com a palma da mão, dessa vez de propósito, e meu monitor pisca de novo com medo.

          - Vêm aí as festas de fim de ano, quem pedir primeiro tem preferência.

          - Quando você vai embora? pergunto a Eddy.

          - Se entro de aviso prévio hoje... daqui a um mês, acho.

          Nem quero pensar que o fim de ano está chegando e que não vão contratar ninguém para o Natal  e que vamos continuar sem ninguém. As horas extras que fazemos não são pagas com dinheiro e sim com dias de folga, mas se acumularam tantas e ainda temos tanto serviço para fazer que eles precisariam recrutar alguém só para nos substituir enquanto tiramos as folgas. 

          - Vou recomendar Claudia.

          Também ela trabalha num call center, mas por um salário menor do que o dele.

          Cristi vê que cochichamos, olha fixo na nossa direção, mas é obrigado pela política da companhia a se expressar apenas em francês e para ele é meio chato implicar com um nativo. Sem falar que Eddy é muito mais alto. E mais bonito.

          Chegou em Bucareste carregado de informações sobre a Romênia. Sabia de cor os dados do último recenseamento, sabia estatísticas, sabia que os homens romenos são os de menor estatura da Europa.

          - Por Europa você entende o quê? A União Europeia ou todo o continente?   

          Parou para pensar, mas até ele sacar eu já tinha começado a rir.

         Desde então ele completa constantemente as fichas com informações, na mente dele, somente gavetinhas com “Você sabia que...”. Quer extrair o máximo que pode dessa experiência, quer aprender mais e mais.

          Bem que eu queria saber para onde ele vai, o que pensa em fazer, o que valeu a pena aqui, mas isso significaria que teríamos que marcar para sair e tomar um café no centro da cidade, então caio na real de que não quero investir tanto nele. A nossa relação só tem sentido enquanto ainda somos colegas aqui nesse prédio. E com certeza vai terminar quando ele for embora.      

          - E se esses caras daqui te oferecerem mais?

          Faz un sinal negativo com a cabeça.

          - É uma vaga de engenheiro. Eu sou engenheiro.  

          Adela, à minha direita, me pergunta no ouvido se quero algo do Toscana, porque ela também quer fazer um pedido. Saca o telefone e me mostra o menu na tela tátil, não temos internet nos computadores, nem sequer dicionários eles permitem, até tentamos convencer Cristi há um tempo atrás, pelo menos o Larousse, até você sabe que isso é um dicionário, e ele disse rindo: Vocês são gente de sorte por terem Eddy, só é perguntar a ele.     

          - Sim, uma salada daquela de ontem.

          - Mediterrânea?

          - Sim.

          Depois de Cristi é a vez da nossa chefe de equipe, com um feedback personalizado e debate com base nas avaliações. Olha pela janela da sala de reuniões, Cristi se levanta da cadeira e, inclinado, começa a fechar todas as aplicações abertas do laptop.

          Vou de novo até ele.

          - Cristi, e então?

          Pronuncio o nome dele, segundo as instruções, para que ele veja que eu me importo. Vou aprová-lo, segundo as instruções, para que ele veja que o mais importante é ele.

          - Posso continuar depois do horário? 

          Não queria encher o saco dele, mas até parece que quero, para que ele diga de uma vez tome esse diabo de vale e vê se me deixe em paz.   

          - O dia de hoje tá saindo caro pra mim, nem sei se tenho grana pra dar àquela menina.

          Está ocupado tirando o laptop da tomada, se enfia embaixo da mesa.

          - Pô Cristi, você não vai pagar do seu bolso.

          Demora a sair debaixo da mesa.

          - Ou então eu venho amanhã mais cedo.

          Um problema a mais é que a partir do terceiro atraso começam as penalizações no salário. Mais uma mancha indelével na sua ficha pessoal, uma espécie de atestado de antecedentes criminais que te puxa para baixo caso você queira escalar na hierarquia. Todos os que passaram pela assistência ao cliente – e absolutamente todos da companhia, inclusive a diretora geral na Romênia, começaram dali, de baixo – tiveram manhãs perfeitas quando já estavam com os fones de ouvidos na hora da abertura das linhas telefônicas.

          Adela vem até mim.

          - Fiz os pedidos, o cara vai vir.

          - Certo. Te dou a grana daqui a pouco.

          Volto para minha cadeira, mas reparo que minha bolsa, com a carteira, ficou no meu lugar lá do tablado de produção.

          - Quanto era? pergunto a Adela.

          - Dez lei.

          - Peraí que venho já.

          Vou em direção à porta e volto outra vez até Cristi. Está de costas e ainda mexe nos fios.

          “Idiota”, penso.

          Dou de cara com a chefe da equipe.

          - Vê se não demora, começamos já.

         - Meio minuto, digo, e então me puxo para baixo pela cordinha, inclino-me com o cartão magnético do pescoço até abrir a porta da antessala e quase que permaneço assim inclinada porque logo em seguida tem mais outra antessala.

*Na Romênia medieval era o título dado aos governantes das regiões da Moldávia, Valáquia e Transilvânia. (N. T.)   

**A moeda da Romênia é o “novo leu” ou simplesmente “leu”, sendo o plural “lei”. (N. T.)


 

 

 

Primavera 2015 / Museu das conversas desencontradas

 

Lavinia Branişte

Nascida em 1983, em Brăila, na Romênia, debutou com poesia em 2006 e escreveu mais dois volumes de narrativas curtas. De seu último livro “Escapada” são os contos traduzidos. “Encarnações do ser humano moderno preocupado com a carreira e com o seu status na sociedade, os personagens de Lavinia Branişte sonham com enriquecimento material e reconhecimento social, esquecendo-se da família e dos amigos. Porém, no mais das vezes, o trabalho estafante, a obsessão com a própria imagem e o distanciar-se dos amigos pode acarretar consequências insuspeitas. Cada texto de “Escapada” retrata e amplifica, sutil e ironicamente, a imagem de um probelma provocado pelo estilo de vida atual. O trabalho nas grandes companhias multinacionais, o mundo universitário, acontecimentos simples ou relações fracassadas são o ponto de partida para histórias de muito chame e substância.”

André Carlos A. Heliodoro

André Carlos Arruda Heliodoro é pernambucano e passou a maior parte da infância na cidade de João Alfredo. Estudou até a sétima série na vizinha Limoeiro, cidade onde nasceu no dia 2 de junho de 1979. Foi morar no Recife em 1993, concluiu os estudos no Colégio Marista e formou-se em Comunicação Social (turma de Radialismo e TV) na UFPE em 2002. Em seguida ainda estudou Ciências Sociais na mesma universidade, porém, não concluiu o curso. Trabalhou sete anos como pesquisador de campo coletando dados para as pesquisas de emprego e desemprego do IBGE (de 2005 à 2007) e do DIEESE (2008 à 2013). Teve um primeiro contato com a língua romena ainda na época em que era estudante de Comunicação, quando, por acaso, com o rádio transistor que era do seu avô, escutou um programa em romeno transmitido em ondas curtas pela Rádio Romênia Internacional. Cativado pela musicalidade do idioma, decidiu estudar a língua como autodidata depois que encontrou dois velhos manuais de romeno na biblioteca da universidade. O estudo da língua fez com que ele manifestasse um interesse incomum em conhecer mais sobre a cultura romena (especialmente história, sociologia, cinema e literatura). Visitou a Romênia pela primeira vez no mês de agosto de 2012, mora em Bucareste desde março de 2013 e ainda não perdeu nada de seu entusiasmo inicial de querer saber e entender mais sobre a Romênia, seu povo e sua cultura.

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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