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Encontro com um assassino

Conto de Lena Luiz

- Eu disse a ela: ‘você está muito bonita’, e senti que meu rosto queimava. Eu sabia que tinha ficado vermelho. E ela riu. Riu de mim. Foi por isso que eu a matei.

Ele falava olhando para o vazio. Com os ombros caídos, as costas curvadas, os joelhos e pés bem juntos e o cabelo oleoso, era a imagem do sujeito recalcado, rejeitado, inseguro, doentiamente tímido. Um cara que poderia perfeitamente descambar da timidez para a nóia e matar uma mulher por rir dele.

No entanto, se a pessoa não olhasse para ele, se considerasse apenas os dados biométricos em um formulário, por exemplo, seria possível formar uma imagem bastante diferente: 1,72m de altura, 70 quilos, 50 cm de ombro, cabelos e olhos castanhos são dados que podem descrever um galã, certo? O Tom Cruise é menor que isso.

Era esse o tipo do indivíduo que estava ali, sentado de lado na cadeira de forma a ficar voltado para mim, e não para a mesa: alguém que provoca dúvida, confusão, incerteza.

Ele entrara na padaria enquanto eu tomava meu café da manhã e, sem hesitação, se aproximara da minha mesa.

- Você é jornalista, não é? – perguntou. Sem esperar que eu, com a boca cheia, acenasse afirmativamente, sentou-se na cadeira ao lado da minha. 

- Preciso contar uma coisa. – e, sem qualquer intervalo, sem precisar de estímulo, contou. Contou, sem preâmbulos, sucintamente, objetivamente, que matara uma mulher.

Claro, loucos são chamados de loucos por não seguirem padrões, mas, mesmo assim, tanta iniciativa não combinava com o perfil que fazemos mentalmente de um indivíduo mentalmente insano.

Não apenas pela estranheza da situação, mas por princípio e por todo meu treinamento profissional, não ia tomar aquela declaração como fato, mas também não podia ignorar a possibilidade de estar ouvindo a legítima confissão de um assassino. Neste caso, minha obrigação de descobrir a verdade ia além do dever profissional. E, mesmo se fosse mentira, gostaria de saber o motivo para um doido – se fosse doido – contá-la para mim na manhã de um domingo.

- Camarada, eu vou precisar lhe fazer um monte de perguntas, e vou precisar anotar as respostas. Tudo bem pra você?

- Perguntas?

Se ele havia imaginado que eu não faria perguntas, normal é que não podia ser. No mínimo se tratava de um burro muito ignorante. 

- Para começar, eu preciso saber quem foi que você matou.

Ele não sabia. Só sabia que ela estava lá parada, ele disse que era bonita, ela riu, ele matou.

O absurdo era tamanho que comecei a me arrepender de ter dado trela pro indivíduo, mas a essa altura dos acontecimentos a curiosidade já superara toda a irritação que os absurdos pudessem provocar. Além disso, não estava atinando com um meio de me livrar do cara.

Então, continuei:

- Lá, onde? E quando foi que aconteceu?

- Eu saí andando – ele disse. Aquilo não parecia uma resposta à minha pergunta, mas continuei ouvindo. – Andei, andei, andei muito, para poder pensar. Eu tinha achado que a culpa era dela, por ter rido. Mas a culpa também era minha. Ela não teria rido se eu não tivesse falado que era bonita, ou se não tivesse ficado vermelho! Qual motivo eu tinha para corar? Não estava mentindo, estava? Qual a minha vergonha? Ter a coragem de falar com uma mulher? Ter a coragem de elogiar uma mulher? Mas não é isso que os bacanas fazem? E, se a culpa não era dela nem minha, de quem era a culpa? E se ela não riu, se apenas sorriu? Ou, se riu por ter ficado feliz? Eu estava muito, muito confuso. E muito cansado, também. Por isso eu dormi, dormi muito. Andei por muitos caminhos e dormi por muitos dias e noites, até encontrar você, até poder lhe contar.

A dúvida quanto à sanidade mental do indivíduo já não existia, claro. Agora eu me perguntava como fazer para conseguir que recebesse atenção especializada. Claro que, se não tivesse certeza de que havia cometido algum crime eu não podia, simplesmente, chamar alguém para colocá-lo em camisa de força. Ser louco e continuar louco é um direito que todo mundo tem.

Eu precisava ganhar tempo para pesquisar se acontecera algum crime com aquelas características sem perder de vista o “principal suspeito”. O problema é que ainda não sabia, na verdade, que características eram essas. Mais uma pergunta, então, para tentar obter algum dado palpável, plausível:

- E como foi que você a matou?

E o estranho (muito, muito estranho) respondeu:

- Com o pensamento.

Foi demais. Não pude me conter. Eu ri. Eu gargalhei. E, enquanto gargalhava, tive minha resposta: era tudo verdade. O ódio nos olhos dele me fulminou, e eu caí morto.

 

 

 

 

Primavera 2015 / Museu das conversas desencontradas

Lena Luiz

Ao longo de 60 anos fui muitas, todas compostas por mais silêncios que sons, mais esquecimentos que lembranças, mais luz que sombras. Minha fórmula inclui pouca água, pouca modéstia, menos medos que indignações. Muitas indagações. Pouca saudade. O veículo q.s.p. é, basicamente, ansiedade. Quando, por cima da ansiedade, bate depressão, a coisa complica.  Mas nada que abale minha auto-estima ou me faça perder o humor. Publiquei como co-autora entre outros o livro Desmemórias, pela editora AGBook.

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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