Início          Edição atual          Edições anteriores          Blog          Corpo editorial          Normas para publicação          Quem somos?          Contato         

 

Pé de múmia

Conto de Marcella Lopes Guimarães

Voltou para o hotel mais cedo. A noite anterior tinha sido animada pelo reencontro com amigos, do bar à cama. Depois do almoço não havia mesmo nada que quisesse particularmente apreciar. Fugiu. Pegou a chave na recepção. Passou pelo corredor, ladeado por vasos de plantas de folhas grandes e redes. À esquerda uma piscina. Por que ninguém havia lhe avisado que o hotel tinha piscina? Acostumado a experiências mais urbanas, trouxera o tênis para se exercitar. Sentiu-se fracamente contrariado pela impossibilidade pontual de não aproveitar a piscina.

A rede mais próxima à fila de quartos estava ocupada. Passou reto. Dormiu duas horas. Acordou atordoado, não era a primeira vez que hesitava sobre a própria localização. Ainda mole, esticou-se na cama para a ousadia de uma nesga de janela, acanhado pela possibilidade de ser surpreendido no quarto, depois da fuga do seminário. Olhou por acaso para a rede que tinha visto ocupada e percebeu que ela continuava na mesma. Foi só aí que viu o pé. Um pé pequeno, sem esmalte, esfolado delicadamente no calcanhar, com um calo sutil no dedão, assexuado. Esse pé balançava a rede, mas sem animação. Errava o ritmo, de vez em quando parava, depois empurrava, apontava para o alto em uma perna que não se via bem que pelo que tinha. Ficou olhando aquele pé realista, achando graça de ter vindo ao seminário falar sobre os contos fantásticos de Théophile Gautier... “Le pied de momie”: Eu tinha entrado sem vontade em uma dessas lojas de curiosidades, de bric-à-brac... Percebi um charmoso pé que tomei por um fragmento de uma Vênus antiga. Esse pé me interessa.

Olhou o pé até ouvir vozes conhecidas. Os colegas voltavam das atividades da tarde. O mais puro tipo egípcio deu a mão à princesa Hermonthis. Reconheceu-a de orelha de livro. Levantou rápido da cama, antecipando o toc-toc. Ainda havia tempo antes do jantar.

Refrescado, parou na recepção para esperar os colegas. Ela vinha displicente de tudo. Ele procurou o seu lado à mesa. Sentiu-se ambivalente, à vontade. Deu-lhe espaço para cruzar as pernas e facilitar a liberdade do pé, que se despediu do couro do chinelo e ficou nu. Ela pediu uma bebida e os dois sorriram à surpresa do mesmo gosto. Duas, por favor. Reparou na cabeleira negra mal salpicada; no segundo furo da orelha, despovoado de brincos; na sobrancelha mal feita; nos dentes pequenos de criança e no buço sobre o lábio superior, um sorriso suplementar? Ao erguer o copo, reparou que ela tinha unhas pequenas, pintadas de natural, enfeitadas de cutículas. Reparou que a displicência, ampliada pelos efeitos da bebida, favorecia uma nesga direta para a curvatura do seio. Sentiu uma emoção infantil ao lembrar que a mãe costumava explica-lo à família a partir do seio. Em razão da longa experiência de amamentação, cansara simplesmente das mulheres. Ele renunciara ao desejo de ostentar a impossibilidade de comprovação científica da hipótese, bem como de explicar à mãe que se mantinha irrestrito.

A mulher da orelha do livro, dona do pé, também adorava aqueles contos fantásticos de Théophile Gautier, sobretudo “Arria Marcella”. Ele ousou segredar a sua preferência por “Le pied de momie”... Ela descruzou as pernas, calçou o chinelo e pisou levemente o pé dele, localizado na direção em que o dela haveria de pousar, como se esperasse aquela chance. Era você que eu esperava e esse frágil vestígio conservado pela curiosidade dos homens, por seu magnetismo secreto, ligou-me à sua alma. Machucou? Não foi nada.

No dia seguinte, discorreu sobre a concepção de Oriente nos contos fantásticos. Havia uma miscelânea de exotismo que Gautier localizava em um Oriente que ia do sul da Espanha ao Egito. Tudo aquilo que o homem racional varreu da vida ordinária para o imaginário; o conjunto multiforme de seus desejos incongruentes virava Oriente para esse francês do século XIX! É antes do ópio que minh’alma é doente. O desejo se acendia no detalhe, na sombra, no resto, fragmento, pé de múmia, pegada. Pisada? Ela aplaudiu. Houve debate. Perguntas sobre o orientalismo. A tudo ele respondeu com desenvoltura e amplitude. O seu dia era ao último dia.

Inventou um presente a lhe oferecer no hotel, um de seus livros encalhados. Toc-toc. Ela abriu a porta de roupão, afinal sempre soubera da piscina. Que interessante, obrigada. Pena não ter nada à altura. Ele sorriu, fingiu timidez para olhar para baixo. Os pés dela marcavam o chão com sua umidade natural. Ela se afastou para guardar o livro na mala e ele ocupou a pegada. Foi um prazer. O prazer foi todo meu.

 

 

 

Primavera 2015 / Museu das conversas desencontradas

Marcella Lopes Guimarães

Marcella Lopes Guimarães é formada em Letras, Mestra em Literatura Portuguesa e Doutora em História. Atualmente é Professora Associada de História Medieval na UFPR e pesquisadora do laboratório de pesquisa NEMED (Núcleo de Estudos Mediterrânicos). Atuou como crítica literária no Rascunho por quatro anos. Publicou obras dedicadas aos estudos literários, como: Visões da cidade: um passeio por Rua de Miguel Torga, pela Editora Juruá, e Literatura dos anos 90: diversidade cultural e recepcional também pela Juruá; artigos em revistas brasileiras e estrangeiras, mas tem um carinho muito particular pela coleção de livros para crianças sobre Identidade, Alteridade e Memória, pulicados em 2013, pela Editora Positivo. Oura realização sobre a qual gosta de falar, na área da Historiografia, é o seu Capítulos de História: o trabalho com fontes, editado pela Editora Aymará e selecionado no PNBE do Professor em 2013. Marcella Lopes Guimarães teve poemas seus publicados no Rascunho; o conto “Os óculos”, publicado na Revista Flaubert este ano e já publicou na Revista Raimundo o conto “Pequena História da Leitura” (edição de Inverno: Não sobre o amor). É criadora do blog LITERISTÓRIAS, onde escreve “crônicas da vida acadêmica”, entre outras produções entre a História e a Literatura.

Blog da autora

www.literistorias.org

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

A revista

Edições anteriores

Blog

Corpo editorial

Nossos artistas

Autores (breve)

Colabore com a Raimundo

Normas para publicação

Contato