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Seu Ionescu

Conto de Ruxandra Cesereanu / Tradução de André Carlos A. Heliodoro

Setenta e um anos vividos na casa de número 5 da Rua das Peônias. Aqui veio ao mundo Seu Ionescu e era aqui o lugar onde pensava em terminar seus dias. Foi aqui onde vira pela primeira vez o rosto dos pais, onde aprendera o ofício de relojoeiro, onde no quarto da frente tivera sua relojoaria, oficina passada de pai para filho. Para aqui trouxera a esposa quando se casaram. Ah, Irina, que beleza de mulher, linda como uma corça comendo uvas aveludadas! Aqui nascera seu único filho que viria a morrer num acidente aéreo, aqui também acompanhara o sofrimento da esposa doente até o momento de sua morte há dois anos. Estava só no mundo, apenas ele e a casa que se lhe tornara como que uma segunda pele. Nas paredes da sala retratos dos que viveram e moraram aqui: seus pais no dia do casamento, os avós quando se encontraram com o rei Ferdinand, ele e a esposa, o filho que morrera, todos ali nas paredes e somente daquela posição podendo observá-lo e sussurrar-lhe gracejos ou palavras carinhosas. 

Na sala também havia uma coleção de centenas de relógios de todas as marcas e tamanhos, alguns já consertados, outros adquiridos da feira de antiguidades para ampliar o mostruário. Os relógios foram o seu ganha-pão, seus melhores amigos de lida e de prosa. E só com os relógios ele ainda falava, uma vez que já não tinha mais com quem conversar. É verdade que saía de casa até a mercearia para comprar algo e por lá palavreava com os vizinhos da rua. Mas, de uns tempos para cá, ninguém queria falar mais nada, todos tinham se mudado, pernamencendo apenas ele na Rua das Peônias. Seu Ionescu, sozinho e esperando seja o que fosse, dilúvio, tornado, tufão, furacão ou apocalipse.     

Há dois meses que Seu Ionescu sabia que iria morrer em sua concha de caracol, desde quando recebera aquela notificação informando-o que teria de se mudar, uma vez que a casa será demolida para a construção de um bulevar de proporções gigantescas como bem convém a capital da nação e conforme as exigências do camarada Ceausescu*. Mas o que seria dele num bloco residencial? Várias vezes o funcionário da prefeitura viera convencê-lo a se mudar mas em todas as ocasiões Seu Ionescu polidamente dizia-lhe: Cher ami, me mudar nem morto, aqui nasci, aqui findarei, e ponto final. Podem vir com o buldôzer e demolir a casa comigo dentro porque daqui não saio. Pois é justamente isso que vai acontecer, o prevenira o temeroso funcionário da prefeitura olhando o velho não sem surpresa. A construção do bulevar não vai ser interrompida por causa de um velho maluco que não quer se mudar! Exatamente, aprovou Seu Ionescu. Cher ami, é exatamente assim como o senhor está dizendo.    

Em seguida apareceu um securista jovem** de cabelo bem curto e cara limpa tentando dar-lhe uma dura. Vovô, se passarem com o trator você morre de graça, ninguém vai chorar por você não. Mas já não tem mesmo quem chore por mim, foi a réplica de Seu Ionescu. Vovô, ainda disse o rapaz balançando a cabeça exprimindo reprovação, você tá querendo é instigar o pessoal do estrangeiro a falar mal da gente, não é? Quer que eles digam que aqui é só miséria e desgraça. Cher ami, é exatamente assim como o jovem está dizendo também. Então, para quê gastar saliva à toa? Daqui não saio.          

         Depois veio também um securista velho, tentando francamente convencê-lo a não cometer uma insensatez. Veja que não é difícil para o Estado Romeno te meter em cana ou então no hospício. Que me metam, disse Seu Ionescu. Essa é minha forma de protesto: daqui não saio. Não faço greve de fome, não vou para a rua com cartazes, não grito contra o Partido - porque também eu fui membro, ora bolas! -, não mando ninguém para aquele lugar, nem mesmo Ceausescu, mas que fique bem claro: DAQUI NÃO SAIO. Fico aqui com meus relógios com tudo.    

Certo dia os securistas vieram com alguns enfermeiros e uma camisa de força para enfiar Seu Ionescu nela e levá-lo a um asilo. Mas estes, depois de uma conversa com o velho relojoeiro, recusaram-se a agir. Quer morrer e não podemos fazer mais nada, melhor deixá-lo no seu canto, dissera o enfermeiro mais velho. Os securistas, porém, não aceitaram esse desfecho e acabaram levando Seu Ionescu na marra até o asilo mais próximo e obrigando o médico de plantão a aprontar sua ficha de internação. Ainda assim, mais do que um dia inteiro Seu Ionescu por lá não ficou, deu um jeito de escapulir de volta para a casa da Rua das Peônias número 5. Conseguira convencer os médicos a lhe darem alta? Se aproveitara da desatenção do pessoal daquele asilo caótico e fugira? Ninguém sabia.      

Na volta comprara pelo caminho latas de peixe, pão para fatiar e torrar, legumes em conserva. Ainda tinha em casa doces de frutas, molho de tomate, biscoitos, farinha de milho, também macarrão e até umas batatas. Assim, não precisaria se preocupar com comida e poderia sobreviver sossegado pelo menos até a hora quando viesse o buldôzer. Outra coisa importante fizera Seu Ionescu: montou barricada na própria sala de estar, fechou as persianas, bloqueou portas e janelas com a mobília para impedir a entrada de possíveis agressores. Apenas deixou livre o acesso ao banheiro, para poder fazer suas necessidades de modo civilizado. Fora de questão morrer na merda, já havia merda demais em toda a Romênia. No fim das contas nem os securistas voltaram a aparecer e nem o funcionário da prefeitura. Só restava a visita dos operários da demolição, aqueles do buldôzer.

Então Seu Ionescu fez algo extremamente reconfortante: pusera-se a recapitular sua vida, os episódios essenciais e perfumados, e também as sequências mais duras do que lhe fora dado viver. Nem mesmo estas eram de se jogar fora. Às vezes tocava os relógios da coleção, porque cada peça evocava uma certa passagem de sua existência não só de relojoeiro, mas de filho, homem, esposo e pai. Lembrou-se da Bucareste de outros tempos, seus bares pequenos e convidativos, as floristas ciganas e os engraxates. Também lembrou-se dos domingos na Avenida, dos passeios de bicicleta e das carruagens das damas de companhia, de tangos ressoando em algum casarão escondido entre moitas de lilás e jasmins. Rememorou os cabarés animados e as livrarias onde se demorava a escolher álbuns de vários temas, de borboletas, de selos e, claro, de relógios.

Oh, como adorava ele o traje rendado das damas, com luvas até os cotovelos e chapéus largos que nem roda de carroça! Sentiu o cheiro do milho assado na brasa, nas ruazinhas de outrora com cervejarias e jogadores de baralho, e sentiu ainda o insuperável aroma dos charutos importados de países exóticos e trazidos com a ajuda de barcos holandeses que aguardavam ancorados no porto de Tomis, de onde os armadores os transportavam de carroça para a capital. Seu Ionescu não deixou escapar nada, lembrou-se da bela Irina cheia de vida, do menino deles, Matei, que morrera jovem, recordou-se de tudo e de todos. Depois parou. Tudo isso durara não apenas horas, mas talvez dias inteiros. Estava satisfeito por ter conseguido se despedir das coisas e das pessoas, do jeito como tinha que ser. E agora o quê? Que mais poderia fazer?

Tirou de uma gaveta uma fotografia amarelada e escondida por muito tempo, com as bordas já um tanto enegrecidas. Na verdade era um cartão postal mostrando o rei Mihai moço. Alguém dera o cartão a seu pai em uma parada militar, há muito tempo, antes da invasão dos russos. O jovem monarca, que tinha até autografado o cartão, participara daquela parada e depois ainda apertara a mão das pessoas que por lá se encontravam. O que o rei estaria fazendo agora? Perguntou a si mesmo Seu Ionescu. Sabia que o rei mora na Suiça e que é pai de cinco filhas, parece. Seu Ionescu olhou a fotografia do rei Mihai na flor da idade, com o cabelo liso, penteado para trás como um capacete, olhos arqueados, lábios que mais pareciam cerejas. Colocou a fotografia do rei junto daqueles outros retratos de família à vista. Era isso então o que restava fazer. Oh Capitain! My Captain! recitou absorvido e melancólico Seu Ionescu, não só para o rei como também para si mesmo. 

Depois esquadrinhou todo o quarto e descobriu no canto da biblioteca um calhamaço com fecho de couro. Segurou com força aquele livro, era a Bíblia da família que o seu pai tinha recebido de um monge do Norte, um sobre cuja pessoa circulava o boato de que fora santo. De tão ressequida que estava pelo tempo a Bíblia sibilou como uma cobra cascavel quando Seu Ionescu abrira ao acaso justamente no fim, no livro do Apocalipse de São João Evangelista. Talvez isso fosse um sinal, ou talvez não. Pelo sim, pelo não, Seu Ionescu pusera-se a ler sem parar. Era ainda bem jovem quando lera algo da Bíblia pela última vez. Leu, leu e leu e por fim pensou se de certa forma esse texto supremo do Apocalipse não precisaria ser entendido como uma batalha contra a demência. Contra a demência dos tempos, dos homens, das coisas. Como uma batalha de vida e de morte. Seu Ionescu releu e não se saciou: a avalanche daquelas palavras cheias de veemência do Apocalipse fazia-lhe bem, o consolava, tanto mais porque na avalanche em questão eram dominados e castigados a Fera, o Dragão, a Grande Prostituta, Babilônia, Satanás e todos os seus apetrechos e instrumentos. 

Era um livro duro e lindo esse do Apocalipse. Somente depois de relê-lo algumas vezes foi que Seu Ionescu, com certo arrebatamento místico, reparou melhor naquela simples frase no fim do capítulo doze, quando São João humildemente fala sobre si: E eu pus-me sobre a areia da praia. A única criatura que continua impassível ao espetáculo do Apocalipse é ele, o profeta sereno. Que venha o tufão da morte, do mal ou da loucura, o profeta permanece tranquilo na areia da praia: mas não de qualquer jeito e sim como um eclesiástico de nova cepa. Sabe o que é o mal até o limite, sabe que advertiu a todos, sabe qual é a solução: que nada mais lhe resta do que assistir aquilo que acontecerá. E eu pus-me sobre a areia da praia.

A casa da Rua das Peônias número 5 balançou levemente, como um pássaro pego pela tempestade, depois desabou devagar aprisionando o poeta sereno em suas entranhas de entulho e desastre. Ninguém nunca pôde confirmar se os operários do buldôzer sabiam ou não que naquela casa da Rua das Pêonias número 5 ainda encontrava-se e vivia um senhor chamado Ionescu, antigo relojoeiro. 

*Construção do Bulevar Vitória do Socialismo, mais um dos muitos projetos megalômanos que marcariam os últimos anos do regime ditatorial conduzido por Nicolae Ceausescu. (N. T.)

**“Securista” (securist no original) é o termo genérico para designar os membros da polícia secreta romena na era comunista, a temida Securitate (“Segurança” em romeno), cujo nome oficial era Departamento de Segurança do Estado. (N. T.)   


 

 

 

Primavera 2015 / Museu das conversas desencontradas

 

Ruxandra Cesereanu

Nascia em 17 de agosto 1963 em Cluj-Napoca na Romênia, Ruxandra Cesereanu é poetisa, novelista, ensaísta e também romancista. Atualmente é professora universitária na Faculdade de Letras de Cluj-Napoca, cátedra de Literatura Comparada. As histórias traduzidas fazem parte de seu último romance “Un singur cer deasupra lor” (Um único céu acima deles), no qual a autora trabalhou dez anos antes de sua publicação em 2013. "Um romance-afresco sobre as transformações acontecidas na Romênia desde o início da instauração do sistema comunista até o período pós revolução de 1989, romance construído de pequenas histórias de pessoas que fizeram parte do poder comunista ou que lutaram contra ele, guerrilheiros nas montanhas, deportados, presos políticos, opositores, dissidentes, policiais, militares, presidentes, torturadores, delatores e muitos outros, vítimas e opressores, todos vivendo sob aquele mesmo céu, entre 1945 e 1991, limites cronológicos deste afresco épico".

André Carlos A. Heliodoro

André Carlos Arruda Heliodoro é pernambucano e passou a maior parte da infância na cidade de João Alfredo. Estudou até a sétima série na vizinha Limoeiro, cidade onde nasceu no dia 2 de junho de 1979. Foi morar no Recife em 1993, concluiu os estudos no Colégio Marista e formou-se em Comunicação Social (turma de Radialismo e TV) na UFPE em 2002. Em seguida ainda estudou Ciências Sociais na mesma universidade, porém, não concluiu o curso. Trabalhou sete anos como pesquisador de campo coletando dados para as pesquisas de emprego e desemprego do IBGE (de 2005 à 2007) e do DIEESE (2008 à 2013). Teve um primeiro contato com a língua romena ainda na época em que era estudante de Comunicação, quando, por acaso, com o rádio transistor que era do seu avô, escutou um programa em romeno transmitido em ondas curtas pela Rádio Romênia Internacional. Cativado pela musicalidade do idioma, decidiu estudar a língua como autodidata depois que encontrou dois velhos manuais de romeno na biblioteca da universidade. O estudo da língua fez com que ele manifestasse um interesse incomum em conhecer mais sobre a cultura romena (especialmente história, sociologia, cinema e literatura). Visitou a Romênia pela primeira vez no mês de agosto de 2012, mora em Bucareste desde março de 2013 e ainda não perdeu nada de seu entusiasmo inicial de querer saber e entender mais sobre a Romênia, seu povo e sua cultura.

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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