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Da nossa memória fabulamos nóis mesmos*

Ensaio de Rafa Ireno

“A cidade é uma só?” (2013) e “Branco Sai, Preto Fica” (2015) de Adirley Queirós passando na galeria Olido, ali na República, uma experiência interessante. Numa sexta feira, às 19hs, o público não dá 15 pessoas. Geralmente, homens. Sozinhos, sentamos todos separados numa atmosfera estranha, não sabemos. A luz se apaga, um deles sai com 5 minutos, outros abandonam a sala no meio, poucos ficam até o final. Um rapaz levanta, sai, volta, sai novamente, volta. O Cine Olido é o trânsito dentro do cinema, que causa certo desconforto típico, mas contribui para a fabulação da película. Por sua vez, os filmes têm como cenário, personagens, roteiro, sala de cinema, República, São Paulo, nós, tudo se transformando em Ceilândia. Isso mesmo, o diretor Adirley descobriu um jeito de contar histórias através de sua quebrada: ele reelabora a história do lugar, colocando-a entre os limites da realidade e da ficção, e assim, apresenta um lado do Brasil, que insiste em se esconder atrás de nós mesmos, brasileiros. Um bêbado entra na sala com suas verdades injuriadas, um senhor de bem se pergunta como deixam essas pessoas entrarem no cinema, nenhum dos dois ficou até o final. Por quê? Oscar Niemeyer, Burle Marx, Lúcio Costa, sabem-se todos os nomes da construção de Brasília, plano piloto, avião, asas, 1960, concreto. O primeiro filme se baseia no que ficou chamado de Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), momento em que o Estado se organiza para expulsar mais de 80 mil pessoas da Capital Federal para a periferia. O Segundo acompanha um agente do futuro, que precisa encontrar provas para incriminar o governo brasileiro por crimes contra povos marginalizados, no caso, a repressão de um baile Black. Antes de sair, o ébrio gritou “são todos fantasmas” e esquizofrênicos também, querido. Desenvolvemos instituições educacionais, culturais e governamentais que apagam, dia após dia, uma parte essencial de nós. Brasileiros? Ceilândia foi inaugurada em 1970, mesmo ano que a família se mudou para o extremo sul da capital paulista, ruas de terra sem nome, trabalho longe, busão lotado, pessoas cansadas, a periferia daqui no Distrito Federal. Os filmes acabaram...e os aplausos são deixados para depois. Levantamos os três últimos que ficaram no cinema, nas periferias da sala, solitários, em Ceilândia.

*Frase que aparece nos créditos do filme "Branco sai, preto fica", de Adirley Queirós (2015).

 

 

 

Primavera 2015 / Museu das conversas desencontradas

Rafa Ireno

Rafa Ireno é um prosador da Zona Sul de São Paulo, do Chácara Santana, da periferia. Neste momento, termina a pesquisa de mestrado sobre as crônicas de Rubem Braga na Universidade de São Paulo e também prepara a publicação de seu primeiro livro, o 5318. Não tão amiúde como gostaria, escreve em seu blog. Pode ser encontrado, frequentemente, no Sarau da Cooperifa.

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Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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