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Lista nº mil e outros poemas

Coletânea de poemas de Roberta Santiago

lista nº mil

em maio comprar
remédios para alergia comprar
protetor solar
porque maio já é frio mas tem sol - como sempre -
e o sol como sempre mesmo em maio multiplica
as sardas as rugas
(porque não usei protetor solar no verão e quem sabe em maio
eu consiga recuperar
a pele dos vinte e três)
sprays para o nariz eu sempre me esqueço os nomes
são importantes porque maio já é frio a poeira já invade
toma todo o sistema respiratório com seus ácaros de outono
revivendo esta eterna sinusite rinite
que só se manifesta a partir de maio
em maio talvez
visitarei as escadas coloridas doídas da cidade onde várias vezes nasci
inclusive a primeira
sentirei saudades tristeza melancolia
lamentarei o sono o suor a sede
molharei a bochecha direita a bordo de um avião
e os pés, os dois,
na beira do mesmo oceano atlântico azul
e de novo voltarei
e de novo será tarde
em maio quem sabe te esquecerei completamente
te apagar com uma borracha faber castell capa verde
enquanto as meninas me fazem rir e me desprender de todas
as listas
nulas de obrigações que se perdem voam ventam sob meu corpo que habita
retilíneo a janela da sala em maio
será meu primeiro mês de maio vivendo neste apartamento quem sabe o último quem sabe em maio eu aprenda
a amar de novo
depois de uma noite de sono longa e leve
no amanhecer de uma tarde curta e fria
mas por hora,
ainda o retrato oco dos seus dentes e da mata atlântica por trás,
infinito plano de fundo.
sua boca gigante ecoando a mesma pergunta de quase anos atrás:

— onde será que estaremos em abril?

eu, aqui. bem aqui.
planejando sobre maio.
você?

e você?

longe.

não consigo lembrar em exatidão
a data precisa da quebra
talvez ela simplesmente permaneça
contínua ainda existindo
em rec memória monocromática em ritmo acelerado que já não consigo alcançar corre cada vez mais difusa
você seu filme todo seu cheiro todo sua convulsão noturna suas manias duras e a minha mágoa num rio onde sempre se alcança o outro lado se chega sempre na outra borda e foi ali onde você afundou o caiaque
eu fiquei com os pés sangrando a te esperar na outra margem
ali arquitetado chuvoso templo da espera em silêncio em vão
era quando o passear dos ponteiros mais se parecia com uma facada
rasgando o peito
mas agora
há tempos não me lembro da cicatriz
mas agora
já é quase maio

e o nosso tempo acabou

 

* * *

não se engane
sentirei sua falta
todos os dias
sentirei nossa falta
todos os dias
mesmo que não haja ao certo dia
que seja tudo luz difusa e sonho
que eu me perca a namorar o céu e então me esqueça
de todos os caminhos
mesmo que ainda estejamos juntos - todos -
mesmo que ainda estejamos todos juntos como sempre
depois de um específico espaço de horas meses semanas anos
vinte e mil quilômetros
sete goles de vinho
sentirei sua falta
porque a cada dia mudas e mudas
e o pouco que fica
sempre me fará lembrar
daquele ônibus que não pegamos
do ponto contínuo de desencontro
daquela tarde
quando caminhávamos juntos pela minha rua favorita
pegávamos o barco amarelo
rumo ao lugar onde abandonei tantos
infinitos irrecuperáveis pedaços meus

não se engane
mesmo quando eu calar
os ponteiros pararem
o silêncio parar
quando você tiver que fechar as janelas
porque de novo será inverno
vento frio e outras cores de cabelo
sobre seus braços
e então de repente verão
seus vizinhos passantes
seus pés descendo as escadas
cervejas de fim de noite
quando as roupas mudarem
os lençóis mudarem
o discurso a crença
as relações as paixões
um avião. dez. trinta.
a voz se tornar mais grave
quando as fotos perderem-se
as tintas perderem-se
as cartas os móveis
as coincidências os números
as datas
todas as lembranças físicas de um amor
guardado enterrado em um baú

quando as rugas sobrarem
meu riso sobrar
meio torto meio leve
quando
todos nós nos encontrarmos para uma volta memorável por aí
e eu não saber ao certo o que fazer
com todas as possibilidades que não se cumpriram
com toda a saudade acumulada
toda a vida acumulada
não se engane
eu não vou deixar de trazer
na exatidão do tamanho do meu peito
o sentimento daquele primeiro dia
daquela primeira vez
não te iludas
ainda me lembrarei milimetricamente
de como eu sempre coube
naquele abraço
ainda saberei desenhar calculadamente
em alma de olhos fechados
todos os poros
estrelas cadentes
pesadelos sustos
todas as mãos
nuvens rabiscos
estradas de chão
a felicidade mais pura e sincera
por trás de todas as toneladas
de angústia e de medo
meus arquitetados anulados planos
que te magoariam tanto!
meus desejos intrínsecos vazios
sabotados por tanto tempo!

às vezes a memória vem
em sonho em presente
às vezes ela vem
em um poema uma música um filme um fantasma
pedaço teu que já não reconheço
perdido pela cidade
do outro lado da rua
fingindo ou simplesmente não se importando
com a minha existência inteirinha
bem em frente a ti bem ao teu lado
até hoje não sei ao certo quando és visceral ou és ator
de seus erros -

às vezes a memória vem
em um pedaço presente teu que não me comove
em nem um aspecto
exceto por aquele
há muito perdido

às vezes a memória vem
vai,
para todos
para sempre
mas sempre
sou eu quem sigo
a carregá-la
densa comigo
metade ela metade eu
metade de tudo
o que ainda desconhecemos
tolos e limitados
e tão cheios
e tão vivos
constante acúmulo
que somos

 

* * *
 

no fim que diferença faz
algumas horas a mais
ou uma vida inteira de espera
quando alguns sentimentos simplesmente perduram
atados imóveis eles se mantêm ali
como um céu suspenso
pesado a conter silenciosamente a chuva

hoje acordei como se fosse imediata a partida
como se logo virasse memória
as pinturas os anúncios na parede do prédio da frente
mesmo que ainda seja intacta
a certeza sobre a imagem
que construo desta janela

nesta existência onde tudo é mutável
instável
- até a ausência -
fico às vezes a me questionar
em qual dos sonhos anotei
os teus sinais das costas a formar labirintos
a leveza dos meus dedos passantes pelos teus pêlos do peito
o suor dos dias de verão onde eu não pude estar
- era como se eu estivesse sempre em outro lugar -
mas mesmo assim me lembro
mas mesmo assim há saudade
onde quer que os pés saibam passear

de manhã será viva e clara a lembrança
o sonho também

quando é que nós vamos de novo
todos juntos viajar?
 

* * *

 

mas é claro que há a espera
mesmo enquanto fecham-se as portas
a tarde que parte

repassar o café
sentar-se no corredor
cadeiras de praia
vento ao caber no vai e vem
dos cabelos pela moldura os olhos em foco
usaríamos todos os verbos no pretérito imperfeito
para que não houvesse então a necessidade
dos planos futuros
ainda que se antecipassem as mesmas falas
os sonhos engraçados
sendo contados
de bom humor
é que eu
tenho sido tão diferente, entende?

tudo muda
em percepções agora
enquanto a janela intacta continuamente aberta
grita

eu mudaria até o fim do poema desta vez
é que amanhã é setembro
hoje a tarde cortou e não há preenchimento sem procura
neste incompletar-se que nos habita

qual memória
me diz
exatamente qual
se repete
ou se ata?
 

* * *

 

colocaram prateleiras na sala de casa
agora as ideias andam alinhadas
coerência dada aos pensamentos vazios de procura
era quando compreenderíamos que às vezes o não estar
traz consigo um significado maior do que a ausência

por onde seus olhos fotografavam
enquanto meu corpo caminhava
pernas pesadas ao meio dia?
quais seriam as minhas cores
se pudesses me ver nua?
- verdadeiramente despida até de nós
daquilo que não nasceu meu -

em qual futuro haveria
então o nosso vivo ponto de encontro?

estas paralelas em mim ainda doem

 

 

 

 

 

Primavera 2015 / Museu das conversas desencontradas

Roberta Santiago

Nasci em 1990, na Penha, zona norte e subúrbio do Rio, onde também cresci. Aos 19, me mudei para São Paulo para trabalhar como comissária de bordo, quando conheci diversos recortes de todas as regiões do Brasil, me conectando mais ainda com o Nordeste, de onde vem minha mãe; e me redescobrindo ao sul do país, pra onde, aos 21, me mudei. Moro em Porto Alegre há quase 4 anos, lugar mais ao sul que pude habitar, onde conheci o frio e nasci tantas vezes além da primeira, longe do mar, do Complexo do Alemão, da Igreja da Penha, do Morro Dois Irmãos, dos biscoitos globo, dos ônibus a 120km/h e dos grãos de areia que grudam pra sempre.
Desde o começo da adolescência transponho palavras de dentro pra fora, nesses fluxos inalcançáveis, ou quase. A escrita surgiu na minha vida como uma necessidade que, com o passear da alma e do corpo pelos lugares – tangíveis ou não – e pelos tempos – reais em memória, em presentes efêmeros ou em sonhos –, foi se confundindo com um pedaço da própria existência, ou caminhando para além dela.

 

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