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O dom

Conto de Tamara Chagas

Eram como palavras entalhadas na madeira. A superfície, machucada e passiva, deixava-se dominar pelos signos...

Não foi fácil quando o “dom” se manifestou em mim pela primeira vez. Ele veio para disseminar seu império; veio para que as vozes pudessem delatar o que os outros faziam ou diziam. As coisas tornaram-se confusas e claramente irracionais, porém, para mim, tudo parecia óbvio e lógico.  Eu acreditava piamente nelas e no poder que as permitia existir. Por mais que me fizessem sofrer, a suposta verdade que continham era a prova definitiva de quão virtuosas eram.  

Um dia, com a ajuda de alguns demônios, outras vozes vieram à tona. Essas, por sua vez, não foram entalhadas, mas sopradas pelo vento. Um vento de cheiro acre contra o qual já havia perdido a luta. Essas vozes não sabiam, mas eu era a vítima. Isso porque as palavras – uma vez mais, as palavras – saltavam diante dos meus olhos. Veja bem, somente algumas delas: aquelas de ódio. Como um touro em sua batalha contra os aplausos, deixei-me sacrificar para que a platéia de vampiros tivesse sua indignação garantida. Com olhares hipócritas, as tais outras vozes levaram-me para a guilhotina. Arrancaram minha cabeça por diversas vezes, até se cansarem e partirem rumo a Oeste, onde encontraram outra mulher para perseguir por conta do excesso de maquiagem.

As primeiras vozes – descobri que mentiam. O Sol se tornou cada vez mais raro em minha vida. Num certo dia, as cores deixaram de existir. Tudo era erguido e destruído num piscar de olhos. A grande roda parou. Foi quando comecei a tomar as pílulas. Semanas depois, despedi-me das vozes e elas não mais retornaram. De vez em quando, todavia, confundo o que é real aqui dentro com o que é real do lado de fora. Mas as pessoas não compreendem isso. Creio que, para elas, seja melhor opção viverem sem nunca ter de fato escutado a saber que existem outras irrealidades.

 

 

 

Primavera 2015 / Museu das conversas desencontradas

Tamara Chagas

Tamara Chagas é professora, artista e pesquisadora espírito-santense. Formou-se em Bacharelado em Artes Plásticas (2008) e possui mestrado em História da Arte pela Universidade Federal do Espírito Santo (2012). Pesquisa sobre temas relacionados à produção artística contemporânea e à crítica de arte. Sua dissertação de mestrado abordou a atuação de Frederico Morais como crítico, artista e organizador de exposições durante os anos 1960/70. Publica artigos científicos em revistas acadêmicas e em anais de congressos. Já participou de exposições de arte no Brasil e no Exterior. Quando criança, sonhava em se tornar escritora. Aos doze anos, começou a escrever.

Sites da autora

tamarachagas.blogspot.com.br cargocollective.com/tamarachagas

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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